Com uso de macaúba, biorrefinaria da Acelen é a 1ª operação da Chamada Nordeste

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MOVIMENTO ECONÔMICO

BNDES aprova R$ 503 mi para planta de SAF e diesel renovável em São Francisco do Conde. Projeto de R$ 7 bi usará óleo de cozinha e macaúba com rastreabilidade por blockchain

A primeira operação contratada no âmbito da Chamada Nordeste, iniciativa que reúne 41 projetos em andamento e soma R$ 51 bilhões em investimentos na região, é a biorrefinaria de combustíveis sustentáveis que a Acelen Industrial, do grupo Mubadala Capital, vai instalar em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano. A planta utilizará inicialmente óleo de cozinha usado e óleo de soja como matéria-prima e, em fase posterior, incorporará a macaúba, cultura nativa brasileira com alto potencial para biocombustíveis avançados. O anúncio foi feito durante a 7ª reunião do Comitê Regional das Instituições Financeiras Federais (CORIFF), realizada na sede da Sudene, no Recife, na quarta-feira (29). O BNDES aprovou financiamento de R$ 503,04 milhões para o empreendimento, que tem investimento total estimado em R$ 7 bilhões e início de operação previsto para 2029.

O crédito será concedido por meio da linha BNDES Finem – Meio Ambiente, voltada à produção de combustíveis sustentáveis avançados. A operação foi estruturada na modalidade project finance, com prazo de pagamento de 5,5 anos, em consórcio liderado pelo HSBC e pela International Finance Corporation (IFC).

Do investimento total, US$ 650 milhões serão aportados pelo Mubadala Capital como capital próprio. Os US$ 850 milhões restantes correspondem ao financiamento, que envolve 12 instituições financeiras nacionais e internacionais: BNDESBradescoFirst Abu Dhabi Bank (FAB)Abu Dhabi Commercial Bank (ADCB)BID InvestAsian Infrastructure Investment Bank (AIIB)FinDev CanadaKfW IPEX-BankBBVA e Bank of China, além dos líderes HSBC e IFC.

Escala industrial e mercado

A biorrefinaria terá capacidade para produzir anualmente 1 bilhão de litros de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO), processando até 20 mil barris diários de matéria-prima renovável. A tecnologia adotada é a HEFA (hydroprocessed esters and fatty acids), uma das principais rotas tecnológicas globais para a fabricação desses combustíveis. Segundo o Valor Econômico90% da produção futura da biorrefinaria já está contratada.

A unidade será instalada ao lado da Refinaria de Mataripe, o que permite o aproveitamento da infraestrutura logística existente na região, incluindo o acesso ao Terminal de Madre de Deus. A proximidade com o terminal reforça a orientação do projeto para o mercado internacional. No pico das obras, a estimativa é de cerca de 3.600 empregos diretos e indiretos. A operação comercial está prevista para o 1º trimestre de 2029.

Plano de expansão

A biorrefinaria de São Francisco do Conde é a primeira de cinco unidades que a Acelen Renováveis pretende implantar no país. Caso o plano se confirme, o investimento total previsto é de US$ 12,5 bilhões. A planta faz parte de um projeto integrado com investimento de US$ 3 bilhões na primeira fase para o desenvolvimento agroindustrial, que inclui plantação, extração e beneficiamento dos coprodutos da macaúba. A ambição é escalar para US$ 15 bilhões em cinco módulos de produção.

O plano de longo prazo prevê 180 mil hectares de terras restauradas na Bahia e no norte de Minas Gerais, distribuídos em três faixas: 50% destinados às plantações de macaúba, 30% a áreas de preservação ambiental e 20% à agricultura familiar e pequenos produtores, em sistema de cultivo consorciado com pastoreio e outras culturas alimentares. Os acordos com a Embrapa projetam 90 mil empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia e geração anual de R$ 7,4 bilhões em renda para as populações envolvidas, com foco em áreas semiáridas do Nordeste.

Cadeia da macaúba

A implementação da cadeia produtiva já está em andamento. A Acelen Renováveis tem 500 hectares plantados no Recôncavo Baiano, com expansão prevista para 1.500 hectares ainda em 2026 e meta posterior de 5 mil hectares incorporados ao sistema. Para sustentar essa escala, a empresa investiu R$ 300 milhões em um centro de produção de mudas de 138 hectares em Montes Claros (MG), com capacidade para 10 milhões de mudas por ano, volume suficiente para plantio anual de 20 mil a 30 mil hectares.

O mapeamento genético prévio identificou mais de 4 milhões de árvores silvestres por satélite e inteligência artificial para seleção do melhor material genético disponível na natureza. A taxa de germinação das sementes, historicamente restrita a 5% em condições naturais, foi elevada para até 95% por protocolo desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). A cultura também obteve Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) aprovado, o que habilita acesso ao Proagro e à subvenção ao Seguro Rural.

Em julho de 2024, a Acelen Renováveis firmou dois acordos de cooperação técnica com a Embrapa Agroenergia no valor de R$ 13,7 milhões, com duração de cinco anos e apoio financeiro da Embrapii e do BNDES. O projeto envolve mais quatro centros da Embrapa: Algodão (com base em Campina Grande, Paraíba), FlorestasMeio Norte e Recursos Genéticos e Biotecnologia. A coordenação científica é da pesquisadora Simone Favaro, da Embrapa Agroenergia. O foco está na superação de dois gargalos: a obtenção de materiais genéticos homogêneos de alta produtividade e o desenvolvimento de processos industriais mais eficazes para extração do óleo de polpa e de amêndoa.

No contexto nordestino, a espécie Acrocomia intumescens, variedade nativa que ocorre naturalmente em áreas do Nordeste, integra o escopo do projeto ao lado da variedade de Cerrado (Acrocomia aculeata), ambas adaptadas às áreas de interesse da Acelen entre Bahia e norte de Minas Gerais. A previsão para início de produção de SAF e diesel renovável a partir do óleo de macaúba é 2030.

Rastreabilidade digital

Para certificar a cadeia da macaúba e habilitar o produto aos mercados regulados da Europa e dos Estados Unidos, a Acelen Renováveis contratou a startup europeia Finboot, fornecedora de rastreabilidade digital para grupos como RepsolSabic e Evonik. A ferramenta MARCO Track & Trace opera por blockchain e tokenização para garantir auditabilidade desde o plantio até a entrega do biocombustível.

A escolha da Finboot, startup de origem espanhola com sede no Reino Unido, resultou de processo seletivo que avaliou 30 empresas, das quais 10 foram pré-selecionadas e submetidas a prova de competência. A parceria tem duração inicial de 12 meses e cobre modelagem das fases da cadeia produtiva com foco em elegibilidade da terra, produção nas fazendas, calculadora de emissões e critérios de sustentabilidade. Os dados gerados serão armazenados por até 50 anos, em conformidade com exigências de certificação internacional.

A rastreabilidade é requisito direto para acesso ao mercado europeu, onde 2025 marcou o primeiro ano de mandato regulatório obrigatório para utilização de SAF por companhias aéreas. No Brasil, a expectativa é que em 2027 entre em vigor um mandato nacional nos moldes do CORSIA, seguindo os parâmetros do programa ProBioQAV. O projeto seguirá também padrões internacionais de sustentabilidade, governança e responsabilidade socioambiental definidos pela IFC.

Chamada Nordeste

O balanço da Chamada Nordeste foi apresentado na mesma reunião na Sudene. No total, a chamada recebeu 245 projetos, que representam R$ 127,8 bilhões em investimentos potenciais, em áreas como transição energética, hidrogênio verde, bioeconomia, combustíveis sustentáveis, data centers verdes e indústria automotiva.

Segundo a diretora de Crédito para Micro, Pequenas e Médias Empresas do BNDESMaria Fernanda Coelho, o banco já realizou 45 atendimentos relacionados à iniciativa e mantém carteira superior a R$ 360 milhões em operações com perspectiva de contratação. “A chamada vem cumprindo seu objetivo de incentivar uma indústria de ponta na região Nordeste”, afirmou.

Banco do Brasil informou que 189 projetos foram aprovados e seguem em fase de negociação. A Caixa Econômica Federal apresentou o andamento de 11 projetos apoiados com recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), além de um projeto contratado com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O Banco do Nordeste informou que, dos R$ 52,6 bilhões previstos para 2026 no âmbito do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE)R$ 26,2 bilhões já foram contratados.

O superintendente da SudeneFrancisco Alexandre, afirmou que o compromisso é “seguir acompanhando e viabilizando a execução de todas as iniciativas, com investimentos voltados ao desenvolvimento e à geração de emprego e renda na região”.

Lançada em maio de 2025, a Chamada Nordeste é desenvolvida em articulação entre a Sudene, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Nordeste, a Finep e o Consórcio Nordeste.

*Com informações da Sudene e do BNDES

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