Em meio a incertezas sobre o rumo dos preços da gasolina, usinas esperam garantir vantagem comparativa suficiente nas bombas para atrair motoristas
GLOBO RURAL
A superoferta de etanol que se espera para a próxima safra (2026/27) vai precisar de uma “superdemanda”, e os produtores já estão se movimentando para isso. Em meio às incertezas sobre o rumo do preço da gasolina, executivos e lideranças querem apostar em esforços comerciais e de marketing para garantir um aumento das vendas de etanol hidratado (que compete com a gasolina nas bombas) neste ano e também articulam para elevar a mistura do etanol anidro no ano que vem.
Apenas na safra 2026/27 do Centro-Sul, a produção total de etanol deve bater o recorde histórico e alcançar entre 37 bilhões e 38 bilhões de litros. Quase um terço desse volume deve ser garantido pela produção a partir do milho, de acordo com a média das estimativas das consultorias privadas. Considerando que o Nordeste e o Norte costumam produzir pouco mais de 2 bilhões de litros por ano, a oferta nacional do biocombustível pode passar de 40 bilhões de litros, um acréscimo de cerca de 4 bilhões de litros
No ano passado, quando o consumo do ciclo Otto (gasolina e etanol) foi recorde, as vendas totais de etanol — somando o hidratado vendido nos postos e o anidro misturado à gasolina — alcançaram cerca de 34 bilhões de litros. Em 2026, o consumo do ciclo Otto deve ter um aumento na faixa entre 1,6 bilhão e 1,9 bilhão de litros em gasolina equivalente, segundo estimativa recente da consultoria Datagro. Se todo esse acréscimo for garantido pelo etanol hidratado, trata-se de um consumo adicional de 2,3 bilhões de litros.
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A consultoria projeta que a parcela da frota flex que usará etanol hidratado deve crescer para 31,1%. Isso garantirá um aumento de consumo de 3 bilhões de litros, totalizando 24,3 bilhões de litros.
A participação de mercado do biocombustível já oscilou bastante nos últimos anos. Em apresentação recente, Plinio Nastari, presidente da Datagro, disse que, se o hidratado repetir o recorde de 2019, de uma fatia de 36,7% do ciclo Otto, o consumo adicional de hidratado em relação a 2025 pode ser de 8 bilhões de litros.
Por ora, não há perspectiva de que as projeções de acréscimo da oferta caiam muito, já que o etanol segue oferecendo um “prêmio” em relação ao açúcar. Os preços da commodity estão em seu menor nível em cerca de cinco anos.
Para Martinho Ono, sócio da trading SCA, os preços do etanol hidratado terão que garantir uma boa competitividade em relação à gasolina ao longo da safra para atrair a demanda necessária para todo esse volume. Nas contas da consultoria FG/A, a correlação entre os preços do hidratado e da gasolina nos postos de São Paulo deverá ficar entre 64% e 65%.
Ono observou, porém, que não basta que a relação seja favorável ao etanol hidratado apenas nos postos de São Paulo — que costumam ser a referência para todo o mercado. “Há outros Estados em que os preços podem ser mais competitivos”, afirmou o trader.
A preocupação com a competitividade do etanol fora do mercado paulista está na pauta também de dirigentes do setor. “O etanol hidratado precisa ganhar mais mercado em outros Estados”, defendeu José Guilherme Nogueira, presidente da Organização das Associações dos Produtores de Cana (Orplana) e coordenador da Comissão de Bioenergia do Instituto Pensar Agro (IPA). O esforço para elevar a demanda em outros Estados está na pauta da comissão deste ano.
Ele ressaltou que há Estados com frotas de carros flex relevantes que poderiam consumir mais etanol, mas nos quais hoje o hidratado tem uma baixa penetração por causa da falta de competitividade nas bombas. É o caso, por exemplo, do Rio Grande do Sul.
Em 2025, o etanol hidratado atendeu 24,2% das vendas do ciclo Otto de todo o país, mas, no Rio Grande do Sul, a fatia foi de 2,3%. Mesmo em alguns Estados que produzem etanol a fatia das vendas do hidratado está abaixo da média nacional. Em Pernambuco, o biocombustível representou 13% das vendas do ciclo Otto de 2025.
“Precisamos mostrar que o etanol é bom para o carro e garantir um preço competitivo”, disse Mário Campos Filho, presidente da Bionergia Brasil, associação que reúne usinas de todo o país. Segundo ele, o setor está debatendo a realização de campanhas para incentivar o uso do biocombustível.
O plano, afirma ele, é priorizar a ampliação do mercado interno, mas ele não descarta que o Brasil possa também aumentar suas exportações na nova safra. Um exemplo, diz, é o trabalho de abertura de mercados que tem sido feito pelas usinas de etanol de milho, cuja oferta permitiu ampliação das vendas no Centro-Oeste e começa agora a elevar a oferta na região Nordeste. Em Mato Grosso, onde surgiram as primeiras indústrias, o hidratado é mais de 40% do ciclo Otto há mais de dez anos.
Para um prazo maior, o setor começará a acompanhar os testes de misturas mais altas de etanol anidro na gasolina. O teor atual é de 30%, e a Lei do Combustível do Futuro prevê até 35%, de acordo com os resultados de testes. Segundo Nogueira, da Orplana, a expectativa é que o aumento de mistura seja possível em meados de 2027.