Biocombustível, que virou realidade a partir do programa Proálcool, de 1975, foi fundamental para transformar o País em referência em inovação e sustentabilidade
Por UNICA e Estadão
O Brasil respondeu a um desafio global ao apresentar, há 50 anos, a ideia de abastecer veículos com um combustível limpo e renovável, a partir da cana-de-açúcar. Foi o início de uma revolução que tornou o País referência global em biocombustíveis e economia de baixo carbono. Ao longo dessas décadas, o etanol brasileiro se consolidou não apenas como símbolo de tecnologia e sustentabilidade no transporte, mas também como matéria-prima para setores como indústria farmacêutica, cosmética, sanitização e bebidas, influenciando positivamente a redução de emissões em diversas cadeias produtivas.
Abrindo caminho para o futuro da energia limpa, o etanol impulsiona hoje soluções inovadoras, como o biometano, o combustível sustentável de aviação (SAF) e o biobunker (para uso marítimo), expandindo sua contribuição para a descarbonização muito além do transporte terrestre.
Hoje, o Brasil é o segundo maior produtor do biocombustível no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A produção brasileira atingiu 37,2bilhões de litros na safra 2024/2025, dos quais 22% foram produzidos a partir do milho, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA). O segmento também movimenta a economia de 1,2 mil municípios e gera mais de 2,2 milhões de empregos nas regiões produtoras do País, de acordo com a entidade. Somente no Estado de São Paulo, mais de 860 mil trabalhadores estão envolvidos no ciclo produtivo.
“É um setor muito estratégico para o Brasil. O etanol promove a interiorização da indústria brasileira, tradicionalmente concentrada nas grandes cidades. Trata-se de um segmento que conecta o campo à cidade e impulsiona o desenvolvimento local. Estudos indicam que municípios brasileiros com usinas desse segmento apresentam aumento de cerca de US$ 1 mil no PIB [Produto Interno Bruto] per capita regional, enquanto mais de quinze cidades vizinhas têm incremento médio superior a US$ 470 por habitante, conforme aponta um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP). Isso se verifica em mais de 1,2 mil cidades brasileiras”, enfatiza Evandro Gussi, presidente da UNICA.
“Em outros termos, estamos falando de uma transformação socioeconômica baseada em tecnologia, inovação e produtividade – que gera empregos de qualidade e remuneração adequada”, Gussi acrescenta.
Por que defender o etanol brasileiro?
Nas últimas semanas, o Departamento Comercial dos Estados Unidos colocou o etanol brasileiro como um dos temas a ser investigados por “eventual prática ilegal”. Assim como ocorreu com o Pix, que também é investigado pelos Estados Unidos, o etanol figura entre os principais exemplos de inovação, sustentabilidade e destaque internacional do Brasil.
O etanol brasileiro é reconhecido pela baixa intensidade de carbono e pelos padrões rigorosos de rastreabilidade relacionados à sustentabilidade em todo o ecossistema produtivo. No Brasil, o setor atende às exigências ambientais mais rigorosas, tanto nas normas nacionais quanto em certificações internacionais.
Vale lembrar que o País foi pioneiro no desenvolvimento do Proálcool, em 1975, programa que deu origem a toda a indústria sucroenergética nacional, uma das responsáveis por tornar a Nação uma referência no desenvolvimento de um combustível limpo. Desde então, o setor impulsionou a evolução da indústria automotiva nacional com o desenvolvimento de veículos flex e a capacidade de descarbonização a partir da mistura do biocombustível na gasolina.
Desde o lançamento dos veículos flex no Brasil em 2003, o uso de etanol evitou que mais de 730 milhões de toneladas de CO2 equivalente fossem lançadas na atmosfera. Recentemente, no dia 1º de agosto, teve início o mandato de 30% de mistura de etanol anidro na gasolina, uma referênciaque já se espalha por outros países, como Índia e Japão, por exemplo. “O avanço dessas políticas mostra como o etanol, especialmente o produzido no Brasil, tem desempenhado um papel fundamental na melhoria da qualidade da gasolina, tanto do ponto de vista ambiental quanto em termos de eficiência energética. A solução brasileira será determinante no processo global de descarbonização e de transição para combustíveis mais limpos”, Gussi enfatiza.
Não é à toa que, hoje, o Brasil possui a matriz energética mais limpa do mundo, com 50% de fontes renováveis (índice superior à média mundial, de apenas 14,3%), de acordo com o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME).
“Diante do apelo climático, o etanol ocupa um grande espaço nos compromissos de descarbonização do País. Graças a ele, novas fronteiras agrícolas surgiram no centro-sul do Brasil e foi possível equilibrar o aproveitamento do volume extraordinário de cana-de-açúcar que o Brasil produz. É a solução que criamos e dominamos a tecnologia e a cultura do uso”, pondera Pedro Robério Nogueira, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Alagoas.
A principal cadeia do setor integra pequenos e médios produtores, oficinas, comércios e fornecedores de máquinas agrícolas. Ela transforma a renda gerada em uma ramificação de outras atividades, ampliando as malhas econômica e social das regiões onde está presente, acrescenta Nogueira.
Para Gussi, a competitividade dessa cadeia – consolidada ao longo de décadas de investimento e de políticas estruturantes como o RenovaBio, o programa Mover e a Lei do Combustível do Futuro – é a mensagem que o Brasil projeta de coerência entre a política energética nacional e os compromissos assumidos em fóruns multilaterais, como o Acordo de Paris. A escolha do Brasil como sede da COP-30 é um reconhecimento concreto desse protagonismo e reflete o compromisso do País com a agenda climática.
“Esses programas nos permitem ter certeza da acurácia do cálculo das emissões de CO2 em cada etapa do ciclo produtivo. As políticas brasileiras favorecem e impulsionam a transição energética, mas não se baseiam em subsídios, e sim em previsibilidade e organização institucional. Essa estrutura precisa ser mantida para que o Brasil esteja apto a responder à enorme demanda global por biocombustíveis e bioenergia – e o País é hoje o maior modelo desse setor no mundo”, conclui o executivo.