Folha de S.Paulo
Em seu recente livro, “How to Avoid a Climate Disaster” (Como evitar o desastre climático), Bill Gates define o “ágio verde” (“green premium”) como a diferença de custo entre fazer algo (produto, serviço ou atividade) da maneira tradicional (com emissão de carbono) e fazer o mesmo de forma limpa, “verde”.
Organismos multilaterais e governos de países desenvolvidos têm forçado as empresas a implementar uma transição rápida para o mundo verde. Do lado privado, a mudança no comportamento do consumidor de países ricos e o ESG também contribuem na mesma direção.
A transição energética –cuja meta é alcançar zero emissões líquidas em 2050–, é o maior desafio que a humanidade já teve, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Poucos, no entanto, compreendem a magnitude dos sacrifícios necessários para chegarmos lá.
O ágio verde ainda é muito alto, e o encarecimento dos produtos frequentemente os torna inacessíveis para a população de mais baixa renda. A fabricação de aço mais limpo custa 30% mais caro, e o querosene de aviação mais limpo custa mais que o dobro que o tradicional.
Os ambientalistas argumentam que este é um preço baixo a pagar para salvar a humanidade da catástrofe das mudanças climáticas. Mas não são os ambientalistas da ONU que pagam este “imposto verde”. Ao contrário dos pobres no Brasil e em países subdesenvolvidos, a população de países ricos pode se dar ao luxo de pagar mais caro.
Neste ano, a volta à normalidade econômica em um cenário ainda com rupturas das cadeias de suprimento por conta da pandemia revelou a fragilidade da transição: irrompeu uma crise energética global. A crise elevou os preços do carvão, gás natural e petróleo, que por sua vez encarecem quase todos os produtos e aumentam o ágio verde. É o greenflation (inflação dos produtos verdes).