Fonte:Valor Online
O diretor da AIE, Fatih Birol, disse que está entusiasmado com o papel do Brasil no mercado internacional de petróleo
Às vésperas da reunião da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, sinaliza em entrevista ao Valor a necessidade de países produtores aumentarem a produção para evitar novas altas do preço do barril.
Na reunião desta sexta-feira e sábado em Viena, o cartel da Opep discutirá se mantém seu acordo de redução de produção até o fim de 2018, num cenário de queda de produção prolongada na Venezuela e de perspectiva de queda também no Irã por conta das novas sanções americanas ao país.
Dados divulgados ontem pela consultoria Vortexa apontam que as exportações de petróleo do Irã caíram para 2,15 milhões de barris/dia na primeira quinzena de junho, de 2,76 milhões de barris/dia nos meses de abril e maio. Essa queda reflete a decisão do presidente americano Donald Trump de retirar os EUA do acordo nuclear do Irã e retomar as sanções.
“Se as exportações desses países caírem drasticamente, será necessário que outros produtores preencham a lacuna se quisermos evitar a possibilidade de os preços subirem abruptamente”, afirma Fatih Birol. Ele diz ter recebido da Arábia Saudita garantia de que Riad quer um mercado estável.
O atual acordo da Opep entrou em vigor há 18 meses para estabilizar o preço do barril, numa situação bem diferente da atual. A demanda agora é mais robusta e deve continuar a crescer em 2019 com a solidez da economia mundial, pelas projeções da AIE.
A avaliação entre analistas é que a Arabia Saudita aceita aumentar as cotas de produção, assim como a Rússia, que não é membro da Opep. Mas considera-se que os países mais pobres da Opep preferem manter a atual tendência de alta dos preços.
Ontem, ao desembarcar a Viena para a reunião do cartel, o ministro de petróleo do Equador, Carlos Perez, disse que a Opep vai discutir um aumento na produção de 1,5 milhão de barris/dia.
Na semana passada, Trump fez críticas à Opep. "Os preços do petróleo estão muito elevados e é ainda a Opep que está na manobra. Nada bom", tuitou ele.
Nos mercados internacionais, os preços do petróleo fecharam em alta ontem, recuperando parte das acentuadas perdas sofridas na sexta-feira, depois que a China ameaçou sobretaxar as importações da commodity dos EUA. Depois de cair 3,3% na sexta-feira, ontem o petróleo Brent subiu 2,6% e fechou a US$ 75,34 por barril.
Na entrevista ao Valor, Fatih Birol, economista de 60 anos, nascido na Turquia e que está à frente da AIE desde 2015, mostra-se entusiasmado com o papel do Brasil no mercado internacional de petróleo. Diz que o país é um ganhador e que o pré-sal é hoje um dos recursos mais atrativos no segmento.
Valor: O preço do petróleo aumentou mais de 75% desde junho de 2017. O barril a US$ 100 é o novo limite para a commodity?
Fatih Birol: Como chefe da AIE, não posso comentar publicamente sobre níveis de preços futuros do petróleo. Mas o que eu posso dizer é que preços mais elevados estão prejudicando os consumidores hoje e podem atingir os produtores no longo prazo.
Valor: Quais as razões para essa alta? O que pesa mais: fundamentos ou geopolítica?
Birol: Os preços subiram devido à robusta demanda por petróleo e ao sólido cumprimento por parte dos países [da Opep] do acordo de Viena [com a Rússia] sobre cortes na produção de petróleo. Isso contribuiu para que os estoques de petróleo caíssem abaixo da média de cinco anos. Preocupações geopolíticas, incluindo a situação da Venezuela, sempre tiveram um papel na formação de preços, mas é impossível definir com precisão o 'prêmio' da geopolítica no preço do petróleo.
Valor: A Venezuela é o maior risco para o mercado de petróleo nas próximas semanas ou meses?
Birol: As perspectivas para 2018 e 2019 serão fortemente influenciadas pelo contínuo declínio da produção petrolífera venezuelana e pelo possível impacto das sanções contra o Irã. Se as exportações desses países caírem drasticamente, será necessário que outros produtores preencham a lacuna, se quisermos evitar a possibilidade de os preços subirem abruptamente.
"Licitações mostram que o pré-sal brasileiro está entre os recursos petrolíferos mais atraentes do mundo"
Valor: A que ponto pode ser a queda de produção da Venezuela? Estão corretas as estimativas de que o país está produzindo menos de 1,5 milhão de barris/dia?
Birol: Em maio, estimamos que a produção de petróleo da Venezuela foi de 1,36 milhão de barris/dia, uma queda de 1 milhão de barris/dia em dois anos. Não podemos saber exatamente quanto mais a produção irá diminuir, mas não seria surpreendente se fosse várias centenas de milhares de barris por dia abaixo do nível atual no final do ano.
Valor: O petróleo de xisto nos EUA poderia compensar essa perda da Venezuela nos mercados?
Birol: A produção de petróleo bruto dos EUA crescerá fortemente em 2018 e 2019, em 1,3 milhão de barris/dia e em 0,9 milhão de barris/dia, respectivamente. Embora essa oferta crescente seja claramente bem-vinda, é improvável que os EUA possam compensar as perdas vindas da Venezuela e do Irã.
Valor: O sr. acha que a Arábia Saudita tem uma meta de preço ou deixará o petróleo subir o máximo possível?
Birol: A Arábia Saudita tem repetidamente tranquilizado o mercado, e o seu ministro da Energia, Khalid al-Falih, assegurou-me pessoalmente, que o país deseja ver mercados de petróleo estáveis e que reconhece o perigo de preços ainda maiores.
Valor: Como o sr. vê o impacto do aumento dos preços do petróleo para os projetos de exploração em águas profundas do Brasil? O Brasil é um vencedor? E por quê?
Birol: O Brasil já é um vencedor quando se trata do setor de petróleo, e eu suspeito que o país também possa ser um vencedor na Copa do Mundo da Fifa na Rússia. A produção de petróleo do Brasil crescerá fortemente neste ano e no próximo. Em 2018 a produção crescerá em 100 mil barris/dia e esperamos uma forte aceleração no próximo ano, de 390 mil barris/dia. Depois dos EUA, o Brasil fará a maior contribuição para o crescimento da produção não-Opep nos próximos anos. As recentes rodadas de licitações bem sucedidas consolidaram ainda mais a visão de que o pré-sal brasileiro está entre os recursos petrolíferos mais atraentes do mundo, apontando para um potencial de crescimento contínuo no médio e longo prazo.
Valor: Em quanto o crescimento da demanda será afetado? Ou a economia mundial hoje depende menos do petróleo?
Birol: A demanda por petróleo continuará a crescer por muitos anos, liderada por países em desenvolvimento cujas populações estão se tornando mais ricas ano após ano. Muitos fatores podem afetar o futuro da demanda por petróleo, incluindo melhorias tecnológicas e desenvolvimento de políticas. Mas, mesmo depois de a demanda de petróleo chegar ao pico, ela permanecerá em níveis elevados por algum tempo.
Valor: O que esperar das empresas que haviam se acostumado aos baixos custos de energia nos últimos quatro anos?
Birol: A AIE vem enfatizando a importância da eficiência energética há muito tempo, já que é o 'primeiro combustível' que devemos utilizar antes de qualquer outro. É claro que um período de preços mais altos criará incentivos renovados para que consumidores e empresas aproveitem essa oportunidade.
Fico contente que o Brasil esteja tomando medidas para melhorar sua eficiência energética. Atualmente, estamos apoiando o trabalho em andamento do governo brasileiro para desenvolver um plano de dez anos para a eficiência energética e, nesse processo, estamos aprendendo com as experiências que o Brasil fez com seus próprios programas de eficiência. Essa é exatamente a relação win-win [onde todas as partes têm ganhos] que queremos ter com o Brasil.
Valor: Com o petróleo mais caro, veremos crescimento maior da demanda por veículos elétricos?
Birol: Em 2017, as vendas globais de veículos elétricos aumentaram 54% e ultrapassaram 1 milhão pela primeira vez, levando a um estoque global de 3 milhões. No entanto, os veículos elétricos ainda são apenas 0,3% da frota de carros hoje. Sustentar uma taxa de crescimento tão alta será difícil à medida que os números de estoque absoluto aumentam. Um apoio político consistente e generalizado é, portanto, essencial. Os preços mais altos do petróleo também proporcionam maiores incentivos para os veículos elétricos.
Valor: Como está a relação entre a AIE e o Brasil?
Birol: Em outubro de 2017, fiquei extremamente orgulhoso em receber o Brasil na AIE como membro associado. Com o Brasil, a família da AIE responde agora por mais de 70% do consumo total de energia do mundo, em comparação com menos de 40% apenas dois anos atrás. Além dos nossos 30 membros efetivos, os sete países associados da AIE são Brasil, China, Índia, Indonésia, Marrocos, Cingapura e Tailândia.
A AIE valoriza esse relacionamento aprofundado com o Brasil, dada sua crescente importância na energia mundial, bem como sua experiência e especialização no campo energético, desde a bioenergia até a tecnologia em águas profundas.