O Globo Online
Como segunda maior acionista da Braskem, a Petrobras faz parte do problema e não tem como fugir dele, afirma Rafael Chaves, ex-diretor da estatal. Ao longo dos anos, segundo ele, a Petrobras foi instada a fazer aportes e a atuar como garantidora de créditos contraídos pela petroquímica. Neste momento de crise, no entanto, Chaves elege uma palavra como chave para a condução da Petrobras durante a travessia de recuperação extrajudicial da Braskem: zelo.
– A Petrobras precisa ter um comportamento de certo distanciamento. Não é porque é uma empresa pública que não deve ter zelo sobre os recursos; é exatamente o contrário. Não há como fugir do problema, a Petrobras é parte dele. Mas não é a única envolvida: há outros credores e outros acionistas. Por isso, a palavra é zelo, para não tomar risco e não gastar além do que precisa – diz Chaves, atualmente professor da FGV EPGE.
Na avaliação do ex-diretor, a informação de que a Petrobras estaria negociando o aumento do limite de crédito comercial da Braskem para R$ 2,35 bilhões, destinado a financiar a compra de matérias-primas, com prazo diferente dos tradicionais 30 dias, representaria uma forma disfarçada de aporte.
– Trata-se de uma operação delicada. Fornecer matéria-prima e não cobrar no prazo típico é uma forma disfarçada de aporte. Caso a Braskem não consiga honrar o pagamento, fica difícil explicar por que a Petrobras tomou a decisão comercial de alongar o prazo de recebimento diante de um cliente de extremo risco. O ideal é manter a mesma política comercial adotada pela Petrobras com outros clientes e costurar um acordo formal em que acionistas e credores decidam conjuntamente como pode ser feito o ‘socorro’ – afirma.
Chaves identifica três frentes de atuação da Petrobras em relação à Braskem: como acionista, como fornecedora e como garantidora para a empresa captar recursos. Em algumas operações, como a de Paulínia, há uma relação umbilical entre as duas companhias, o que, segundo ele, faz sentido. O ex-diretor ressalta, porém, que existe um histórico de animosidade entre os dois principais sócios, primeiro com a Odebrecht e, posteriormente, com a Novonor, que não deve ser atenuado com a entrada do novo controlador, a IG4 Capital.
– A Braskem carrega esse atrito acumulado entre os dois sócios, o que ajuda a complicar a situação da empresa. A entrada da IG4 não melhora o clima, porque o novo sócio chega em um momento de discutir perdas e definir como será o futuro: se serão vendidos ativos, se haverá aporte de capital. É um momento delicado. A Petrobras, como uma empresa rica, do setor de petróleo, sempre foi muito requisitada a dar suporte à Braskem. O risco de perda financeira agora está materializado, e a possibilidade é de que sejam necessários novos desembolsos – destaca.
Paulo Carnaúba, advogado com mais de 20 anos de experiência em questões relacionadas à insolvência empresarial e professor do Insper, afirma que a Petrobras, como uma das principais sócias e acionista com maior capacidade de capitalização da empresa, não poderá escapar de fazer novos aportes na Braskem.
Para o especialista, a principal dificuldade da petroquímica é superar a crise de credibilidade que a assola há uma década, desde a Lava-Jato, e um dos fatores que contribuíram para seu endividamento. Sem recuperar a confiança do mercado, o que, segundo ele, não passa por sua indiscutível competência produtiva e comercial, a Braskem não conseguirá captar recursos a custos mais baixos.
– Não se consegue capital de longo prazo a juros aceitáveis sem credibilidade. Nessa crise da última década, a Braskem conseguiu se capitalizar, mas com recursos justamente de credores internacionais mais agressivos, com os quais agora busca negociar. Uma das formas de recuperar essa confiança é os sócios mostrarem capacidade de gerir e recapitalizar a empresa. E a Petrobras é a sócia com maior capacidade de colocar dinheiro na Braskem e deve fazê-lo. Essa é a expectativa dos credores. Não se faz uma recuperação judicial sem colocar dinheiro novo. Não tem cabimento a projeção feita pelo processo de reestruturação de que a empresa vai conseguir se recapitalizar apenas com ganho operacional – ressalta Carnaúba.
O professor do Insper chama atenção ainda para o fato de que a possibilidade de trocar dívidas por ações só é viável se os credores enxergarem potencial de ganho futuro.
– E mais uma vez esbarramos na questão da credibilidade, que é um problema gigantesco para a Braskem.
Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital, pondera que a Petrobras não pode simplesmente decidir sozinha se fará ou não um aporte de capital. Qualquer solução – aumento de capital, renegociação ou mudança societária – depende de um acordo entre os acionistas.
Ele ressalta que para a estatal há também uma questão operacional, como havia pontuado Chaves: a Petrobras é fornecedora de nafta para a Braskem, o que cria uma integração entre as cadeias produtivas.
– Se a crise piorar ou se o novo controlador mudar a política de fornecimento, a Petrobras pode perder parte dessa demanda garantida. E há ainda o risco reputacional e político. Como a União controla 50,26% da Petrobras, qualquer decisão de socorrer a Braskem – empresa ligada a um desastre ambiental em Alagoas e com ligação ao imbróglio pós-Lava Jato/Odebrecht – corre o risco de ser lida pelo mercado como um resgate político sem retorno claro, em vez de uma decisão puramente financeira.
Cozzolino acrescenta:
– O risco direto de a Petrobras ‘pagar a conta’ é baixo, mas o risco indireto existe. Por isso, o mercado está batendo nas ações da Petrobras, mesmo estando baratas – explica o analista de mercado.