Como alvos da Carbono Oculto se apossaram de terras sem aparecer no papel

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Principais denunciados pela Operação Carbono Oculto fizeram arrendamento e teriam comprado dívidas cujo as terras arrendadas como garantia

Portal Metrópoles Online

Mohamad Murad, o Primo, e Roberto Leme, o Beto Louco, denunciados pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por lavagem de dinheiro, fraude fiscal e elo como o Primeiro Comando da Capital (PCC), se apossaram de usinas de cana-de-açúcar na região de Catanduva, no interior de São Paulo.

A usina Catanduva, uma das unidades do grupo Virgolino de Oliveira, estava fechada e graças ao aporte inicial de Mohamad – que se apresentava aos produtores de cana-de-açúcar como João -, voltou a operar.

A família Oliveira e o grupo de Primo e Beto Louco firmaram um contrato de tolling, isto é, um acordo para manter a produção da usina e usufruir do produto final. Além disso, as partes fecharam o arrendamento de plantações de cana-de-açúcar na região.

No entanto, funcionários da empresa alertaram os donos de estranhezas na relação comercial e começaram a fazer cobranças a João (hoje, mais conhecido como Mohamad ou Primo).

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Sem apresentar documentos, ele respondeu aos proprietários e executivos da empresa com ameaças. O empresário, agora foragido, dizia que os donos da usina e das terras estavam enredados porque além do arrendamento, ele teria comprado fundos de direitos creditórios que tinham as plantações como garantia.

A operação pouco ortodoxa, na prática, funcionou como uma “grilagem”. Sem ser dono das terras, nem aparecer nos papéis, Primo exercia controle sobre elas. Os contratos com a família foram rompidos no âmbito da recuperação judicial da família.

O grupo Virgolino de Oliveira não quis manifestar, enquanto a defesa de Beto Louco e Primo negam as acusações (leia notas abaixo).

“Do canavial à Faria Lima”

Essa e outras histórias fazem parte da série de reportagens especiais “Do canavial à Faria Lima”.

Empresas como a Copape, Aster, GGX Global Participações e G8.Log Transportes ficavam no prédio comercial – além de fundos de investimento e empresas de fachada usadas por Primo e Beto Louco para blindar o patrimônio e lavar dinheiro.

Essa e outras histórias estão no especial “Do Canavial à Faria Lima”. O Metrópoles inicia nesta quarta-feira (28/07) uma série de reportagens sobre as consequências da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação de combate à infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.

Deflagrada em agosto de 2025 pelo MPSP, a operação expôs um grupo criminoso que controlava canaviais, usinas, distribuidoras de combustíveis e postos de gasolina – eram centenas de empresas enredadas em uma teia complexa de fraudes, sonegação de impostos e ocultação de patrimônio. A rede se estendia dos canaviais do interior paulista às fintechs da Faria Lima.

A estimativa dos investigadores é que o império comandado por Primo e Beto Louco tenha movimentado R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024, sendo que ao menos R$ 8,4 bilhões foram desviados em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Em muitos pontos, os negócios da dupla se cruzam com os de personagens acusados de pertencer ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As defesas, entretanto, negam que haja essa ligação.

A apuração do Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do MPSP e da Polícia Federal (PF) para entender os impactos da rede criminosa. Também entrevistou usineiros, agricultores, empresários do setor de combustíveis e autoridades públicas para detalhar os prejuízos causados à sociedade pelo crime organizado.

Pouco mais de um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco seguem foragidos, trabalhadores rurais tentam receber indenizações, alguns postos ligados ao grupo seguem funcionando sem autorização. O que mudou foi a expertise gerada na Carbono Oculto aos investigadores, que permitiu desvelar outras fraudes financeiras. Além disso, a arrecadação dos estados com combustíveis cresceu em todo o país, mostrando que a operação conseguiu, ao menos em parte, coibir a criminalidade no setor.

O que diz a defesa de Primo

Em nota, o advogado Conrado de Almeida Prado afirma que Mohamed Murad, o Primo, é alvo de “narrativas especulativas” e diz que irá provar a inocência do cliente.

“A defesa de Mohamed Mourad esclarece que as recentes veiculações na imprensa sobre suas atividades empresariais contêm narrativas especulativas que não encontram respaldo nos autos do processo.

A reportagem publicada pelo portal Metrópoles extrapola o próprio objeto da acusação formalizada pelo Ministério Público. Cabe destacar que a denúncia recém-oferecida sequer imputa ao investigado qualquer vínculo com organizações ou facções criminosas – tema sobre o qual a referida matéria insiste em construir ilações infundadas.

A defesa repudia tentativas de criar um julgamento público antecipado e reforça que todas as atividades empresariais de Mohamed Mourad foram exercidas com estrita regularidade e respaldo documental. A legalidade de suas condutas e sua inocência serão devidamente comprovadas no âmbito do processo judicial”.

O que diz a defesa de Beto Louco

Em nota, o advogado Celso Vilardi, que defende Roberto Leme, o “Beto Louco”, afirma que não compactua com a publicação de informações parciais e incompletas e nega vínculo do cliente com o PCC.

“A defesa do empresário Roberto Leme esclarece que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e responderá a todas as acusações no momento processual oportuno.

E rejeita a disseminação de informações parciais e incompletas, uma prática que ataca a reputação dos empresários e prejudica sua defesa antes de serem apresentadas as contestações.

Por exemplo, é um erro grave tentar estabelecer alguma relação entre o empresário e a facção criminosa PCC. Não há nenhuma evidência que confirme essa falsa afirmação em nenhuma das investigações em curso”.

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