IstoÉ
O Brasil, prestes a colher uma safra recorde, vê seus agricultores ameaçados pela crise global do diesel, que eleva custos e acentua a dependência de importações.
O Brasil está prestes a ligar as máquinas para mais uma temporada histórica de plantio. Mas, se você perguntar a produtores rurais como Irineu Orth se é hora de comemorar a safra recorde de soja que vem por aí, a resposta provavelmente será um sonoro “não”.
O motivo para essa dor de cabeça atende por um nome muito conhecido de quem vive na estrada ou no campo: o óleo diesel. A atual crise global de abastecimento do combustível está em rota de colisão direta com o momento exato em que os tratores brasileiros mais precisam dele para trabalhar.
Para entender o tamanho do problema, é preciso olhar para o mapa. O Brasil é, hoje, o maior exportador mundial de um verdadeiro “cardápio” de commodities: soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja. O detalhe é que, para tirar tudo isso da terra e levar até os portos, a dependência do diesel é brutal. Quando esse custo sobe na fazenda, a conta é repassada, e o efeito dominó atinge as cadeias de suprimentos do mundo todo.
Há um agravante nessa história. Tirando a Austrália, o Brasil é o maior importador de diesel do planeta. Ou seja: no momento em que o país acelera o plantio para ajudar a alimentar o mundo, a nossa demanda acaba piorando a escassez global do produto.
E tem mais: estamos voltando a ficar perigosamente dependentes das importações que vêm dos Estados Unidos. Na prática, isso significa que a nossa “fome” por combustível pode ajudar a inflacionar os preços por lá — justamente no quintal do maior fornecedor global e às vésperas de importantes eleições de meio de mandato americanas.
Aos 76 anos, Orth prepara a terra de uma área de 22 mil acres na Bahia – um latifúndio que tem quase o tamanho do complexo da Disney. “Tudo o que nós fazemos aqui, de uma forma ou de outra, envolve diesel. E os custos estão simplesmente engolindo a nossa margem de lucro”, resume ele.
Entenda o cenário: a tensão no Irã bagunçou de vez o mercado internacional de energia. O petróleo cru até consegue escapar pelo Estreito de Ormuz, mas o fluxo de derivados, como o diesel, virou um verdadeiro conta-gotas. Para piorar, a Rússia — um peso-pesado desse mercado — bloqueou suas exportações em meio aos ataques ucranianos contra suas refinarias. A torneira global foi secando aos poucos.
É aí que a matemática sazonal entra em cena para complicar tudo. A demanda pelo diesel fabricado nos EUA, que já operava no limite, vai dar um salto nos próximos meses. O motivo? O plantio de soja e algodão por aqui coincide exatamente com a venda da safra de milho de inverno recém-colhida pelos americanos. Esse congestionamento de máquinas nos dois hemisférios exige quase 200 mil barris diários extras de diesel. É o pico de consumo do ano.
Os dados mostram que não é um fenômeno novo. Em três dos últimos quatro anos, as compras brasileiras de diesel bateram no teto sempre no mês de setembro. Só que agora, os produtores que estão ajustando seus equipamentos John Deere encaram os preços mais altos dos últimos quatro anos para esta época, bem no meio de um xadrez logístico caótico.
A dança das cadeiras dos fornecedores
Antes da guerra estourar na Ucrânia, os EUA forneciam mais de 80% do diesel importado pelo Brasil. Com o conflito, o combustível russo, bloqueado na Europa, passou a inundar portos de países como Turquia, Brasil e nações africanas com preços muito mais atrativos.
Mas o jogo virou de novo. Em julho, com a Rússia fechando suas próprias portas para a exportação, o Brasil reduziu as compras de Moscou pela metade e teve que voltar a bater na porta dos EUA. O resultado foi o maior volume de compras dos americanos em quase quatro anos. Alternativas como os Emirados Árabes e a Arábia Saudita até existem, mas esbarram no estrangulamento do tráfego intermitente em Ormuz.
“Mas e as nossas refinarias?”, você deve se perguntar. Elas estão trabalhando “de forma bastante eficiente”, operando perto de 95% da capacidade, segundo Susan Bell, executiva da consultoria Rystad Energy. Mas, mesmo operando no limite, o Brasil não dá conta da própria demanda e precisa importar.
O xis da questão é que os Estados Unidos não têm mais “gordura” para queimar. Os estoques por lá estão nos níveis sazonais mais baixos já registrados. As refinarias americanas até operam em ritmo de pré-pandemia e as exportações bateram recorde em agosto, mas o inverno no Hemisfério Norte está chegando. As empresas já começaram a estocar óleo de aquecimento para as residências (produto que, na prática, é quase idêntico ao diesel). Resumindo: não há alavanca mágica para puxar e aumentar a oferta da noite para o dia.
Setembro e outubro são os meses de prova de fogo para o mercado. Hoje, navios saem do Golfo do México rumo à maior economia da América Latina. O diesel da Coreia do Sul até se apresenta como opção viável e mais barata para chegar ao Porto de Santos no curto prazo, mas só até o fim de outubro. Depois disso, a dependência texana volta a ditar as regras até dezembro.
Por enquanto, o mercado aposta que o mundo vai atravessar os próximos meses sem mergulhar em um apagão generalizado — sem filas quilométricas nos postos ou colapso da demanda. Mas os especialistas fazem um alerta claro: estamos andando no fio da navalha. “Basta que uma grande refinaria nos EUA pare de forma não planejada”, avisa Bell, para que o caos se instale.
No Brasil, os preços na bomba até recuaram dos picos de março, ancorados na Petrobras operando a todo vapor, mas a sustentabilidade desse ritmo acelerado preocupa especialistas. Enquanto os engravatados em Houston e São Paulo fazem contas, quem está no campo só tem uma opção. “Se há algo que aprendi desde que dirigi meu primeiro trator aos 12 anos é que, como agricultor, você precisa seguir em frente”, decreta Orth. “A gente faz o que precisa ser feito.”