Usinas de etanol apostam no milho para ampliar produção no Brasil

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O setor bioenergético brasileiro tem apostado no milho como fator estratégico para manter a liderança brasileira no segmento de combustíveis “descarbonizados”. Com produção recorde e baixo custo logístico, esse cultivo é apontado como peça-chave para ampliar a produção nacional de etanol, hoje derivada principalmente da cana de açúcar.

De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o Brasil tem potencial para ampliar a produção de etanol de milho, “aproveitando excedentes e ganhos de produtividade agrícola, sem comprometer a segurança alimentar.”

A atual safra de milho no Brasil deve ser a maior já registrada, por volta de 137 milhões de toneladas. “Atualmente, a produção de etanol consome cerca de 20 milhões de toneladas desse cereal, enquanto o consumo interno gira em torno de 80 milhões de toneladas. Isso demonstra que há ampla margem para exportações sem comprometer o abastecimento doméstico”, diz Vinícius Pereira Guimarães, chefe-geral da Embrapa Milho e Sorgo.

Na visão dele, não há necessariamente uma competição entre o milho que vai para a mesa e aquele que entra no tanque do carro. “A combinação de tecnologia, ganhos de produtividade e o cultivo de múltiplas safras cria sinergias entre a produção de biocombustíveis e a segurança alimentar, favorecendo o uso mais eficiente da terra e contribuindo para o aumento da oferta de alimentos.”

Um estudo de pesquisadores do Centro Universitário do Vale do Ipojuca (PE) publicado em 2023 na revista “Engineering Sciences” concluiu que o etanol de milho pode efetivamente concorrer com outros cultivos alimentícios e reduzir a oferta do produto para alimentação humana ou animal. No entanto, esse efeito é parcialmente compensado pelo barateamento da produção animal com o uso do grão seco de destilaria (DDG, na sigla em inglês), um subproduto do etanol que tem alta concentração proteica e serve como matéria-prima para rações.

O estudo também recomenda investimentos públicos e privados para desenvolver tecnologias que minimizem o impacto ambiental desse cultivo — com uso intensivo de fertilizantes e pesticidas —, já que o potencial do etanol como combustível limpo e renovável pode ser compensador nessa balança.

“A produção de etanol de cana-de-açúcar apresenta maior eficiência energética e menor impacto ambiental quando comparada ao etanol de milho. No entanto, o etanol de milho possui vantagens em relação ao etanol de cana-de-açúcar, na área da logística e na disponibilidade em determinadas regiões”, escrevem os autores, citando estudos anteriores nessa área.

Milharais em expansão

Segundo a Unica, o cultivo sucroalcooleiro está limitado a seis estados do país, que detêm 90% da produção, enquanto milho está em crescimento e já ocupa outras áreas em todo o país. O milho gera também subprodutos de alto valor, como o DDG e o óleo de milho, que serve como base para a fabricação de biodiesel ou para consumo humano.

O engenheiro Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência da Unica, observou que “o Brasil tem um modelo único de produção de biocombustíveis”, com diferentes rotas tecnológicas que se complementam em prol da estabilidade energética. “Tanto a cana quanto o milho contribuem para ampliar a oferta de etanol, gerar empregos, reduzir emissões e consolidar o país como liderança mundial em bioenergia,” disse ele ao UOL.

No cenário global, os combustíveis limpos despontam como ferramentas essenciais para a descarbonização e a diversificação da matriz mundial, atraindo o interesse de países que buscam reduzir emissões e custos. As entidades do setor reforçam que, nesse movimento, o Brasil ocupa posição central, liderando a produção e detendo tecnologia de ponta e experiência.

Mudança nas refinarias

Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), 20% do etanol consumido no Brasil já é de milho – e isso deve aumentar, pois está prevista a abertura de 20 novas biorrefinarias no país, sendo maior parte delas na região Centro-Oeste.

Esse aumento reflete uma maior disponibilidade do grão no mercado: na última década, a produção de milho saltou de 72,9 milhões para 113,4 milhões de toneladas. Segundo a Unica, a produção de etanol de milho no Centro-Sul alcançou 8,19 bilhões de litros na safra 2024/25.

“Esse volume representa um crescimento expressivo frente às safras anteriores e reforça o papel complementar dessa rota em relação à tradicional produção a partir da cana-de-açúcar”, disse a entidade em nota.

Rodrigo Silva, coordenador de Inteligência de Mercado do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), aponta que a expectativa é mais do que dobrar a produção em 10 anos.

“Para a próxima safra são esperados 9,9 bilhões de litros de etanol [de milho] e para safra de 2034/35, deve chegar a 21,7 bilhões de litros. É um aumento bem considerável”, aponta Silva. A estimativa é que na próxima década, o milho moído para produção de etanol consuma 28% dos grãos colhidos, frente aos 15% destinados hoje à essa produção.

“Hoje temos 22 biorrefinarias em operação, 11 delas no Mato Grosso. Essa concentração existe em razão das condições oferecidas para a indústria, mas a tendência dos grupos investidores, com capital internacional e brasileiro, é espalhar e fomentar a economia de outras regiões”, apontou Bruno Alves, diretor de Relações Institucionais e Sustentabilidade da UNEM, durante um painel na Fenabio, evento que é considerado a maior feira do mundo exclusivamente voltada para a cadeia de bioenergia. Alves também observou que a maior usina de etanol ativa no Brasil atualmente utiliza o milho como matéria-prima.

A Unica diz não haver diferenças de qualidade entre o etanol de cana e o derivado de milho. Quanto ao custo, a entidade “não divulga comparativos diretos entre as rotas para evitar distorções, pois se trata de cadeias produtivas distintas”. “Ambas são competitivas e sustentáveis nos seus contextos”, acrescenta a entidade setorial.

Frota nacional como âncora

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apresentou dados na Fenabio indicando que, com os atuais 78% de motores bicombustível na frota nacional, o país tem condições de ampliar o consumo interno e consolidar-se como referência global em produção e uso de etanol.

Henry Joseph Junior, da Anfavea, ressaltou no evento que, se a frota flex usar 100% etanol, “teríamos a maior descarbonização de todo o transporte mundial”

No caso do milho, o crescimento do setor já está atrelado a alta demanda interna por biocombustíveis. “Esse é um setor em construção, com muito potencial de desenvolvimento. A primeira planta com etanol de milho puro começou a operar em 2017 e há um excedente de milho passível para conversão em bioenergia“, disse Alves.

Danielle Castro

Fonte: UOL

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