Incertezas e preocupações aumentaram no setor de combustíveis após EUA elevarem tom contra importação russa
Jornal O Globo
Após os Estados Unidos imporem uma tarifa adicional de 25% aos produtos vendidos pela Índia, em retaliação à compra de petróleo russo, o setor de combustíveis no Brasil elevou o nível de dúvidas, incertezas e preocupações entre presidentes de distribuidoras do país. Isso porque o diesel russo responde por cerca de 18% do consumo atual do combustível no Brasil.
Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), o consumo médio de diesel neste ano é de 185 milhões de litros por dia, dos quais 33, 3 milhões de litros diários são oriundos da Rússia.
Como a Petrobras não consegue atender sozinha à demanda do país, cerca de 30% do consumo nacional precisa ser suprido via importações. Nos primeiros seis meses deste ano, a Rússia liderou a venda do combustível, somando 61% das importações feitas pelo Brasil, de acordo com a Abicom, a associação de importadores de combustíveis.
– A taxação extra imposta à Índia por conta do petróleo russo acende um alerta, embora a importação de óleo da Rússia pela Índia seja histórica, e não circunstancial como nossa. A importação brasileira de diesel russo é um fenômeno mais oportunista, decorrente das sanções pela invasão da Ucrânia, que resultaram em sobra de diesel russo a preços menores – diz Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e especialista do setor de petróleo.
Prates, que está na Índia participando do Fórum Brasil-Índia, lembra que apenas refinarias indianas privadas, como a Reliance (controlada por empresários indianos) e a Nayara (que tem a estatal russa Rosneft como acionista), importaram, no primeiro semestre, cerca de 1, 75 milhão de barris de petróleo russo por dia – quase 40% do consumo nacional de petróleo.
– A Índia é um dos maiores importadores mundiais de combustíveis fósseis russos. Estamos no primeiro dia do Fórum Brasil-Índia e, já no jantar oferecido pela Câmara de Comércio Índia-Brasil à delegação brasileira, o que ouvi nas conversas com o empresariado indiano é que os nossos dois países precisam se conectar mais imediatamente para resistir a essas pressões de Trump, e que essa talvez seja a oportunidade -diz Prates. Sérgio Araújo, presidente da Abicom, diz que o momento é de muitas incertezas no setor:
– Se o Brasil for obrigado a parar de importar diesel da Rússia, será necessário buscar novos fornecedores, como EUA, Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos, entre outros. Não será simples encontrar o volume necessário, e o custo deverá subir.
Segundo Araújo, o preço do diesel russo é mais baixo desde o início da guerra na Ucrânia, o que estimula as importações. De acordo com distribuidoras, a redução varia entre 10% e 20% em relação aos rivais.
Ontem, senadores que participaram de missão oficial aos EUA para discutir o tarifaço alertaram o vice-presidente, Geraldo Alckmin, que a compra de petróleo russo pelo Brasil está gerando preocupação em Washington e pode dificultar as negociações comerciais entre os dois países. Segundo Nelsinho Trad (PSD-MS), interlocutores americanos chegaram a mencionar que a questão do petróleo pode unir os dois partidos no Congresso dos EUA em favor de novas taxas contra o Brasil.
ALERTA PARA O PREÇO
O presidente de uma distribuidora privada, que não quis se identificar, lembra que buscar novos mercados esbarra na estratégia da Petrobras, que hoje vende diesel abaixo da paridade internacional. Segundo a Abicom, o preço do diesel da Petrobras é 6% menor em relação ao mercado externo (R$ 0, 21 por litro).
Para esse executivo, o mercado se questiona se a Petrobras vai assumir o papel de importadora para garantir o abastecimento nacional ou se continuará com sua política atual de preços abaixo da paridade internacional. A questão, diz ele, é que a Petrobras não tem a obrigação legal de garantir o abastecimento, já que esse papel cabe à Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Para o CEO de outra companhia, caso a Petrobras mantenha preços abaixo da paridade internacional, os importadores não conseguirão trazer diesel mais caro ao país, pois não haverá mercado. Por outro lado, questiona, será que ela vai importar mais e vender a preços mais baixos, gerando possível prejuízo? Por isso, diz, não se pode descartar o risco de faltar combustível no Brasil, devido ao aumento esperado nos preços do diesel, com a possibilidade de restrição.
Para Prates, o preço baixo do diesel russo, a recuperação da atividade econômica e o agronegócio impulsionaram a demanda pelo combustível, especialmente no Centro-Oeste e Sul.
-O fato de a Rússia ser a fornecedora dominante de diesel no Brasil não é por mérito exclusivo dos russos, mas por uma combinação de inércia regulatória e apetite comercial do setor privado. Sem diretrizes geopolíticas mais assertivas e uma política industrial para combustíveis, o mercado reagiu por lógica econômica. O governo deveria monitorar melhor e com precisão a origem e o destino dos combustíveis importados. A partir disso, tentar diversificar fornecedores de diesel e reforçar o papel da Petrobras e da produção interna -disse Prates.
O especialista lembra que, embora o aumento do teor de biodiesel tenha como intenção reduzir a dependência de importações, o efeito foi o oposto, com alta nas importações, já que o biodiesel nacional está mais caro do que o diesel fóssil importado. (Colaborou Bruna Lessa)