EIXOS
Produzido pela presidência da COP30, roteiro deve ser entregue até a próxima conferência, no final de 2026.
Mais de uma centena de organizações da sociedade civil ao redor do mundo divulgou uma carta esta semana, endereçada ao embaixador André Corrêa do Lago, cobrando participação na construção do mapa do caminho para o afastamento dos combustíveis fósseis.
O grupo teme que o documento a ser elaborado pela presidência da COP30 siga os mesmos moldes do roteiro entregue no ano passado para destravar US$ 1,3 trilhão para países de renda média e baixa fazerem sua transição — “um documento destinado à prateleira”, criticam as 114 organizações.
“O roteiro para o fim dos combustíveis fósseis deve ser um processo real, transparente e participativo, que reflita as realidades vividas por aqueles mais afetados e ajude a traduzir compromissos globais em ações críveis e em implementação acelerada”, defende a carta aberta (.pdf).
E menciona a conferência convocada pela Colômbia para discutir o tema, em abril deste ano, como uma plataforma para contribuir com o relatório.
A cobrança por participação de indígenas, comunidades locais e afrodescendentes, além de nações do Pacífico e da América Latina carrega uma percepção, por parte desses grupos, de que as discussões climáticas vêm sendo capturadas por interesses da indústria fóssil.
Ao mesmo tempo, a corrida por recursos energéticos para alimentar uma demanda que só tende a crescer adiciona novas pressões — e dúvidas — sobre a capacidade de o mundo prescindir de óleo, gás e carvão na velocidade que a crise climática impõe.
Mesmo os investimentos em transição energética superando os fósseis pela segunda vez consecutiva em 2025, com US$ 2,3 trilhões, os principais produtores de óleo, gás e carvão estão planejando expandir sua produção no curto prazo.
A carta chega na esteira de uma mensagem divulgada há uma semana por Corrêa do Lago, onde o presidente da COP30 defende a “evolução” do multilateralismo climático em meio a um ambiente geopolítico conturbado.
“Embora a Presidência da COP30 tenha antecipado a evolução do multilateralismo como uma prioridade, jamais imaginei que desafios geopolíticos e socioeconômicos tornariam essa agenda tão urgente, em tão curto espaço de tempo”, observa.12ª carta da COP30Presidente da COP30 apela a multilateralismo “voluntário” para avançar com agenda climática brasileira
Os primeiros 31 dias de 2026 foram marcados por uma série de eventos extremos: tanto políticos quanto climáticos.
A invasão dos EUA à Venezuela em busca de petróleo e às ameaças de Donald Trump sobre a Groenlândia para extrair recursos minerais e obter uma nova rota marítima influenciaram um acordo entre a União Europeia e o Reino Unido para a instalação de 100 GW de eólica offshore “para escapar da montanha-russa dos combustíveis fósseis”.
Enquanto acordos comerciais China-Canadá e UE-Índia reduziram tarifas sobre veículos elétricos e energia limpa.
Por outro lado, calor extremo e tempestades de inverno afetaram milhares de pessoas em diferentes partes do mundo, assim como o fornecimento de energia.
Um relatório (.pdf) publicado em janeiro pela Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, em inglês) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que eventos climáticos extremos estão ampliando a pressão sobre o sistema energético.
Ao mesmo tempo em que a presidência da COP30 trabalha em um “mapa do caminho” para subsidiar transições em quase 200 países membros da conferência — ricos, pobres, com petróleo, sem petróleo — o Brasil também prepara o seu.
Encomendadas pelo presidente Lula (PT) em 8 de dezembro, as diretrizes devem ser apresentadas até o final desta semana, a menos que o prazo seja prorrogado.
Por aqui, a sociedade civil também cobra participação. Na semana passada, organizações apresentaram uma moção para incluir o Fórum Nacional de Transição Energética (Fonte) na elaboração das diretrizes, mas o pedido não foi votado por “falta de tempo”.
Dias antes, o Observatório do Clima chegou a divulgar uma lista de recomendações encaminhadas ao governo para compor o documento. Entre elas, um cronograma para o fim dos leilões de petróleo.