No Brasil, biorrefinarias avançam em direção de mercados regulados 

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Hoje, país tem 110 biorrefinarias, porém, menos de um terço das unidades opera, de fato, no conceito completo de biorrefino

 CNN Brasil 

O avanço das biorrefinarias no Brasil começa a redesenhar o mapa da indústria de base renovável, impulsionado por uma combinação de demanda internacional por descarbonização e maior rigor regulatório em mercados como Europa e Estados Unidos. O tema não é novo, mas nunca foi tão relevante, visto que as oscilações geoeconômicas expõem qualquer tipo de dependência – ou monopólio – de combustíveis fósseis.

Países da Europa não têm capacidade produtiva e precisam comprar combustíveis renováveis para aviação, enquanto empresas brasileiras ou instaladas no Brasil aceleram a extração e a produção de óleos vegetais capazes de escalar de forma alternativa à querosene, ao diesel, ao petróleo.

O agro deve ganhar muito com esta fatia de mercado, cujo retorno de investimento é de longo prazo, mas certeiro. Em geral, empresas que produzem biocombustíveis para mercados regulados negociam quase 100% de sua oferta antes de terem o produto final, e travam o preço sob demanda.

Culturas como soja, palma e macaúba entram no radar não apenas pelo potencial produtivo, mas pela capacidade de atender nichos de maior valor agregado, onde transparência, regularidade no fornecimento e conformidade socioambiental passam a ser determinantes para acessar os mercados mais exigentes.

Mais do que ampliar a oferta, a corrida pelas biorrefinarias reflete uma mudança de posicionamento das companhias, que buscam se antecipar a exigências como certificações ambientais e regras de origem, caso do regulamento europeu de produtos livres de desmatamento.

Por isso, grandes empresas têm voltado os olhos para matérias-primas agrícolas capazes de gerar óleos vegetais com rastreabilidade e menor pegada de carbono – insumos estratégicos que também podem servir como químicos verdes e ingredientes para a indústria alimentícia e cosmética.

A Acelen Renováveis é uma das companhias à frente deste mercado. A empresa vai investir US$ 3 bilhões na operação de sua biorefinaria em Mataripe, na Bahia, e está apoiando o governo estadual no mapeamento e na identificação de áreas adequadas para o cultivo de macaúba, com ênfase na estruturação de acordos para implementação de polos agroindustriais na região baiana.

A unidade compartilha a infraestrutura logística de escoamento com o terminal marítimo já existente, que abastece a refinaria da empresa que não é dedicada a biocombustíveis.

Hoje, o Brasil possui 29 plantas industriais de biocombustíveis mapeadas, das quais 110 são classificadas como biorrefinarias propriamente ditas, por atenderem critérios como integração de processos, uso de múltiplas matérias-primas e geração de coprodutos de maior valor agregado. O número foi divulgado em um estudo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), divulgado há um ano.

O “raio-x” do estágio atual das biorrefinarias brasileiras mostra que o país tem uma base ampla de biomassa – distribuída em diferentes biomas – capaz de sustentar uma indústria relevante de bioprodutos e combustíveis sustentáveis. Porém, 11 – o que reforça o diagnóstico do estudo de que ainda há muito espaço para avançar em agregação de valor, circularidade e diversificação de produtos.

Oportunidade para agricultura familiar

No projeto com macaúba, a Acelen Renováveis decidiu estruturar o modelo de negócio envolvendo comunidades extrativistas e agricultores familiares. A ideia é dividir suas áreas de produção em 20% para agricultura familiar e outros 80% entre áreas próprias e em parceria com outros proprietários.

Os 20% da área total equivalem a 36 mil hectares, destaca Pedro Estrela, vice-presidente de Novos Negócios e Digital da companhia. A iniciativa, estruturada há quase dois anos, inclui o fornecimento de mudas, assistência técnica e garantia de compra da produção dos pequenos produtores.

A expectativa da companhia é que o modelo permita triplicar a renda média dessas famílias, além de ampliar a inclusão em regiões com baixa conectividade, com acesso, por exemplo, a soluções de digitalização no campo.

“Uma coisa que é única desse projeto é o desenvolvimento agrícola aliado à recuperação de terras degradadas, com potencial de exportar soluções de transição energética para mercados regulados. A macaúba é capaz de produzir um biocombustível que reduz em até 80% as emissões em comparação ao fóssil, com uma pegada de carbono equivalente à de resíduos, como o óleo de cozinha usado’, detalha Estrela.

Segundo ele, o potencial do agro brasileiro de se reinventar e de trazer soluções para o mundo, ao produzir um combustível renovável com custo competitivo em relação ao fóssil se confirma no planejamento de negócios e no investimento da Acelen no Brasil.

Para a agricultura familiar, acrescenta, é uma forma de triplicar a receita após o desenvolvimento e primeira colheita do fruto da macaúba. Entre as particularidades da árvore, a companhia destaca o potencial de produzir SAF com custo comparável ao combustível fóssil, especialmente em regiões com condições favoráveis como o Brasil.

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