Valor Econômico
Os russos se tornaram, este ano, o maior fornecedor externo de diesel ao Brasil. O Brasil, por sua vez, se tornou o segundo maior consumidor do produto russo. O diesel representa 52% das importações brasileiras de combustíveis derivados de petróleo.
Com as sanções comerciais impostas pela Europa desde a eclosão da guerra com a Ucrânia, os russos. O diesel representa 52% das importações brasileiras de combustíveis derivados de petróleo.
Com as sanções comerciais impostas pela Europa desde a eclosão da guerra com a Ucrânia, os russos tiveram que encontrar mercados alternativos para o petróleo e seus derivados, como o Brasil, a China e a Índia, que também puderam refinar o petróleo russo e revender.
Desde fevereiro deste ano, a União Europeia embargou a entrada de diesel e outros derivados do petróleo vindos da Rússia. O petróleo bruto já estava proibido desde dezembro. Além disso, o país também tem comercializado petróleo e derivados com desconto em relação às cotações oficiais.
Os preços no Brasil vão subir?
A decisão russa pode surtir alguns efeitos sobre o Brasil, como pressionar a Petrobras a aumentar os preços nas refinarias. A companhia não importa diesel russo, mas pode ser afetada por uma reação em cadeia no mercado interno.
“A Petrobras consegue ter a defasagem dela tendo o mercado brasileiro abastecido com o diesel russo, mais barato. Mas, em um mercado com menos oferta, logo o preço vai subir e a Petrobras será mais rapidamente pressionada a elevar o preço”, afirma Pedro Rodrigues, sócio e diretor e do Conselho Brasileiro de Infraestrutura.
Com a nova gestão, a estatal abandonou o Preço de Paridade de Importação (PPI), pelo qual os preços dos combustíveis no mercado doméstico acompanhavam as variações no mercado internacional, considerando a cotação do petróleo e o câmbio.
Relatório divulgado pelo Goldman Sachs nesta quinta (21) também indica que a Petrobras pode ter que subir os preços para impedir um desabastecimento de diesel no Brasil. Para o banco, a petroleira usa como uma de suas métricas o preço das importações de diesel, incluindo o russo, mais barato que os combustíveis que vêm da Costa do Golfo.
“Com a oferta limitada da Rússia, o desconto da Petrobras para a oferta alternativa aumentaria, aumentando assim a probabilidade de um ajuste de preços para cima”, diz o relatório do Goldman Sachs assinado pelos analistas Bruno Amorim, João Frizo e Guilherme Costa.
Especialistas ressaltam que o comunicado russo não deixa claro o formato e o período de duração do corte, o que não permite afirmar com certeza quais serão os reflexos e a extensão da medida. Eles explicam, por exemplo, que a compra de diesel é feita por meio de contratos longos e complexos, e que é preciso entender se a Rússia pretende anular esses acordos.
“É muito difícil saber quando esse preço chega na bomba. Primeiro pela lógica do setor, em que as distribuidoras e a Petrobras têm estoque e estão livres para praticar preços. Depois, porque o anúncio é incompleto à medida em que não esclarece como o corte vai acontecer. Quem compra diesel, não compra igual a uma Coca-cola”, ressalta.
Efeitos a partir de novembro
Para Thiago Vetter, consultor em gerenciamento de risco da StoneX, a possibilidade de a Rússia restringir a exportação de diesel por longo prazo é remota devido ao grande excedente do produto frente à demanda do mercado interno.
Mas, caso a interrupção seja prolongada, pode haver menor entrada de diesel russo no país em novembro, pressionando o preço nas bombas.
“O possível impacto para o mercado internacional deve ser limitado, considerando um retorno provável da Rússia à exportação normal de produto em breve. O preço internacional deve continuar pressionado, e mantida a restrição, devemos ver uma menor disponibilidade de produto russo competitivo chegando aos portos brasileiros em novembro, gerando uma possível pressão de alta de preços nas bombas”.
Cotação do petróleo
O petróleo teve uma sessão volátil e terminou em queda modesta nesta quinta-feira. Os investidores reagiram às notícias sobre as exportações da Rússia e a um dado que sugeriu força do mercado de trabalho dos Estados Unidos.
O barril do petróleo WTI – referência americana – com entrega prevista para novembro teve queda marginal de 0,03%, a US$ 89,63. Já o barril do Brent – referência global – caiu 0,25%, a US$ 93,30.
“Importante dizer que independentemente da clareza da decisão, o mercado funciona com expectativa. As consequências virão e já estão vindo”, conclui Rodrigues.