O Globo
O setor de distribuição de combustíveis vem sentindo desabastecimento pontual e aumento de preços. Fontes apontam falhas de fornecimento de diesel “de algumas horas” em diversos locais do país. Para executivos de distribuidoras e de postos, o problema está localizado nas regiões Norte e Nordeste, além de áreas com maior volume de importação de diesel, como Recife (PE), Santos (SP), Paranaguá (PR) e São Luís (MA). Em visita a postos no Rio, São Paulo e Brasília, O GLOBO registrou faltas pontuais de diesel, mas a maior queixa foi quanto aos preços. Analistas consideram medidas do governo insuficientes.
O diesel importado, que responde por cerca de 30% do consumo doméstico, é afetado pela alta das cotações internacionais do petróleo. Além disso, como a Petrobras não reajustou na mesma proporção, importadores optam por reduzir as compras, para evitar o risco de não conseguir vender um produto que chega a ser até R$ 2,50 mais caro por litro em relação ao praticado pela estatal.
A alta de preços ocorre em um momento de forte demanda por diesel, pois já começou a colheita de mais uma supersafra de soja. Dados da Abicom, associação de importadores, mostram que a defasagem continua elevada, mesmo após a Petrobras reajustar o diesel nas refinarias, na semana passada.
Ontem, a estatal vendia o diesel 67% (R$ 2,41 por litro) abaixo da paridade com o exterior. No caso da gasolina, a diferença estava em 52% (R$ 1,30 por litro).
Além disso, as distribuidoras afirmam que a Petrobras não vem atendendo a pedidos adicionais. Segundo executivos que falaram sob condição de anonimato, a preocupação é com abril, já que a estatal teria reduzido em 20% o fornecimento previsto de combustíveis, ainda que mantenha os volumes mínimos previstos em contrato.
Uma fonte diz que, por isso, as distribuidoras estão importando mais, e a parcela que vem de fora já chega a 35%.
ANP cobra Petrobras
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) aprovou ontem medidas para intensificar o monitoramento de estoques e importações e prevenir possíveis futuros problemas de abastecimento, revelou o colunista do GLOBO Lauro Jardim. A ANP vai notificar a Petrobras para que oferte imediatamente os volumes de combustíveis referentes aos leilões de diesel e de gasolina de março de 2026 que haviam sido cancelados.
O órgão disse que já vinha monitorando o mercado, inclusive o cancelamento de leilões da Petrobras. Segundo a ANP, a estatal deve apresentar informações detalhadas sobre importações previstas e preços, entre outras.
Em nota, a Petrobras disse que continua entregando ao mercado todo o volume de combustíveis produzido em suas refinarias, que operam em carga máxima. “A companhia tem ampliado e antecipado entregas às distribuidoras, fornecendo volumes cerca de 15% superiores aos montantes acordados no início do mês”, afirmou.
A estatal nega tanto a redução de 20% do fornecimento de combustíveis quanto a comunicação às distribuidoras sobre isso. E ressalta que está entregando o volume total contratado pelas empresas.
Segundo fontes, a redução seria por causa de uma parada para manutenção em uma refinaria, mas ela foi cancelada.
A estatal informou ainda que, recentemente, seis navios com combustível que viriam para cá foram desviados para outros mercados.
Como resultado, as principais redes de distribuição — Raízen (da marca Shell), Vibra (da BR) e Ipiranga — têm priorizado suas redes, reduzindo de 10% a 20% as vendas para postos de bandeira branca e TRRs, as transportadoras que revendem combustível a redes menores ou a consumidores comerciais de pequeno porte, como produtores rurais. Nos bastidores, as companhias dizem que não há como atender a todos os pedidos.
— A ausência de paridade de preços com os produtos importados, os cortes de pedidos adicionais e a suspensão de leilões da Petrobras indicam tensão no abastecimento em meio ao cenário geopolítico — disse Abel Leitão, presidente executivo da Brasilcom, que representa as distribuidoras.
Além disso, postos e até motoristas estão antecipando compras com medo de falta de diesel e de reajustes. Segundo algumas distribuidoras, as vendas em março subiram 20%, na comparação anual. James Thorp Neto, presidente da Fecombustíveis, que representa os postos de abastecimento, diz que o cenário é de restrição.
No Rio, O GLOBO rodou dez postos e ouviu caminhoneiros que abasteciam nos locais. Os motoristas disseram que ainda não enfrentam dificuldade significativa para encontrar diesel, mas sentem a alta dos preços. Em um posto no Engenho Novo, na Zona Norte, desde terça-feira não há diesel nem gasolina aditivada. Segundo um frentista, que preferiu não se identificar, “o chefe não está conseguindo efetuar o pedido”.
Já em um posto em Higienópolis, também na Zona Norte, há uma semana falta gasolina aditivada, e não há previsão de reposição.
Para Flávio Gomes, que veio de Minas Gerais para fazer entregas no Rio e abastecia no local, o problema não é falta de diesel, e sim o preço:
— Há 15 dias, abasteci a R$ 5,79. Hoje estou pagando R$ 7,99 aqui e já vi lugares no Rio onde o litro chega a R$ 8,50. Não acredito que vá faltar, mas o preço vai continuar subindo e pesando cada vez mais no nosso bolso. Se bobear vai chegar a R$ 10.
Em um posto a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília, na região administrativa de Samambaia, um frentista disse que falta diesel há cerca de duas semanas. A unidade não tem recebido o produto.
Em São Paulo, em um posto próximo ao Rodoanel, ainda havia diesel, mas uma atendente disse que o abastecimento tem sido intermitente. O estoque, disse, deve durar até hoje e pode não dar conta da demanda.
‘Tabelar nunca funcionou’
O salto nos preços cobrados dos postos pelas distribuidoras apareceu em levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Até a última segunda-feira, o diesel S10 acumulou alta de 19,71%. O levantamento foi feito com base em 192 mil notas fiscais eletrônicas em todo o país. Na primeira semana de março, até o dia 8, o reajuste havia sido de 8,70% no diesel S10.
Na avaliação do presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, não há reajustes abusivos no varejo, já que os postos estão recebendo combustível mais caro. Isso mesmo levando em conta que é comum haver algum nível de reajuste por precaução — no caso das empresas de menor porte, com baixo nível de capital de giro, a perspectiva de repor estoques a um custo maior faz com que elas elevem os preços antes.
Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, após mudanças em 2022, a tributação perdeu peso no preço final.
— O preço do combustível no Brasil é muito mais macroeconômico do que tributário — afirmou Murilo Barco, diretor da consultoria Valêncio Pricing, lembrando que pesam mais o custo do petróleo, a taxa de câmbio e o frete.
Por isso, diz Adriano Pires, diretor da consultoria CBIE, as medidas de desoneração do governo não surtirão efeito:
— O governo não entende que tabelar preço nunca funcionou. O Brasil é importador de diesel. Se o preço doméstico estiver mais barato, vai haver desabastecimento. E falta de produto é pior do que produto caro.