Biometano ganha espaço na transição energética de frotas e indústrias

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Seminário discutiu avanços, desafios e oportunidades dessa fonte renovável na descarbonização de setores vitais para a economia e a sustentabilidade

 Jornal Folha de S. Paulo 

biometano tem papel relevante na transição energética, por ser uma alternativa de energia renovável segura e eficiente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e impulsionar a descarbonização em setores como o industrial e o de transportes. Mas como isso pode ser feito? Quais os desafios e os resultados já alcançados? Essas questões estiveram no centro do seminário Biometano na Descarbonização da Indústria e de Frotas Pesadas.

Parceria entre o Estúdio Folha e a Ultragaz, referência em soluções de energia para residências e negócios de forma segura, eficiente e sustentável, o encontro reuniu especialistas para debater o potencial do biometano em setores importantes para a economia e a sustentabilidade.

Por ser totalmente renovável e produzido a partir de resíduos orgânicos, o biometano reduz em até 99% as emissões de CO2 e pode substituir o diesel e o gás natural em diversas aplicações sem perda de eficiência.

“O Brasil tem que aproveitar sua diversidade de fontes renováveis. Não precisa fazer a opção por apenas uma fonte. E, naesse sentido, o biometano é uma alternativa realista para o setor de transportes, tanto de carga como de passageiros, mesmo no curto prazo”, afirmou João Guilherme Vogado Abrahão, gerente executivo de governança e estratégia da Confederação Nacional do Transporte (CNT), no painel Descarbonização de Frotas e Ganhos de Eficiência.

O segmento de transportes consome 33% de toda a energia gerada no país, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN 2024). Desse total, 55% são destinados às frotas pesadas, compostas por caminhões e ônibus que, em sua maioria, utilizam diesel. “Por ser grande consumidor de energia, o setor de transportes é ponto chave para a transição energética no país”, disse Erik Trench, diretor de gases renováveis da Ultragaz.

Ultragaz investe na ampliação da distribuição de biometano no Brasil para apoiar as empresas nessa transição. Com a experiência de quem protagonizou a primeira transição energética do país, com a introdução do GLP no mercado, há 88 anos, a companhia atua interligando produtores de biometano a empresas que buscam descarbonizar as operações.

“Queremos simplificar a transição energética, para que seja justa, e uma das soluções é entregar o biometano comprimido diretamente em um ponto localizado dentro da operação do cliente. Isso torna simples um processo que é complexo”, explicou Trench.

A Jomed Transportes é um dos clientes da Ultragaz nessa modalidade. A transportadora conta com um ponto exclusivo dentro da empresa para o abastecimento de 35 caminhões movidos a biometano. “Do ponto de vista operacional, foi um ganho relevante, porque antes um caminhão demorava até 50 minutos para abastecer e hoje isso leva 14 minutos”, afirmou Carlos Ferreira, diretor de sustentabilidade da Jomed.

Com o biometano, a transportadora registrou uma redução significativa nas emissões de CO, . “Cortamos 95, 7% das emissões e com isso devemos antecipar para 2027 as metas previstas para 2030”, disse Ferreira.

Ultragaz adota ainda um sistema de compressão que reduz o volume do biometano em 250 vezes, o que facilita o armazenamento e o transporte, feito com caminhões também movidos a biometano. E a empresa já garantiu a aquisição de mais de 550 mil mº/dia para distribuição nos próximos anos em diferentes regiões do país.

Entre os desafios a serem superados pelo novo mercado de biometano estão o aumento da produção e a distribuição num país com dimensões continentais. “Nós, na CNT, entendemos que a transição energética é necessária e já está ocorrendo. Mas ela ocorrerá em ritmos diferentes nas regiões brasileiras”, afirmou Abrahão, da CNT, lembrando que a distribuição do biometano não é igual em todo o país.

Ferreira, da Jomed, também ressaltou a falta de infraestrutura para abastecimento em rodovias. “Hoje ainda é difícil para um caminhão percorrer longas distâncias com biometano. ” Os especialistas defendem a criação de rotas verdes, com pontos de abastecimento com biometano nas redes de postos, implantação de pedágios verdes e avanços na regulação do mercado.

Indústrias cortam emissões com biometano

No setor industrial, o biometano pode substituir outras fontes de energia nos processos térmicos, na geração de vapor e no abastecimento de frotas de caminhões. É o que já ocorre na PepsiCo, empresa global de alimentos e bebidas.

Em linha com a estratégia global de sustentabilidade PepsiCo Positive, a companhia adotou o biometano em sua maior fábrica, localizada em Itu (SP). A estação montada em parceria com a Ultragaz atende 100% da demanda de gás para fornos e caldeiras, além dos caminhões.

“A fábrica de Itu se destacou mundialmente, porque com o uso de biometano na produção e na frota, as emissões foram reduzidas em 85%, mais do que a meta global, de 50%. A planta ainda reutiliza a água e é zero aterro”, afirmou Priscila Papazissis, corporate senior manager of ES and sustainability da PepsiCo, no painel Biometano e Desenvolvimento Sustentável da Indústria.

Segundo Carlos Ragazzo, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), entre as vantagens do biometano estão a viabilidade técnica e a facilidade para substituir o gás natural usado na maioria das indústrias, com redução das emissões.

“O custo para a troca para biometano é baixo, com a vantagem de a pegada de carbono desse gás ser muito menor. Outros países do mundo já utilizam o biometano de forma mais intensiva com o propósito de reduzir as emissões”, afirmou.

Segundo Priscila, como a frota da PepsiCo já operava com gás natural, a transição foi simples, pois não há a necessidade de adaptação dos caminhões. “Quanto mais empresas aderirem, fica mais viável expandira produção de biometano. Isso é importante para o país, para o clima e para as empresas”, disse.

Um estudo recente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)traçou um panorama da oferta, demanda e oportunidades associadas ao biometano no estado. Segundo André Rebello, diretor executivo de gestão, infraestrutura e construção civil da Fiesp, o maior potencial de produção vem das usinas de açúcar e álcool, pelo grande volume de biomassa gerado, e dos aterros sanitários.

O levantamento indica que São Paulo poderia produzir, no curto prazo, cerca de 6, 5 milhões de nº de biometano por dia, com investimentos de R$ 40 bilhões, em mais de cem usinas. Esse volume equivale hoje a menos da metade do consumo atual de gás natural do estado.

“É preciso baratear o custo de produção do biometano, com linhas de crédito acessíveis, para construir o parque necessário para atingir a produção potencial. Os equipamentos também poderiam ser isentos de tributação. E o governo deveria atuar para criar demanda, como uso em frotas circulares de ônibus, por exemplo”, afirmou Rebello. “Isso geraria uma oferta de gás mais barata.”

‘O Brasil tem que aproveitar sua diversidade de fontes renováveis, e o biometano é uma alternativa realista para o setor de transportes, tanto de carga como de passageiros’

JOÃO GUILHERME VOGADO ABRAHÃO, GERENTE EXECUTIVO DE GOVERNANÇA E ESTRATÉGIA DA CNT

‘A Ultragaz quer simplificar a transição energética, para que seja justa, e uma das soluções é entregar o biometano comprimido em um ponto localizado dentro da operação do cliente’

ERIK TRENCH, DIRETOR DE GASES RENOVÁVEIS DA ULTRAGAZ

‘Do ponto de vista operacional, foi um ganho relevante abastecer os caminhões com biometano dentro da empresa. O tempo de abastecimento caiu de 50 para 14 minutos’

CARLOS FERREIRA, DIRETOR DE SUSTENTABILIDADE DA JOMED TRANSPORTES

‘A fábrica da PepsiCo em Itu se destacou mundialmente, porque com o uso de biometano na produção e na frota as emissões foram reduzidas em 85%, mais do que a meta global de 50%’

RISCILA PAPAZISSIS, CORPORATE SENIOR MANAGER OF EHS AND SUSTAINABILITY DA PEPSICO

‘O custo para a troca de gás natural por biometano nas indústrias é baixo e tem a vantagem de a pegada de carbono ser muito menor’

CARLOS RAGAZZO, PROFESSOR DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV)

‘É preciso baratear o custo de produção do biometano, com linhas de crédito mais acessíveis, isentar os equipamentos de tributação e estimular o governo a criar demanda’

ANDRÉ REBELLO, DIRETOR EXECUTIVO DE GESTÃO, INFRAESTRUTURA E CONSTRUÇÃO CIVIL DA FIESP

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