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Em 28 de dezembro de 2023, o núcleo financeiro do PCC comprou, através de uma empresa de fachada aberta seis dias antes, a rede de postos de combustíveis HD, um grupo piauiense pertencente a dois empresários locais -que também são investigados por integrarem o esquema desbaratado ontem na operação Carbono Oculto 86.
A polícia afirma que, com essa rede de postos, o PCC entrou e consolidou uma célula financeira autônoma no Piauí, replicando o modelo nacional de infiltração no setor de combustíveis -que eram adulterados. Para a polícia, o braço financeiro do PCC atua hoje sob disfarce empresarial.
‘Foi a primeira vez que a gente teve os recursos do Sudeste vindo alimentar a organização criminosa, a lavagem no Nordeste. é a primeira vez, e é bom que se diga, que a gente tem os recursos do Estado do Sul, do Sudeste, vindo alimentar a organização criminosa, a lavagem no Nordeste’ diz o secretário de Segurança Pública do Piauí, Francisco Lucas.
Para a compra da rede de postos, o PCC usou o dinheiro ilícito da venda de drogas, passando a retroalimentar os negócios legais e ilegais. ‘Eles precisavam transformar esse dinheiro [do tráfico] em atividades lícitas, e por isso tem se expandido na lavagem de capitais com essas transações comerciais’, diz o secretário.
O valor da compra dessa rede não foi informado oficialmente, mas foi estimado pela polícia em ‘milhões de reais’. Hoje existem quatro inquéritos para investigar lavagem de dinheiro e organização criminosa, além de crimes ao consumidor e ao fisco no Piauí.
A compra da rede HD, segundo a investigação, tratou-se apenas de uma formalização de uma relação que já existia entre os operadores piauienses e os membros do PCC do núcleo da Faria Lima. Os empresários que eram donos dos postos ostentavam uma vida financeira fora do padrão, o que já levantava suspeitas da polícia desde 2023.
A coluna apurou que essa rede de postos existe desde 2014 no Piauí e foi se expandindo ao longo dos anos. Ao comprar a HD, a facção mudava a bandeira comercial para Pima e Diamante, mas não havia alteração operacional.
‘O que a gente percebeu é que o Piauí era um lugar logisticamente estratégico, por ser a única capital do Nordeste fora do litoral e que se conectava fácil com Maranhão e Tocantins. Então aqui estava sendo usado como um centro de distribuição, e eles achavam que aqui haveria uma menor fiscalização’, diz Francisco.
Com o andar da investigação, a polícia foi vendo inconsistências patrimoniais dos ex-donos dos postos, com alterações societárias simultâneas e a criação de empresas com endereço na Avenida Paulista, em São Paulo, mas sem lastro financeiro compatível com o volume de negócios.
Posto que era de propriedade do PCC em Teresina Imagem: Divulgação/SSP-PI Negócio rentável
A entrada no mundo dos negócios dos combustíveis rendeu dinheiro ao PCC, que teria hoje 49 unidades nos três estados de Norte e Nordeste -todas interditadas por ordem judicial.
Com controle de dezenas de postos, e adulterando combustível e bombas, o PCC começou a adotar a prática canibalização do mercado, em que reduzia o preço dos produtos vendidos para obrigar o concorrente a fazer o mesmo. Com os prejuízos acumulados do vizinho, o PCC procurava então os donos desses postos para comprá-los.
‘Havia uma informação de que o PCC estava envolvido na rede de postos Diamante. Portanto, as pessoas que são honestas e vivem de maneira lícita têm medo de dizer um não para o crime organizado’, explica o secretário.
Com o crescimento do negócio, o PCC construiu um centro de distribuição de combustíveis adulterados em uma estrada entre os municípios de Teresina e Altos (PI) para abastecer a rede de postos do grupo nos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins.
Ao longo desses dois anos de investigação, a polícia identificou repasses do PCC ao Piauí de R$ 348 milhões -valor que consta na decisão judicial para bloqueio dos suspeitos.
‘Inicialmente eles faziam essa adulteração em um dos postos; mas com o avanço e as novas empresas, eles sentiram a necessidade de um espaço maior, e por isso adquiriram essa área para fazer uma distribuidora’, explica o delegado Laércio Evangelista, da coordenação do Draco (Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas).
O esquema usava a criação de fundos e holdings para mascarar os beneficiários finais e promover blindagem patrimonial. Para fazer a movimentação financeira, usavam fintechs e contas interligadas, muitas vezes de ‘laranjas’.