Indústria de petróleo encara 2º semestre de incerteza, com Brasil no radar 

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Com disrupções no fornecimento e custos logísticos elevados, o mercado global de petróleo e gás enfrenta volatilidade, enquanto o Brasil se destaca pela competitividade

Estadão Online 

O segundo semestre de 2026 tem se mostgrado cada vez mais incerto para a indústria global de petróleo e gás, depois de um primeiro semestre marcado por disrupções no fornecimento. Sem definição sobre o desfecho da crise entre Estados Unidos e Irã e no Estreito de Ormuz, os custos elevados de logística e a lenta recomposição da oferta mantêm a volatilidade do mercado. Ainda assim, o Brasil segue competitivo, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, embora o debate sobre um imposto de exportação se mantenha como fator de risco às decisões futuras de investimento.

O contrato mais ativo do Brent seguiu, ao longo da semana, negociado na faixa dos US$ 100 por barril, ainda que abaixo da máxima de quatro anos, de US$ 118, registrada em abril. Para as petroleiras, os níveis elevados ampliam a atratividade de poços com custos de extração mais altos, lembra o analista da Eleven Financial, Caio Borges. A avaliação da gestora, porém, é que esse movimento só tende a se sustentar caso o conflito provoque danos relevantes à infraestrutura produtiva no Oriente Médio.

“Outro ponto a exercer pressão baixista nos preços no médio e longo prazo é que, à medida que a guerra avança, os países da região também podem encontrar outras formas de escoamento da produção, o que dificultaria um Brent elevado por muito tempo.”

A StoneX ressalta que a cautela das empresas marítimas e as dificuldades operacionais no Golfo Pérsico atrasam a retomada da oferta global de petróleo, que deve ser lenta ao longo de todo o segundo semestre de 2026. A produção conjunta da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e dos Emirados Árabes Unidos, que caiu para 19,4 milhões de barris por dia em maio, deve alcançar 29 milhões de barris diários apenas no quarto trimestre, com a expectativa de retornar aos níveis anteriores ao conflito somente em 2027.

Em relação aos derivados, se confirmarem os rumores de banimento das exportações de diesel pela Rússia nos próximos meses para proteger seu mercado interno, consumidores do produto russo, como a Turquia e o Brasil, terão de recorrer a outros fornecedores.

Eleições de meio de mandato nos EUA

Além dos fatores de oferta e logística, o cenário político nos Estados Unidos também amplia as incertezas para o mercado.

Para o sócio-diretor da A&M Infra, Rivaldo Moreira Neto, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, devem manter pressão sobre os custos de movimentação das commodities energéticas. “É uma eleição que desempenha um papel crucial na estratégia, influenciando decisões sobre intensificar ou reduzir ações militares. Com o risco de seguro para navegação permanecendo elevado, não vejo uma solução de curto prazo para as dificuldades de circulação”, afirma.

Brasil no radar

Na primeira metade do ano, a cadeia de produtos e serviços atrelados ao setor de petróleo não sentiu efeitos práticos da tensão geopolítica, destaca o presidente executivo da ABESPetro (Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo), Telmo Ghiorzi. O Brasil, por exemplo, teve condições produtivas de figurar entre os países que ampliaram sua participação na oferta global, segundo a StoneX. A continuidade de resultados operacionais robustos guia as expectativas no mercado de capitais.

“Seja na Prio, seja na Petrobras, o operacional está muito robusto. Quando se alinha um operacional mais forte a um preço de petróleo muito mais atrativo, o resultado é lucro recorde. É isso que espero para essas empresas ao longo de 2026”, afirma o analista da Suno Research, João Daronco.

Na ponta da decisão de alocação de capital produtivo, o Brasil segue com oportunidades para ser destino de futuros investimentos das empresas globais. A combinação de baixo custo de produção e retornos estimados entre US$ 25 e US$ 30 por barril mantém a atratividade do Brasil, lembra o sócio da A&M Infra.

Esse potencial, contudo, depende também de segurança jurídica, especialmente com o acirramento da disputa por capital. Guiana e Canadá, por exemplo, seguem em trajetória de expansão estrutural, sustentados por novos projetos em águas profundas e pela maturação de campos em desenvolvimento, destaca a StoneX.

“Seria ótimo se não fosse necessário investir tempo discutindo imposto de exportação sobre o petróleo, que é algo pensado para o curto prazo”, comenta Moreira Neto. “Temos uma carteira atual de FPSOs (plataformas) contratados que começa a se esgotar a partir de 2031. Será necessário incentivar novas descobertas e defender investimentos junto às matrizes das empresas globais”.

Na avaliação da ABESPetro, a ampliação de investimentos também passa pelo fortalecimento de longo prazo da cadeia produtiva. “Ter robustez é importante não só por questões de segurança energética, mas para que a população possa lidar melhor com choques de preços. Setores mais industrializados remuneram melhor, e é isso que dá conforto material diante de cada crise”, finaliza Ghiorzi.

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