Investimentos podem chegar a R$ 188 bi. Desses, R$ 77,3 bi (seis projetos) deveriam ter a decisão final ainda neste ano
Jornal O Estado de S. Paulo
A consultoria McKinsey estima que toda a cadeia de valor do hidrogênio verde, da geração à exportação, pode movimentar US$ 200 bilhões no Brasil até 2040. De acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNTI), já foram anunciados para o País projetos de hidrogênio verde que somam R$ 188, 7 bilhões em investimentos. Desses, R$77, 3 bilhões, ou seis projetos, deveriam ter a decisão final de investimento tomada neste ano, segundo a Associação Brasileira do Hidrogênio Verde (ABIHV).
Dependente sobretudo de fontes sujas de energia – como petróleo, gás natural e carvão -, a Europa vinha liderando iniciativas para impulsionar o hidrogênio verde. Ainda que não tenha energia elétrica de fonte renovável disponível para produzir o combustível, a Alemanha era um dos países mais ativos na adoção de medidas pró hidrogênio verde.
Por não ter como fabricá-lo, o governo alemão financiou projetos de pesquisas em outros países, inclusive no Brasil. A dificuldade logística para o hidrogênio verde chegar ao continente europeu, no entanto, começou a preocupar investidores, segundo João Carlos Mello, CEO da consultoria especializada em energia Thymos.
O hidrogênio verde é produzido a partir da água, em um processo que demanda um grande volume de energia e no qual as moléculas de hidrogênio são separadas da de oxigênio. O combustível pode ser armazenado na forma de gás em botijões (sendo altamente inflamável nesse formato) ou transformado em amônia para ser transportado. Nesse caso, ao chegar ao local de uso, precisa ser reconvertido em hidrogênio. “O custo de toda essa logística e de transformação em amônia equivale a 50% do custo de produção do hidrogênio. Isso desanimou o mercado”, diz Mello.
O custo de produção geral do combustível – que demanda muita energia elétrica – é outro entrave para o desenvolvimento do setor e tem dificultado a criação de demanda. Hoje, está ao redor de US$ 6 por quilo. Para ser competitivo com o gás natural, teria de cair para US$ 2. Enquanto não alcança esse patamar, o hidrogênio verde tem sido preterido por seus potenciais demandantes.
REDUÇÃO DE SUBSÍDIOS. Outra dificuldade enfrentada pelo setor é a redução dos subsídios, de acordo com Rivaldo Moreira Neto, diretor da A&M Infra – braço da consultoria Alvarez & Marsal especializado em infraestrutura. Como se trata de um mercado nascente, o hidrogênio verde tem um risco elevado que afugenta os investidores em um primeiro momento. “Mercados nascentes sempre vão depender de subsídio público para o risco ser mitigado. Pelo menos na primeira onda, até que a roda comece a girar”, diz o consultor, lembrando que isso já foi visto no Brasil com o setor eólico, por exemplo.
Os Estados Unidos foram os primeiros a cortar essas ajudas ao setor. No governo de Joe Biden, foi criado um subsídio de US$ 3 por litro de hidrogênio produzido no país. Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, essa medida foi derrubada. Na Europa, com os países com orçamentos apertados, os subsídios também estão minguando.
Moreira Neto acrescenta que empresas de óleo e gás, pressionadas por governos e pela opinião pública, estavam entre as que haviam anunciado grandes investimentos no setor. A intenção delas era criar uma carteira de projetos renováveis, principalmente de hidrogênio verde. Assim, nos últimos anos, essas companhias orçaram investimentos robustos em hidrogênio e reduziram os aportes na busca por novos campos de petróleo.
“Quando essas empresas passaram a ter menos reservas de petróleo, o valor delas percebido pelo mercado caiu. AÍ houve uma pressão para que elas voltassem a explorar e procurar novos campos”, diz Moreira Neto. Com esse retorno dos investimentos das petroleiras ao setor fóssil, o segmento de hidrogênio verde perdeu parte dos recursos que o alavancaria.
O BRASIL E OS CANCELAMENTOS. Presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio Verde, Fernanda Delgado também destaca que parte dos projetos que foram cancelados ou adiados em diferentes países do mundo seriam desenvolvidos por companhias de óleo e gás. Ela acrescenta que, nesse setor, é natural que projetos sejam cancelados quando surgem dificuldades financeiras. “É normal que empresas
Cortes
EUA foram os primeiros a derrubar subsídios para o hidrogênio verde com a volta de Trump ao poder
dessa área voltem atrás de decisões, vendam campos de petróleo, por exemplo. ”
Para Fernanda, também é esperado que investimentos sejam postergados quando se tem uma indústria nascendo. “Os projetos estão se assentando. Quando um setor surge, há uma complexidade regulatória, de custo e de escala”, afirma. “O que estamos vendo em outros países é um choque de realidade entre o que se queria fazer e o que dá para fazer”, afirma Fernanda.
Fernanda frisa, no entanto, que a tendência global de cancelamento de projetos não é vista no Brasil e que o País tem experiência com o surgimento de novas indústrias. “O Brasil já desenvolveu um setor eólico e um solar. ”
Segundo Fernanda, decisões de investimento devem ser tomadas em breve por aqui, conforme o cronograma desses projetos. “O País aposta em projetos estruturantes, que farão a gente ganhar escala e trarão o preço do hidrogênio para baixo. ” A executiva diz ainda que a falta de incentivos públicos nos Estados Unidos pode fazer com que projetos que seriam desenvolvidos lá sejam transferidos para o Brasil.
Na análise de João Carlos Mello, da Thymos, grandes projetos brasileiros de hidrogênio verde voltados à exportação devem sucumbir, dada a dificuldade logística. Ele diz, porém, que os projetos que têm como foco o mercado interno têm mais chance de serem bem sucedidos.
Nesses casos, o hidrogênio verde seria usado, principalmente, para produzir amônia. Com a amônia “verde”, seria possível fabricar fertilizantes para o agronegócio, o que reduziria a dependência de importações nesse segmento e ainda permitiria que o País tivesse uma produção agrícola “limpa”.
Moreira Neto, da A&M Infra, destaca que o desenvolvimento de hidrogênio verde do Brasil fica fragilizado conforme reduzem os subsídios de outros países para o setor. “O País vinha se posicionando para ser um grande exportador, principalmente para a Europa. Senão há espaço para financiamento público no exterior, a demanda não se desenvolve, e o Brasil fica em compasso de espera. ”
REAVALIAÇÃO. A companhia australiana Fortescue, que tem um dos projetos de hidrogênio verde mais avançados no Brasil, afirmou que regularmente revisa seus projetos para garantir que eles “avancem no momento certo e com bases sólidas”. “Isso significa que alguns empreendimentos, como aqueles nos Estados Unidos e na Austrália, passaram por ajustes recentes diante de mudanças significativas no cenário local”, acrescentou. De acordo com a Fortescue, alterações no ambiente regulatório, na política de incentivos e nas condições de mercado a levou a reavaliar alguns projetos.
Outro projeto de grande porte e mais adiantado no Brasil, também com pré-contrato assinado com o Porto de Suape, é o da Casados Ventos. Procurada, a empresa não comentou o assunto. €