Com conflito no Oriente Médio, China acelera compras e já responde por 57% das exportações do produto brasileiro
Valor Econômico
A balança de petróleo e derivados do primeiro trimestre teve superávit de US$ 9,52 bilhões, recorde da série histórica e valor que equivale a 67,2% do resultado comercial total da balança brasileira do período. Em 2024 e 2025, quando o petróleo liderou os embarques anuais brasileiros, o saldo no primeiro trimestre em petróleo e derivados foi de US$ 7,2 bilhões e US$ 6,4 bilhões, nessa ordem. O Brasil tem superávit nessa balança desde 2016, quando a produção do petróleo foi impulsionada pelo pré-sal, mas segue com déficit em derivados de petróleo.
Os dados parciais de abril da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) mostram que o petróleo deve continuar importante na balança. A média diária até a segunda semana de abril mostra alta de 101% na receita com exportação do óleo bruto de petróleo ante a média diária de abril de 2025. Em igual critério, o volume embarcado subiu 74,5% e os preços avançaram 15%, sob reflexo das cotações mais altas da commodity em razão da guerra no Oriente Médio.
Para analistas, mesmo que a guerra acabe em breve, as cotações de petróleo devem se manter relativamente altas até o fim do ano, o que pode elevar o superávit comercial total de 2026, com efeitos que podem se manter favoráveis também para o câmbio médio do ano.
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Os dados de balança comercial e derivados são do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), no âmbito do Indicador de Comércio Exterior (Icomex). “Uma guerra nunca é positiva, mas o aumento do preço do petróleo tem um lado que é favorável à balança brasileira, na exportação de petróleo. Tivemos o ciclo da soja e, antes, o do minério de ferro. Agora o que tem puxado as exportações brasileiras é o petróleo, embora no conjunto todos os três itens continuem importantes”, diz Lia Valls, professora da UERJ e pesquisadora do FGV Ibre.
Em março, quando eclodiu a guerra no Oriente Médio, a exportação de óleo bruto de petróleo alcançou US$ 4,8 bilhões, com 70,4% de aumento contra igual mês de 2025. O volume embarcado subiu 75,9%, mas os preços caíram 3,1%. Foi a soja, com US$ 5,9 bilhões, que trouxe a maior receita de exportação do mês ao Brasil. Com base de comparação alta, porém, o valor exportado do grão cresceu 4,3% ante março de 2025. Com crescimento maior, o petróleo respondeu por 68,5% do aumento do valor total exportado pelo Brasil em março contra igual mês do ano passado.
Do aumento de US$ 1,9 bilhão em petróleo exportado em março ante igual mês de 2025, a China absorveu US$ 1,6 bilhão. Foram destinados aos chineses, em março, US$ 3,1 bilhões da commodity, 64,6% de todo o petróleo bruto exportado pelo Brasil, com alta de 111,2%. O segundo maior mercado em março foram os EUA, com fatia de 6,8%.
“A China comprou um volume recorde de petróleo do Brasil no mês passado, o que reflete esse cenário de que o mercado asiático é o que vem mostrando o balanço mais estressado devido ao conflito no golfo Pérsico”, diz Bruno Cordeiro, especialista em inteligência de mercado da StoneX. Essa pressão de alta é tanto por volume, o que já veio desde março, quanto por preços, impacto que ficou mais claro nos dados de abril, observa.
Para Cordeiro, houve efeito do conflito no aumento do volume de petróleo embarcado em março. Isso, diz, pode ter acontecido de várias formas, como antecipação de embarques com valores já negociados anteriormente, para atender demanda de entrega física do produto. Ele também aponta que pode ter havido redirecionamento de cargas. O petróleo originalmente destinado a determinado local pode ter sido redirecionado para a China, por exemplo. Cordeiro lembra que a China já tem sido, mesmo antes da guerra, destino importante do petróleo brasileiro. Pelos dados da Secex, o país asiático absorveu 45% de todo o petróleo que o Brasil exportou em 2025. No primeiro trimestre deste ano a fatia foi de 57,3%, seguida pela Índia, com 8,2%. Tanto os chineses quanto os indianos ampliaram suas compras de petróleo de janeiro a março, com alta respectiva de 94,2% e de 77,9% ante iguais meses de 2025.
Em março, o Brasil respondeu por 10% do petróleo importado pela China, ante 6% no mesmo período do ano passado. Com isso, o país saltou uma posição e se tornou o quinto maior fornecedor do produto para os chineses. Nesse período, a China reduziu a compra de países da vizinhança do Irã como Arábia Saudita e Iraque e ampliou a importação de Rússia e Malásia, além do Brasil.
Luiza Pinese, economista da XP, explica que desde o início do ano a expectativa era de maior quantidade exportada de petróleo em 2026. “Esse volume aumentou 18,5% em 2023, 9,5% em 2024 e 10% em 2025.” Com a guerra, diz, houve uma elevação de preços da commodity acima da expectativa. “Nossas projeções para o superávit comercial de 2026, que estavam em US$ 68,4 bilhões, saltaram para US$ 85 bilhões por causa da alta no preço.”
Para ela, o movimento de preços não apareceu nos dados de março da balança comercial porque o petróleo é um dos itens com maior diferença entre o que é embarcado e o que é desembaraçado. Como o item só é contabilizado na balança após desembaraçado, o impacto de preços veio em abril, diz.
Cenário atual pode ser oportunidade para Brasil adotar estratégia para combustíveis e fertilizantes”
— Lia Valls
Antes da guerra, a estimativa da XP era de preço médio do Brent a US$ 60 o barril em 2026. Depois do conflito, a projeção é de média de US$ 90 o barril. Para cada aumento de US$ 10 no preço médio do petróleo, diz, o saldo comercial aumenta em cerca de US$ 8,5 bilhões. “É claro que existem ponderações. Estamos no meio do conflito e exportamos, por exemplo, itens relevantes para o Irã, como milho, soja, açúcar, frango. Há também o aumento de preços de fertilizantes e de combustíveis derivados de petróleo. Mas o efeito líquido na balança comercial é positivo.” Ela ressalta também que o petróleo se destacou em março, mas o aumento de exportação foi relativamente disseminado, com alta também em itens como carne bovina e ouro não monetário.
A China, nota Pinese, tem alcançado parcela cada vez maior das exportações brasileiras não só no petróleo, mas também de outras commodities. “A perspectiva é que isso provavelmente se mantenha. Há o conflito geopolítico entre a China e os EUA e isso faz com que ela tenda a mudar os mercados do quais ela compra.”
O impacto do conflito e do fechamento do estreito de Ormuz cria um gargalo muito grande de oferta de petróleo de uma região que é responsável por um quinto da produção mundial, destaca Andreá Valério, economista do Banco Inter. A China, segunda economia do mundo e que depende da importação de petróleo, busca alternativas e o Brasil é um caminho óbvio, aponta.
Em abril, diz Cordeiro, da StoneX, há um impacto adicional do conflito. “O monitoramento mostra que as cargas do golfo Pérsico que saíram da região antes do fechamento de Ormuz terminaram de chegar ao mercado asiático na primeira ou segunda semana de abril. Então até esse período havia cargas do golfo chegando à Ásia. Agora teremos uma pressão adicional no mercado asiático, porque não haverá mais cargas desembarcando.”
Em webinar promovido pelo Conselho Empresarial Brasil-China na semana passada, David Daokui Li, professor da Universidade Tsinghua, disse que a crise do Oriente Médio traz risco que pode ser imediato ao país asiático. Ele lembra que 73% do óleo bruto de petróleo consumido na China vem de fora, sendo que 50% do que é importado é fornecido pela região do estreito de Ormuz. Se a crise na região durar mais dois meses, diz, a economia chinesa terá problemas. “Teremos racionamento de gasolina. Teremos racionamento para o diesel de caminhões.” A fatia de fornecimento de petróleo da Rússia, diz, é de 15% e, portanto, não é suficiente para suprir o fornecimento da região do golfo.
Mesmo que a guerra termine em breve, diz Cordeiro, da StoneX, devemos seguir observando preços mais altos do petróleo frente ao observado no período pré-guerra. “No mundo inteiro se observam estoques mais baixos de petróleo e a adaptação logística toma mais tempo do que a resposta do acordo de paz.”
Apesar de recuo da cotação do petróleo nos contratos futuros, os preços do físico seguem muito alto”
— Bruno Cordeiro
Apesar de recuo dos preços nos contratos futuros, por causa do avanço das negociações entre EUA e Irã, diz Cordeiro, os preços do físico seguem muito alto. O Dated Brent (preço do petróleo para entrega imediata), exemplifica, chegou a operar ao fim da última semana em torno de US$ 130 o barril enquanto o mercado futuro já tinha preço abaixo dos US$ 100 o barril.
“O mercado físico precifica o estresse do balanço do momento, que é muito nítido. O futuro trabalha agora com um cenário de resolução ou de amenização do conflito e por isso o preço é mais baixo”, afirma.
Além de plantas produtivas atacadas, Cordeiro lembra que há as interrupções feitas por causa da suspensão dos fluxos de escoamento de cargas na região do golfo. “O Iraque, por exemplo, reduziu em 80% a sua produção de petróleo. A Arábia Saudita tem capacidade tecnológica e técnica de ampliar a sua oferta em 1 milhão de barris por dia, de um mês para outro. Mas outros países do golfo não têm a mesma facilidade.”
Os dados do Icomex mostram que, enquanto o superávit comercial de petróleo bruto aumentou de US$ 7,9 bilhões de janeiro a março de 2025 para US$ 11,03 bilhões em iguais meses deste ano, o déficit em derivados manteve-se em US$ 1,5 bilhão nos dois períodos. Para Valls, do FGV Ibre, um grande desafio para o Brasil é aumentar a capacidade de refinamento de petróleo e também a produção de fertilizantes, para reduzir o grau de dependência das importações desses itens. “O Brasil tem que ter estratégia. Há também o potencial do biodiesel. O cenário atual pode ser oportunidade para acelerar isso.”
Valério, do Inter, ressalta que, mesmo registrando alta de preços de importação em março, os óleos combustíveis de petróleo representaram 5,6% das importações totais do país no primeiro trimestre deste ano, ante 5,4% no ano passado. “Subiu um pouco, mas não de forma tão representativa quanto o petróleo.” Pelos dados da Secex, a fatia do óleo bruto na exportação total brasileira subiu de 12,5% a 15,3% em igual período.
Os derivados, diz Valério, devem ter maior impacto na inflação. O diesel no IPCA de março, lembra, saltou 13,9%. A inflação cheia subiu 0,88%. Na balança comercial, afirma, o efeito do petróleo deve predominar, com preços também melhorando os termos de troca e com impactos positivos também na apreciação do real frente o dólar.
Pinese, da XP, lembra que o movimento de apreciação do real frente ao dólar vem acontecendo desde 2025. “Não é só por causa do conflito. Estamos com rotação de fluxos globais para países emergentes que tem impactado bastante o Brasil de forma positiva. Ao longo dos meses vimos fluxos fortes para o Brasil, que têm ajudado na nossa taxa de câmbio. Mas é claro que o Brasil está sendo visto como vencedor relativo de todo esse conflito que está acontecendo lá fora. Primeiro pelo fato de nós sermos exportadores líquidos de petróleo e também por temos arrecadação federal forte com o aumento de preços. Além disso, estamos localizados longe de onde está todo o conflito.”