O novo gargalo: o problema não é apenas fazer o petróleo sair de onde é produzido; é processá-lo

Adeus, postos de gasolina: empresa leva combustível até a sua garagem e abastece o seu carro
20/07/2026
95% dos postos de combustíveis do RJ estão irregulares junto à Fazenda, e governo vê avanço do crime organizado no setor
20/07/2026
Mostrar tudo

O Estado de São Paulo

O Estreito de Omuz historicamente é apresentado como o calcanhar de Aquiles da economia mundial. Em seu ponto mais crítico, é um corredor relativamente pequeno pelo qual passou, em 2025, cerca de um quarto de todo o petróleo comercializado por via marítima. A situação era simples: se o Irã fechasse a passagem, faltaria petróleo no mundo. A despeito de Ormuz continuar sendo um ponto crítico, os acontecimentos recentes sugerem que talvez o gargalo mais importante da crise energética seja outro.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos construíram oleodutos que permitem retirar parte de sua produção do Golfo sem atravessar o estreito. Essas rotas alternativas não substituem Ormuz: sua capacidade disponível é estimada entre 3,5 milhões e 5,5 milhões de barris por dia, diante dos quase 20 milhões que passavam pelo corredor marítimo. Mas ajudam a explicar por que as ameaças iranianas passaram a alcançar também terminais, oleodutos e rotas próximas do Iêmen e do Mar Vermelho.

O fato mais revelador, entretanto, surgiu quando o trânsito pelo estreito começou a ser restabelecido. A oferta mundial de petróleo bruto aumentou 4,1 milhões de barris por dia em junho. No entanto, a produção de derivados não acompanhou essa recuperação. A atividade das refinarias e os embarques de gasolina, diesel e querosene reagiram mais lentamente. O petróleo voltou a circular antes que os combustíveis voltassem a chegar ao mercado.

A escassez de gasolina e diesel aumentou fortemente a diferença entre o preço dos combustíveis e o custo do petróleo bruto – a chamada margem de refino (crack spread). O gargalo já não está apenas na passagem dos navios por Ormuz. Está na capacidade de transformar petróleo em combustível. Petróleo bruto não abastece automóveis, aviões ou caminhões.

Para isso, são necessárias refinarias, que são instalações caras, complexas, construídas para processar determinados tipos de petróleo e produzir derivados. Pode haver petróleo disponível e ainda assim faltar diesel. Pode haver navios carregados no mar e, ao mesmo tempo, gasolina insuficiente nos mercados consumidores.

Não é que não tenhamos refinarias suficientes, mas que a capacidade de refino disponível, operacional, adequada e localizada nos lugares certos tornou-se o elo frágil da crise atual.

O mundo sempre temeu que uma barreira geográfica interrompesse o fluxo de energia. A crise atual mostra outra vulnerabilidade. O problema não é apenas fazer o petróleo sair de onde é produzido. É conseguir processá-lo.

A escassez mudou de natureza. O petróleo pode até encontrar novos caminhos. O verdadeiro desafio agora é convertê-lo em energia útil. Afinal, um barril de petróleo não leva ninguém ao trabalho. Um tanque cheio de gasolina, sim.

(Coluna por Fabio Gallo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *