‘Óleo de Morpho tem tudo para ser mais lucrativo que o do pré-sal’

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Presidente da Petrobras nega uso político de operação: ‘Encontramos o óleo e, no momento imediatamente seguinte, anunciamos a descoberta’

O Estado de S. Paulo

Executiva comemora leveza do petróleo encontrado na Margem Equatorial e nega uso político de operação. Encontramos o óleo e, no momento imediatamente seguinte, anunciamos a descoberta.

Formada em Engenharia Civil pela UFRJ, com mestrado em Engenharia Química pela Coppe/UFRJ; preside a Petrobras desde 2024

Adescoberta de uma nova fronteira para a produção de petróleo na Margem Equatorial brasileira pode não ser um novo présal, mas a qualidade do petróleo encontrado pela Petrobras tem tudo para ser mais lucrativa, disse ao Estadão/Broadcast a presidente da estatal, Magda Chambriard, que vê na descoberta a segurança que o País precisava para não voltar a ser importador da commodity quando o pré-sal declinar, em meados da década de 2030.

Chamado de óleo gourmet e de Brent com louvor pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em visita esta semana ao navio-sonda que explora a região no Amapá, o petróleo achado no poço pioneiro de Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, é mais leve do que o do pré-sal e, por isso, de maior valor por ser mais fácil de refinar.

O presidente Lula reclamou que ele não conseguiu carimbar direito a mão nas minhas costas, e nas costas dos demais participantes da comitiva, porque o óleo não marcava direito. E eu disse: Presidente, isso é bom’, contou Magda sobre a prática de marcar os uniformes laranjas da estatal como o mandatário fez na descoberta do pré-sal, em seu segundo mandato.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Podemos comparar a descoberta feita na Margem Equatorial à do pré-sal, há 20 anos?

Eu não acredito que a Margem Equatorial seja do tamanho do pré-sal. Pelo menos, o que nós temos até agora não leva a crer que a Margem Equatorial seja do tamanho do présal. Aliás, eu desconheço, em águas profundas, outro espaço no planeta com alguma coisa semelhante ao pré-sal. Mas não é pequena. Nós estamos apostando que vamos ter descobertas bastante relevantes na Margem Equatorial. Nós não podemos afirmar que vai dar certo, mas podemos ser otimistas dizendo que, até agora, todas as etapas anteriores estão sendo confirmadas, e achar que vai dar certo. E, se der certo, vai dar tempo de mitigar o declínio do pré-sal.

Mas a qualidade do petróleo pode ser comparada à do pré-sal?

Esse óleo tem tudo para ser mais lucrativo do que o óleo do pré-sal. Ele é um óleo que parece bem mais leve.

A descoberta na Margem Equatorial tem sido muito comentada. Vocês têm medo de esse assunto ser usado na campanha eleitoral e, de alguma maneira, prejudicar a exploração?

Nós começamos a perfurar esse poço no dia 20 de outubro do ano passado. De lá para cá, todos os dias a mídia nos pergunta: Tiveram alguma descoberta?’ O que está acontecendo?’ Então, eu diria para você o seguinte: o uso eleitoral seria se a gente segurasse essa informação para dar num momento mais ou menos propício. Não foi o que nós fizemos. Encontramos o óleo e, no momento imediatamente seguinte, anunciamos a descoberta. Então, eu acho que não há o que se falar em uso eleitoral, só se for da própria natureza.

Como a Petrobras interpreta a presença de gás nessa descoberta?

Todo petróleo vem junto com o gás. O que a gente vai discutir é a quantidade. No Brasil, a maior parte do gás produzido é associada ao petróleo. Praticamente não possuímos reservatórios de gás não associado, com exceções pontuais como Manati e Mexilhão, que já se encontram em declínio. Isso significa que, quando se fala em gás, a pergunta central é a quantidade e a viabilidade comercial de separar esses componentes. Da nossa produção, 80% tanto no pré-sal quanto no pós-sal da bacia de Campos deriva do gás associado. Ou seja, a produção de gás é diretamente dependente da produção de óleo.

Após atingir o reservatório, quais serão os próximos passos em relação ao petróleo encontrado em Morpho?

Ele vai vir para o Cenpes (Centro de Pesquisa da Petrobras/RJ)

para ser analisado. Só para você ter uma ideia de quão delicado é isso, a garrafa com o óleo pressurizada não pode ser transportada de avião. Ela tem que vir ou de navio ou por transporte terrestre. Então, ela ainda vai demorar uns 15 dias para chegar ao Cenpes, para poder ser analisada. Tem todo um ambiente pressurizado que precisa ser preservado. É aí que nós vamos saber qual é a densidade desse óleo, qual é a viscosidade.

E os trabalhos em Morpho terminaram?

O uso eleitoral seria se a gente segurasse essa informação para dar num momento mais ou menos propício. Não foi o que nós fizemos. Encontramos o óleo e, no momento imediatamente seguinte, anunciamos a descoberta. Não há o que se falar em uso eleitoral

A gente deve retomar à perfuração lá para o dia 11 ou 12 de setembro. Porque, quando a gente faz uma descoberta, precisa buscar, por exemplo, a amostra de rocha dessa descoberta. Nós precisamos buscar a amostra de fluido dessas descobertas. Nós precisamos de perfilagens adicionais. Tudo isso são dados que, se a gente não coletar naquele momento, a gente perde a oportunidade. E aí, em uma semana, a gente deve estar de novo olhando para oportunidades adicionais nesse poço.

E quais serão os próximos passos?

Quando pedimos licença de perfuração do poço (ao Ibama)a

Morpho, pedimos a autorização para perfurar também mais três poços contingentes. Essa licença está adiantada. Imaginava que ela fosse sair no mês passado, mas acredito que esteja para sair. Estamos com todos os esclarecimentos, todos os canais abertos, toda e qualquer informação necessária, toda a transparência da parte da Petrobras tem sido o mote do nosso trabalho.

E, depois de terminar a campanha em Morpho, o navio-sonda NS-42 (ODN II) deve sair da locação. Como serão feitas as demais perfurações?

O Ibama dando a autorização, é imediata a movimentação. A

Este país vai crescer 79% até 2050 e demandará, por conta de processos de conservação de energia, um incremento não de 79%, mas pelo menos de 50%, 55%. Isso significa que, além de não deixar a geração de energia decrescer, temos de construir mais meia-Petrobras em duas décadas e meia

gente deve ir para lá com a NS43. Acredito que essa NS-42 tenha alguma manutenção a ser feita. Então, devemos perfurar

(os três poços) com a NS-43. Ela está no Sudeste. Ela vai migrar para a Margem Equatorial e passa pelo mesmo processo da outra, limpa o coral, e inicia a perfuração. Depois disso, se Deus quiser, vamos partir para a etapa de desenvolvimento da produção, se tudo der certo.

E a NS-42, depois da manutenção, será usada em outro campo?

Estamos otimistas também com a perfuração de uma oportunidade no litoral do Rio Grande do Norte. Ela vai lá, para perfurar Mãe de Ouro. Mãe de Ouro teria o condão de viabilizar ali um cluster de produção no offshore do Rio Grande do Norte, o que também não é pouca coisa. Pode ser um reservatório que justifique, com aquelas descobertazinhas em volta (Pitu/Pitu Oeste), uma plataforma de produção.

Com a notícia da descoberta, começaram especulações sobre uma possível nova refinaria da Petrobras no Norte do País. Existem planos para isso?

Acho que essa discussão é extremamente prematura. Se essa descoberta se tornar comercial, o que nós acreditamos que vai acontecer, aí nós vamos ter que ver logística de apoio. E ver o que é suficiente, o que não é suficiente, onde é que se coloca isso. Belém é muito longe. Vamos ter que saber se é em Belém mesmo, se é em algum lugar mais próximo, mas isso ainda não está no momento. A gente começa a pensar, mas qualquer coisa nessa direção ainda seria especulativa. Porque precisa ainda saber se tem volume suficiente para justificar a exploração, que ainda nem se sabe, apesar do otimismo, apesar das indicações.

Outra fronteira indicada pela Petrobras é a bacia de Pelotas. Alguma previsão do início dos trabalhos no Sul do País?

Pelotas ainda está na fase da aquisição sísmica, da interpretação sísmica. Nós ainda não temos, em Pelotas, a indicação de um poço a perfurar. Mas estamos avançando.

Ao lngo da sua trajetória, a senhora acompanhou a descoberta da Bacia de Campos, do pré-sal e agora da Margem Equatorial. Como se sente ao ver esse legado de perto?

A gente evolui, chega na autossuficiência de petróleo ao longo desse tempo, com a Bacia de Campos, com o pré-sal, a gente chega numa situação onde o País tem no petróleo o seu primeiro produto de exportação. Uma contribuição para a balança comercial brasileira e, consequentemente, para a melhoria de vida de todos os brasileiros. Então, o entusiasmo é fruto da constatação de que o papel foi cumprido, está sendo cumprido com uma clareza de objetivos incrível, com uma competência inequívoca.

Para terminar, o que significa essa descoberta para o País?

Segurança energética é um assunto que tem nos atraído a atenção e que a gente tem tentado repercutir um pouco. Tenho dito para vocês que a Petrobras é hoje responsável pelo fornecimento de um terço da energia primária do Brasil. E, como toda energia não renovável, você precisa manter o patamar. Sob o nosso ponto de vista, este país vai crescer 79% até 2050 e demandará, por conta de processos de conservação de energia, um incremento não de 79%, mas pelo menos de 50%, 55%. Isso significa que, da nossa parte, além de não deixar a geração de energia decrescer, nós temos de crescer pelo menos meia-Petrobras. Além de não declinar, temos de construir mais meia-Petrobras em duas décadas e meia.

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