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Governo lança programa para aumentar oferta de gás. Mas Brasil precisará desenvolver um mercado consumidor nos próximos anos, para o gás por vir.
Presidente da Petrobras diz que venda de Polo Bahia Terra será reavaliado “sob nova ótica”. Privatização da ES Gás atrai quatro interessados. E mais. Confira:
Quem vem primeiro: oferta ou demanda?
Ao anunciar o programa Gás para Empregar, o governo Lula concentra esforços em destravar investimentos em infraestrutura e, assim, aumentar a oferta de gás natural a preços mais competitivos.
Mas, para que a reindustrialização pautada no gás se concretize, será preciso olhar para a outra ponta do mercado: o consumo – que patina há anos, fruto da “década perdida” da economia, nos anos 2010.
E como se dará o casamento entre a oferta e a demanda? Conseguirá ele acontecer por livre e espontânea vontade? Ou precisaremos de alguém no papel de coordenação entre os fornecedores e consumidores?
Existe hoje uma demanda reprimida ao ponto de absorver todo o gás que pode vir, com a construção de novas rotas de escoamento? O aumento da oferta, por si só, será suficiente para estimular a demanda? Ou serão necessárias políticas públicas para criar novas demandas?
Quem fará o papel do Cupido?
Historicamente, a Petrobras exerceu um protagonismo na política de massificação do gás no Brasil. Foi assim nos anos 2000, quando a petroleira assumiu todos os riscos e investiu pesado no transporte e distribuição de gás para construir um mercado para o gás importado da Bolívia – e, assim, pagar o Gasbol, a grande fonte de molécula do mercado brasileiro à época.
A indústria do gás, porém, já não é a mesma: convive hoje com novos produtores, importadores e com um processo de desverticalização – a petroleira. vale lembrar, assumiu compromisso com o Cade, em 2019, para sair dos segmentos de distribuição e transporte. Vendeu, desde então, a Gaspetro, TAG e NTS. Mas ainda ficou, no transporte, com a TBG.
Num mercado já consolidado, oferta e demanda se casam naturalmente. Os primeiros anos de abertura do setor no Brasil mostraram, no entanto, que num mercado ainda em formação pode ser preciso mais.
No governo de Jair Bolsonaro, o BNDES chegou a ser escalado como articulador, entre os agentes da iniciativa privada, para destravar os investimentos em infraestrutura. Propôs então a criação de uma operadora independente dos gasodutos de escoamento. Mas não saiu do papel.
Agora, o governo Lula aposta, por meio do Gás Para Empregar, na figura da PPSA como “uma fonte geradora de possibilidades de construção de gasodutos”, nas palavras do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD).
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O ministro tem feito críticas recorrentes à falta de investimentos em infraestrutura de gás por parte das petroleiras e ao “desperdício” de gás com os altos índices de reinjeção – falas que encontram eco entre outras figuras do alto escalão do governo, como os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Geraldo Alckmin (MDIC).
Nem a Petrobras, tão presente nos discursos desenvolvimentistas de Lula, tem escapado das alfinetadas.
Nesta quinta (23/3), o presidente da companhia, Jean Paul Prates, afirmou que a empresa “não reinjeta gás porque gosta” e que está disposta, sim, a investir em projetos de infraestrutura para escoar o gás natural offshore, nos próximos anos. Mas que o “maestro da política setorial nacional é o governo”.
“Não acho que teremos problema para compor essa orquestra. O regente talvez não seja a Petrobras, mas o governo, querendo reger essa orquestra, os violinos e violoncelos estão todos afinados para tocar”, disse.
Procurado, Silveira respondeu que não faltará à União mão firme na definição das políticas de preço e investimento da Petrobras. Segundo o ministro, a petroleira “não pratica a atual política em relação ao gás por que gosta, mas, sim, por que não tinha responsabilidade com as brasileiras e brasileiros”.
O que importa é preço
O governo sinaliza que o casamento entre oferta e demanda passa pela questão do custo do gás. Não à toa, uma das medidas em estudo no âmbito do Gás Para Empregar é uma política de precificação de longo prazo do gás natural da União nos contratos de partilha.
A ideia é que ela leve em consideração os preços da molécula e dos produtos e energia obtidos a partir do gás natural. O governo ainda não deu detalhes do que pretende fazer.
A Coalizão pela Competitividade do Gás Natural Matéria-Prima, por exemplo, levou ao MME uma série de propostas para debate, entre elas a possibilidade de indexação ao Henry Hub – alternativa que a própria Petrobras abriu no passado.
Já a Unigel, que opera as fafens de Sergipe e Bahia, tem defendido, sem sucesso até o momento, nas negociações com seus fornecedores, a indexação do preço do gás aos preços internacionais da ureia, de forma que a indústria de fertilizantes não sejam penalizadas em momentos em que seus produtos se desvalorizem.
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O diretor de gás da Abrace e coordenador geral do Fórum do Gás, Adrianno Lorenzon, acredita que existe hoje uma demanda reprimida no mercado brasileiro por gás que poderia absorver rapidamente um aumento da oferta a preços competitivos.
Ele cita o exemplo o potencial de deslocamento de carvão no consumo de gás em alto-forno, nas siderúrgicas – que podem ver no gás também um fator diferencial em suas metas de descarbonização. A longo prazo, o gás novo poderia estimular investimentos em ampliação do parque industrial.
A questão toda, segundo ele, esbarra no custo da molécula – que deve ganhar competitividade nos próximos anos anos, se mantida a agenda de abertura do mercado, segundo Lorenzon.
“Não precisa ser em detrimento de um elo da cadeia, todo mundo pode sair ganhando”, defendeu o diretor da Abrace, ao participar do programa antessala, da epbr.
• Assista na íntegra a participação de Adrianno Lorenzon no antessala epbr | Óleo e gás nas estratégias do país
A Abrace teme que a discussão sobre a nova política do gás acabe, eventualmente, escorregando para políticas de subsídios direcionados a segmentos específicos. Para Lorenzon, o governo poderia ser o agente facilitador do casamento entre as demandas industriais e ofertantes.
País precisa de visão desenvolvimentista, diz Abegás
A associação das distribuidoras defende uma política desenvolvimentista para ampliação da demanda e da infraestrutura de transporte – e não só escoamento do gás.
“Não adianta chegar com milhões de metros cúbicos no mercado sem previsão de onde alocar isso”, afirmou o presidente executivo da Abegás, Augusto Salomon.
A associação defendeu, nos últimos anos, a interiorização da malha de gasodutos ancorada na contratação compulsória de termelétricas em regiões sem acesso à infraestrutura de gás – proposta que acabou sendo incluída na lei de desestatização da Eletrobras.
Agora, a Abegás endossa a Coalizão pela Competitividade do Gás Natural Matéria-Prima e defende também a massificação do GNV na frota de veículos pesados. A substituição do diesel importado demandaria, nos cálculos da associação, cerca de 30 milhões de m3/dia.
A Abegás é uma das entidades mais vocais na defesa da redução da reinjeção de gás (sem o estabelecimento de limites).
As distribuidoras veem, nesses diferentes usos do gás (em caminhões, termelétricas, indústrias e fertilizantes), uma forma de garantir consumo firme para a oferta por vir.
“O mercado é o equilíbrio entre oferta e demanda. Não se pode esquecer o outro lado. Precisamos encontrar um mercado, é importantíssimo olhar o lado da demanda”, afirmou diretor de Estratégia e Mercado da Abegás, Marcelo Mendonça. “Precisamos de uma visão mais desenvolvimentista para alcançar nosso objetivo”, complementou.