Biodiesel oxida mais rápido e favorece a formação de resíduos
Estadão Online
A partir de 1º de agosto, o diesel vendido nos postos brasileiros passará a conter 15% de biodiesel, como prevê o cronograma da Política Nacional de Biocombustíveis. A medida, definida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), tem como objetivo ampliar o uso de combustíveis renováveis no transporte rodoviário e reduzir as emissões de carbono.
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Contudo, embora o diesel B15 ofereça benefícios ambientais, ele também impõe desafios técnicos, sobretudo para caminhões mais antigos, que não foram projetados para operar com biodiesel. Essa mudança exige a revisão dos hábitos de manutenção e pode impactar diretamente o desempenho, o consumo e a durabilidade dos veículos.
“Quando o teor de biodiesel passa de B10, os caminhões com mais de dez anos, que compõem uma parcela relevante da frota nacional, passam a demandar cuidados e adaptações mais frequentes”, afirma Thelis Botelho, CEO da Carbo Vapt e CarboFlix, empresas especializadas em soluções para descarbonização e estabilização de combustíveis.
Com até 12% de oxigênio em sua composição, o biodiesel oxida mais facilmente do que o diesel mineral. De acordo com Botelho, essa característica gera resíduos que se acumulam na câmara de combustão e nos bicos injetores, comprometendo a pulverização e prejudicando a eficiência da queima. Além disso, o combustível absorve mais água do ambiente, o que favorece a formação de borras, entupimentos e a proliferação de microrganismos no sistema.
Nos caminhões mais antigos, esses efeitos se manifestam de forma mais intensa. Isso acontece porque esses veículos muitas vezes possuem peças mais feitas de materiais que não são compatíveis com o biodiesel, como borracha nitrílica. “O biodiesel também serve de alimento para bactérias, o que agrava os problemas de entupimento e acelera a degradação do combustível armazenado”, explica Botelho.
Problemas recorrentes incluem falhas na partida, perda de potência, aumento no consumo, saturação precoce de filtros e desgaste prematuro de bombas e injetores. Ainda de acordo com o especialista, o sistema de alimentação, especialmente em caminhões com tecnologia mais antiga, é dos pontos mais vulneráveis ao diesel B15.
Diante desse cenário, caminhoneiros e gestores de frota precisam reforçar a manutenção preventiva para evitar paradas inesperadas e preservar o desempenho dos veículos. De acordo com Botelho, é fundamental revisar o sistema de combustível, substituir filtros com mais frequência e trocar mangueiras e vedações por materiais mais resistentes ao biodiesel, como o Viton.
Além disso, tecnologias de descarbonização podem ajudar a restaurar a eficiência do motor. A Carbo Vapt, por exemplo, desenvolveu um sistema que injeta gás HHO e reagentes que dissolvem os resíduos acumulados na câmara de combustão. “Em cerca de uma hora, o processo limpa o sistema e pode reduzir o consumo em até 10%”, afirma Thelis.
O uso de aditivos também desempenha um papel crucial. O CarboZé, por exemplo, atua como estabilizador de combustível, encapsulando a água, inibindo o crescimento de bactérias e preservando a lubricidade do diesel – característica essencial para proteger peças sensíveis como bombas e injetores.
Se a proporção de biodiesel continuar subindo, como prevê o plano do governo, os desafios para veículos mais antigos devem aumentar. O biodiesel possui um ponto de congelamento mais alto, o que pode gerar problemas em regiões frias, como entupimentos e dificuldade de partida. A qualidade do combustível armazenado também tende a se degradar mais rapidamente com o passar do tempo.
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Dessa forma, a transição para o diesel B15 exige não apenas medidas técnicas imediatas, mas também um novo padrão de cuidados com os veículos. A adoção de práticas como limpeza periódica do sistema de alimentação, uso de aditivos e escolha de peças compatíveis é essencial para garantir a confiabilidade dos caminhões mais antigos.
“Com os cuidados certos, é possível rodar com segurança mesmo com o novo diesel. Mas ignorar essas mudanças pode sair caro em consumo, desempenho e risco de falhas”, conclui Thelis Botelho.