Fonte: UDOP
A resposta começa, claro, pela relação entre oferta e demanda, mas vai muito além. Historicamente, o petróleo é a matéria-prima mais sensível a movimentos econômicos e geopolíticos. Eventos como crises financeiras, conflitos no Oriente Médio e mudanças de governo em países produtores têm o poder de mudar drasticamente a curva dos preços.
Dois exemplos: o rompimento do acordo nuclear com Irã pelos Estados Unidos gerou tensão geopolítica, ajudando a pressionar os preços para cima. Na Venezuela, a estatal de petróleo, a PDVSA, foi dilapidada pelo chavismo, perdeu capacidade de investimento, se endividou e não foi capaz de manter a produção de cerca de três milhões de barris diários. Hoje produz menos da metade, reduzindo portanto a oferta mundial.
Em pouco mais de dois anos, o valor do barril tipo Brent, negociado em Londres, mais que dobrou. No início de 2016, era vendido abaixo dos US$ 30. Nesta terça-feira (5), fechou a US$ 75 - uma alta de 159%. Nesse mesmo período, tanto a produção como o consumo mundiais avançaram cerca de 3%. Ou seja, não houve um real descompasso entre oferta e demanda. O que explica essa disparada então?
Primeiro, é importante lembrar que os contratos de petróleo são negociados nos mercados futuros das bolsas de valores e, assim como outros ativos financeiros, reagem às expectativas.
Mudanças nas estimativas de crescimento das principais economias do mundo afetam o preço, pois podem afetar a demanda no futuro. O mesmo vale para alterações nas expectativas de produção - mesmo que elas não se concretizem, já o mercado tenta sempre se antecipar aos fatos.
Declarações de membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), grupo que responde por 40% da produção global da matéria-prima, também têm o poder de jogar as cotações para cima ou para baixo. Especialmente da Arábia Saudita, o principal produtor desse oligopólio e o maior exportador de petróleo do mundo.
Ou seja, é um mercado extremamente volátil. E que vem crescendo exponencialmente. Dados da Bloomberg mostram que, em 2000, eram negociados na bolsa dos EUA cerca de 500 mil contratos futuros de petróleo. Número que saltou para 2,5 milhões em 2018.
Outro indicador que os investidores observam com lupa é a capacidade de produção dos países que integram a Opep. Quanto maior a capacidade, maior o poder de resposta desses produtores a eventuais crises que afetem a cadeia do petróleo. Quando os níveis estão baixos, os preços tendem a subir. E vice-versa.
E como se trata de uma matéria-prima, o barril do petróleo é apenas o início de uma longa cadeia de produção. Quando chega às refinarias dos diferentes países, ainda sofre impacto da cotação do dólar, dos impostos e da maior ou menor concorrência entre as empresas do setor. Uma equação complexa e muito difícil de ser ajustada na marra pelos governos.
Mas qual a chance de uma reversão dos preços no mercado internacional? O petróleo a US$80 dólares, como chegou a ser cotado, começa a incomodar os paises exportadores, os mesmos que em dezembro de 2016 fizeram um acordo para reduzir a produção, quando o preço estava a US$30, para forçar uma elevação dos preços. Foram bem sucedidos.
Mas e agora? Sabe-se que um preço muito alto, com o tempo, provoca duas coisas: redução do consumo e aumento da produção, pois o preço elevado viabiliza novos investimentos e aumento de produção em áreas menos rentáveis.
E quando o preço cai, cai para valer. Nesse caso, a aflição passa para o lado de lá, dos paises fortemente dependentes da receita de exportação do petróleo. Quando o preço cai, muitos são tentados a aumentar a produção para manter a receita. O cartel de exportadores, a Opep, perde funcionalidade.
Ouro ponto importante: a produção nos Estados Unidos está fortemente baseada no gás de xisto.Uma atividade que fica altamente rentável com o petróleo a partir de US$60. Já circulam informações de que a produção lá está aumentado e pode chegar ao equivalente a 10 milhões de barris.
Enquanto isso, os países da Opep, mais a Rússia, que não é filiada ao cartel mas participa do acordo de redução da produção, começam a discutir a possibilidade de aumentar a produção numa reunião extraordinária agora em junho.
Em resumo: o mercado de petróleo é influenciado por fatores múltiplos, vive em equilíbrio instável, ora pende a favor dos exportadores, ora para os importadores. Por isso, é altamente especulativo, pois muito difícil de prever as tendências de curto prazo.
Em tempo: dez anos atrás, o preço do barril era muito mais alto do que hoje, ultrapassou os US$100 por barril. Um prolongado ciclo de crescimento econômico, especialmente da China, elevou o consumo e alavancou os preços.
Foi nesse período que os governos Lula e depois Dilma, obrigaram a Petrobrás a manter os preços artificialmente baixos para não desagradar o consumidor-eleitor. Anos depois a empresa estava à beira do colapso.
O aumento continuado no preço dos combustíveis foi saída para salvar a companhia. Moral da história: mais cedo ou mais tarde o consumidor-contribuinte é quem paga, de um jeito ou de outro. A conta que se esconde hoje aparece lá na frente. Com juros e correção.
João Borges e Bianca Pinto Lima
Fonte: Portal G1