Governo da Bahia intensifica fiscalização e monitora preços de combustíveis em Salvador
27/03/2026
Governo avalia que subsídio extra ao diesel só funciona com adesão de todos os estados 
27/03/2026
Mostrar tudo

 Jornal O Estado de S. Paulo 

O que os ‘abusos’ do diesel e os fracassos dos Correios podem ensinar ao governo

Celso Ming

O presidente Lula tem dificuldades para entender como se definem os preços em qualquer mercado. No caso do diesel, aceita o diagnóstico de que distribuidoras e postos de combustíveis vêm praticando “preços abusivos”, cobrados no varejo muitas vezes acima do preço de custo, e conclui que esses “abusos” estão sendo cometidos “por gente que não presta”.

Essa postura não leva em conta algumas questões técnicas. A primeira é que a alta atual dos preços do diesel no varejo reflete escassez real do produto, e não o comportamento imoral dos vendedores. O choque do petróleo, consequência da guerra e do fechamento do Estreito de Ormuz, aumentou a demanda interna, já normalmente deficitária em 30% do consumo, porque estimulou a formação de estoques. Ou seja, houve profunda alteração nas duas pontas do mercado – oferta e demanda – que, logicamente, precisa se refletir nos preços.

A segunda questão técnica é que a formação de preços não pode se ater apenas aos custos, formados pelo preço de aquisição mais a margem do operador. Qualquer agente de mercado precisa trabalhar também com os custos de reposição do produto. Se ficar apenas com receitas calibradas pelos custos, não conseguirá recomprar seu produto do atacadista caso os preços nesse segmento tenham disparado mais de 40%, como aconteceu com o diesel. Nessas condições, haverá menos capital de giro para pagar o fornecimento seguinte, a escassez voltaria a se impor, e já não se estaria, então, falando de retenção do combustível para fins especulativos.

Além disso, se o choque do petróleo se prolongar, como prevê a Agência Internacional do Petróleo, os subsídios pagos pelo governo desde o início deste mês deverão ser insuficientes para reequilibrar o mercado. Mais do que a ação de “gente que não presta”, o setor enfrenta a ineficácia da política adotada pelo governo.

Outro assunto que merece atenção é o anúncio pelo Mercado Livre de investimentos no Brasil, apenas em 2026, de nada menos que R$ 57 bilhões, especialmente em logística. Em 2025, os investimentos da empresa já haviam sido de R$ 37 bilhões. Enquanto isso, as finanças dos Correios seguem deteriorando-se. Depois de um prejuízo de R$ 5,8 bilhões em 2025, enfrentam a perspectiva de novo rombo de R$ 9,1 bilhões em 2026, apesar das injeções de crédito com aval do Tesouro.

O plano de reestruturação dos Correios se limita a medidas superficiais: demitir pessoal, vender imóveis sem uso e fechar mil agências (16% do total). Até mesmo essa operação mostrou-se ineficaz. O Programa de Demissão Voluntária, que deveria atingir 10 mil dos 80 mil funcionários, teve adesão inferior a 3 mil. O primeiro leilão de imóveis teve interessados para apenas 3 dos 12 disponíveis. Não há mudança estratégica: os Correios continuam afundando.

JORNALISTA E COMENTARISTA DE ECONOMIA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *