EIXOS
Em nota conjunta, Unica e outras cinco entidades dizem que fala do senador desinforma o consumidor; testes com 29 veículos atestaram viabilidade da mistura de 32%, afirma o setor
Seis entidades do setor de etanol repudiaram, em nota conjunta divulgada nesta sexta (21/8), a declaração do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL/RJ) comparando a mistura de 32% de etanol na gasolina à reduflação — a prática de reduzir a quantidade de um produto mantendo o preço de venda.
Assinam o texto a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia), a Unem (União Nacional do Etanol de Milho), a Bioenergia Brasil, a Feplana (Federação dos Plantadores de Cana do Brasil), a Unida (União Nordestina dos Produtores de Cana) e a Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil).
Para as entidades, a fala do candidato ataca uma política de Estado de cinco décadas, construída sob governos de todas as orientações, do Proálcool ao RenovaBio e à Lei do Combustível do Futuro. “A afirmação desinforma o consumidor e desqualifica uma política de Estado construída ao longo de cinco décadas“, diz a nota.
O setor lembra que o próprio Flávio participou da aprovação da lei que permitiu ampliar a mistura. “Surpreende que a crítica parta de quem participou da decisão”, afirma o texto, que sustenta que a Lei do Combustível do Futuro passou pelo Senado com a anuência do senador.
Flávio esteve presente na sessão de 4 de setembro de 2024 em que o Plenário do Senado aprovou o projeto, em votação simbólica cujo único voto contrário foi o do senador Eduardo Girão (Novo/CE).
A lei elevou para até 35% o teto da mistura de etanol na gasolina; os 32% em vigor desde 1º de agosto foram fixados por decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
Em resposta ao argumento de que a mistura pode danificar motores, levantado pelo candidato, as entidades citam os ensaios que embasaram o aumento do percentual e reconhecem a condução do processo pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pelo CNPE, em diálogo com o setor produtivo e a indústria automotiva.
Segundo a nota, o Instituto Mauá de Tecnologia ensaiou 16 modelos de automóveis e 13 motocicletas, representativos da frota de 1994 a 2024, em laboratório e em pista, nas misturas de 27%, 30% e 32%, com acompanhamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e de fabricantes e importadores de veículos.
Os ensaios atestaram “plena viabilidade, sem prejuízo ao desempenho ou ao consumidor”, diz o texto.
As entidades sustentam ainda que o etanol, produzido em mais de mil municípios brasileiros, tem octanagem elevada e oferece ganhos de desempenho e economia ao consumidor, além de reforçar a autossuficiência do país nos combustíveis do ciclo Otto, que reúne os veículos leves.
As declarações de Flávio foram feitas na quinta (20/8), durante a live semanal do candidato no YouTube, em resposta à mensagem de um apoiador que reclamava do volume de etanol na gasolina.
O candidato comparou o aumento do percentual ao encolhimento de barras de chocolate, rolos de papel higiênico e da dúzia de ovos. “A gasolina também: uma parte virou etanol. Nem o combustível esse governo está poupando”, disse, em referência ao governo Lula.
Na mesma fala, Flávio acenou ao setor sucroenergético: “Tem outras formas de a gente incentivar esse nosso grande segmento que é o do etanol no Brasil, e a gente vai fazer isso durante o nosso governo”.