Sob pressão de dívida, Raízen busca sócio para o negócio

Cosan: prejuízo líquido é de R$946 mi no 2TRI25, frente a um prejuízo de R$227 mi no 2TRI24
15/08/2025
Raízen lida com moagem menor de cana e dívida maior enquanto avalia venda de usinas 
15/08/2025
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Valor Econômico

Controladoras da companhia, Cosan e Shell contrataram bancos para assessorar a transação; alavancagem é de R$ 49 bilhões

Com mais de R$ 49 bilhões de dívida líquida em junho, a Raízen poderá ter um novo sócio, apurou o Valor com duas fontes a par do assunto. A companhia, que atua na produção de açúcar e álcool e na distribuição de combustíveis no Brasil, Paraguai e na Argentina, é uma joint venture entre a Cosan, de Rubens Ometto, e a Shell.

Maior processadora de cana do mundo e maior produtora de etanol, a Raízen sentiu o baque do crescimento acelerado e da diversificação de negócios executados na última década. Com o aumento das taxas de juros, que onera o endividamento, a companhia está vendendo ativos para reduzir dívidas, e suas controladoras, dispostas a contribuir para uma desalavancagem mais rápida.

Segundo uma das fontes, o formato para entrada desse novo sócio não está definido, mas a Cosan eventualmente seria diluída no processo. O grupo de Ometto e a Shell têm, cada um, 44% de participação na Raízen. Os 12% restantes estão pulverizados no mercado – a companhia fez sua estreia na bolsa (IPO, na sigla em inglês) em agosto de 2021, avaliada em R$ 76 bilhões. No fechamento de ontem (14), valia R$ 10,9 bilhões.

A intenção inicial, segundo outra fonte, é que o novo sócio tenha posição minoritária na Raízen, mas traga recursos que reforcem sua liquidez enquanto o plano de venda de ativos, que já está em curso e deve chegar a R$ 15 bilhões até o fim do ano, não se concretiza integralmente.

Bancos de investimentos já foram contratados pelas partes para buscar uma alternativa para a Raízen. O Lazard está assessorando a Shell nesse processo e o Itaú, o grupo Cosan.

Fontes a par do assunto afirmam que diferentes possibilidades ainda estão sobre a mesa e a Raízen vem contribuindo para as discussões entre as sócias controladoras. Junto com os resultados do primeiro trimestre do ano safra 2025/26, a companhia inclusive admite que um aumento de capital poderia vir dos sócios atuais ou de um novo.

Fundos de private equity (que compram participação em empresas) que investem em ativos brasileiros, segundo uma das fontes, já teriam sido abordados. Procuradas, RaízenCosan e Shell não comentaram.

O momento, na avaliação de um banqueiro, não é favorável aos vendedores: informalidade e fraudes tributárias na distribuição de combustíveis no país seguem crescendo e pressionando margens, o que desvaloriza o ativo e potencialmente afasta interessados.

“O problema é que a dinâmica do setor é ruim, porque um ativo bom [como Raízen] concorre com ativos sem governança”, diz.

Do lado da venda de ativos, uma medida “orgânica” para reduzir a alavancagem, a companhia já se desfez da maior parte das operações de geração distribuída (sob o guarda-chuva da Raízen Power) e poderá realizar novos desinvestimentos em usinas de açúcar e álcool, a exemplo do que fez com Leme, MB e Santa Elisa, sem comprometer sua liderança.

Substituição de linhas de curto prazo explica aumento da dívida”

— Nelson Gomes

Já a refinaria e a rede de postos de combustíveis na Argentina, também colocadas à venda, estão dentro do que considerado “core business”, mas acabaram entrando no pacote por causa do valor do ativo: é o maior cheque entre aqueles que podem ser vendidos.

A companhia mudou a gestão no ano passado e iniciou uma série de desinvestimentos para ganhar fôlego. Já foram levantados R$ 3,6 bilhões, dos quais R$ 2,6 bilhões ingressaram em caixa apenas neste ano fiscal.

As vendas fazem parte da estratégia de simplificação de portfólio e concentração nas áreas de etanol, açúcar e bioenergia, além da distribuição de combustíveis no Brasil, afirmou o CEO da empresa, Nelson Gomes, em teleconferência com investidores e acionistas para comentar o balanço divulgado na quarta-feira (13) à noite.

A estratégia mira uma redução da dívida líquida, que teve um salto de 55,8% em 12 meses e alcançou R$ 49,2 bilhões em junho, o que fez com que a alavancagem dobrasse em um ano, encerrando o trimestre em 4,5 vezes o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). A Raízen encerrou o primeiro trimestre da safra 2025/26 com prejuízo líquido de R$ 1,8 bilhão e Ebitda ajustado de R$ 1,89 bilhão, queda de 23,4%.

“Falando de estrutura de capital, substituímos linhas de capital de giro de curto prazo [risco sacado] por dívidas de longo prazo mais competitivas, alongando o prazo da dívida. E esse movimento explica a parte relevante do aumento do endividamento nesse período”, explicou.

No mercado brasileiro de combustíveis, a Raízen registrou expansão de volumes e melhora de margens, tanto em combustíveis quanto em lubrificantes, além de ganhos de eficiência na gestão de suprimentos e estoques, apesar das vendas menores.

Clima seco e incêndios afetaram a moagem de cana no trimestre”

— Phillipe Casale

Na Argentina, a empresa aumentou volumes e avançou no projeto de modernização da refinaria, com foco em eficiência energética. No entanto, dois fatores pesaram no trimestre: a manutenção da refinaria além do prazo previsto e a necessidade de aumentar as importações de gasolina e diesel a custos mais elevados.

Na operação argentina, a otimização de processos levou a uma queda de 20% nas despesas gerais e administrativas em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Já os investimentos totais da companhia recuaram 23% na comparação anual, alinhados ao plano de redução de capex, de R$ 12 bilhões para R$ 9,4 bilhões.

De acordo com o diretor de relações com investidores da companhia, Phillipe Casale, os impactos do clima prejudicaram a moagem da Raízen e os resultados trimestrais. Segundo ele, a moagem de cana na atual safra deve ficar mais próxima do ponto médio para baixo da projeção divulgada anteriormente, em função de condições climáticas adversas.

Conforme Casale, há alguns fatores principais para isso. “Os motivos são o clima seco e incêndios da safra passada. Na entressafra, tivemos período com menos chuvas do que o histórico, o que prejudicou o desenvolvimento da cana. Já neste trimestre, tivemos um volume de chuvas acima da média, o que atrasou a colheita”, disse.

No etanol, a empresa registrou redução do volume próprio, alinhada à queda da moagem e a um mix de produção menos favorável. No segmento de bioenergia, a menor disponibilidade de biomassa reduziu o volume de cogeração, refletindo o ritmo mais lento de moagem.

Por outro lado, Casale destacou o desempenho positivo no açúcar. “Conseguimos maximizar a produção e venda de açúcar com preços que estão alinhados com os ‘hedges’ contratados”, afirmou.

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