Além de barril voltar a ficar acima de Us$ 100 no mercado global, problemas logísticos geram impacto ainda maior sobre o diesel; aqui, recuo em reajuste da gasolina reaviva temor de interferência de Lula na Petrobras
Folha de S. Paulo
Acotação do barril de petróleo Brent voltou a superar US$ 100 pela primeira vez desde julho, em movimento que se intensificou com novas hostilidades no Oriente Médio. Ainda mais impactantes para a inflação global, os preços de derivados como o diesel batem recorde, chegando a US$ 6 o galão nos EUA.
A normalização do estreito de Hormuz continua incompleta e pode se arrastar até 2027, segundo alerta da Agência Internacional de Energia. O tráfego, que chegou a 8 milhões de barris diários em agosto, despencou com novos ataques de lado a lado.
Como rota alternativa, a Arábia Saudita ampliara o uso do oleoduto Leste-oeste, canal de exportação pelo Mar Vermelho, e transportava recentemente até 5 milhões de barris por dia. Ataques de rebeldes houthis do Iêmen interromperam essa via.
Soma-se a isso a redução do refino da Rússia, grande fornecedor mundial de diesel, devido a ataques ucranianos. O resultado é um choque ainda maior nos derivados do que no petróleo bruto.
No Brasil, o diesel é o elo mais sensível. Combustível da logística e da agropecuária, seu encarecimento se espalha por fretes e cadeias industriais e pela safra que se inicia, já sob o risco do fenômeno climático El Niño.
O país importa algo entre 25% e 30% do consumo, e ao menos dois terços dessas compras são feitas por empresas privadas, que repassam cotações internacionais. A Petrobras é responsável pela menor parte e arca com o peso de evitar reajustes, como quer o Palácio do Planalto.
Com os preços em alta, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por ampliar subvenções às vésperas da eleição presidencial. Um novo pacote reduz o Pis/cofins da gasolina em R$ 0,63 por litro e cria subsídio adicional de R$ 1 para o diesel, que se soma ao R$ 1,12 vigente até setembro.
O custo mensal das medidas recentes chega a R$ 7 bilhões, enquanto a defasagem do diesel da
É compreensível que o governo tente limitar o impacto doméstico da guerra sobre a inflação, mas o uso de recursos orçamentários precisa ser temporário, em prol do erário e do abastecimento
Petrobras ante o produto importado se amplia, superando R$ 3 por litro em algumas medições.
Quanto à gasolina, a Petrobras provocou estranheza na semana passada ao anunciar um aumento de preço e recuar poucas horas depois, sem justificativa. Foi inevitável a desconfiança de uma intervenção política às vésperas de uma eleição acirrada.
É compreensível que o governo tente limitar o impacto doméstico da guerra sobre a inflação e os custos de produção. O uso de recursos orçamentários, porém, precisa ser temporário e calibrado à luz de outras prioridades, em prol do erário e do abastecimento de combustíveis.