Pedido da empresa, joint venture entre Shell e Cosan, tem adesão de credores que detêm 40% dos débitos; empresa fica protegida para buscar acordo para dívidas nos próximos 3 meses
O Estado de S. Paulo
A Raízen, joint venture entre a Shell e a Cosan, protocolou ontem um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas não operacionais. O pedido já conta com a adesão de credores detentores de cerca de 40% da dívida. Para a homologação de um acordo, é necessário o apoio de no mínimo 50% mais um dos credores.
O plano abrange obrigações financeiras, e não afeta compromissos correntes ou operacionais da companhia, como dívidas com fornecedores. Por conta do modelo escolhido, não haverá necessidade de aval da Justiça. A dívida será negociada diretamente com os credores, com o objetivo de garantir mais tempo para a companhia saldar suas operações.
Segundo pessoas a par da conversas já em andamento, os maiores bancos credores e donos de títulos de dívida da empresa já aceitaram a proposta apresentada pela empresa. O que falta são credores diversos, com valores bastante diluídos dentro do endividamento total, o que pode dar mais complexidade às tratativas.
A Raízen é uma das maiores empresas de energia e bioenergia do mundo. Enfrentando há meses uma crise por conta do alto endividamento, a empresa detinha R$ 17, 3 bilhões em caixa no final de dezembro. Em contrapartida, o débito chega a US$ 5 bilhões com detentores de bonds no exterior, além de outros US$ 5 bilhões com bancos e US$3 bilhões com títulos no mercado local. Além do peso dos juros elevados, analistas dizem que as dificuldades da companhia são decorrentes de fatores como investimentos que se mostraram ainda pouco rentáveis e quebras na produção de açúcar e etanol.
APORTE. Credores e acionistas da Raízen estão negociando uma conversão de R$ 16 bilhões de dívida em capital e, se chegarem a um acordo, devem se tornar sócios da empresa, conforme fontes próximas às conversas.
Os controladores também vão fazer um aporte de capital: R$ 3, 5 bilhões virão da Shell e R$ 500 milhões do controlador Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta. Caso o plano de reestruturação vingue, a expectativa é de que a dívida da Raízen seja cortada expressivamente.
Sócio da empresa, o BTG não participa do aporte neste momento. Foi a maneira de convencer os credores bancários a aceitar a negociação. De acordo com as negociações, está fora da mesa a separação de energia e distribuição de combustíveis – os dois principais negócios da Raízen – em companhias distintas, mas as conversas podem ser retomadas no futuro se houver sentido estratégico. Ainda não é possível saber como vai ficar o desenho final do controle da Raízen, nem se o BTG vai sair diluído ou se vai acabar fazendo alguma capitalização no final do processo.
SHELL. Havia uma expectativa dos bancos credores, da Cosan e até do Palácio do Planalto de que a Shell resgatasse a Raízen, mas isso não vingou. A Shell estava disposta a colocar apenas R$ 3, 5 bilhões na companhia, e isso era considerado uma “gota no oceano”. Nas discussões iniciais, a pressão era para que a Shell injetasse R$ 20 bilhões na empresa. Pessoas próximas às discussões afirmam que a Shell não coloca hoje energia e distribuição de combustíveis em suas prioridades. O foco da empresa é extração de petróleo e retorno aos seus acionistas. Chegou a ocorrer uma reunião no Palácio do Planalto da qual participaram Ometto, representantes da Shell, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O objetivo era tentar que a Shell entendesse a importância do mercado brasileiro, mas a companhia anglo-holandesa foi inflexível.
Balanço
R$ 5, 8 bi foi o prejuízo líquido registrado no 4. º trimestre de 2025
38% foi a queda sobre o resultado também negativo do mesmo período de 2024
R$ 9, 7 bi foi a dívida líquida expandida no 4. º trimestre de 2025, queda de 58% frente ao resultado em igual período de 2024
Tanques de combustíveis da Raízen em Rondonópolis, em Mato Grosso; tentativa de sair da crise