Valor Econômico
O conselho de administração da Petrobras tem reunião marcada nesta quarta-feira (26) e, no encontro, deve ser feita apresentação sobre combustíveis. Não se espera, porém, nenhuma mudança nos preços esta semana, antes do segundo turno das eleições, no domingo. A apresentação seria uma espécie de prestação de contas sobre a situação no mercado de derivados de petróleo, que segue marcado pela defasagem nos preços do diesel e da gasolina em relação às cotações no exterior.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indicam que o diesel vendido pela Petrobras nas refinarias às distribuidoras tinha ontem defasagem de 9%. Isso indicava a necessidade de aumento médio de R$ 0,46 no preço do litro do diesel da estatal. A defasagem para a gasolina calculada pela entidade também era de 9%, mas nesse caso haveria necessidade de um reajuste médio de R$ 0,31 por litro.
A pressão por reajustes aumentou desde que o petróleo voltou a subir no mercado externo. Em outubro, com a alta da commodity, não houve ainda aumentos de preços nos derivados pela Petrobras. Este mês os preços do barril no mercado externo ultrapassaram US$ 95 em 7 de outubro, depois de terem atingido US$ 82 em setembro. Ontem, o barril tipo Brent, referência internacional, caiu 0,25% e encerrou o dia a US$ 93,26, no contrato para entrega em dezembro, o que reduz um pouco a pressão por reajustes, mas o mercado segue volátil.
Entre julho e setembro, a situação era inversa. Com a queda do preço do barril no mercado externo, a estatal acelerou as reduções nos preços dos combustíveis, o que coincidiu com a campanha eleitoral no país. Nesse período, foram três reduções no diesel e quatro cortes na gasolina. O último corte da companhia no diesel ocorreu em 19 de setembro, quando o combustível passou a ser vendido a R$ 4,89 o litro, em média, nas refinarias. A gasolina está desde 1 de setembro sem alterações nos preços e, desde então, vem sendo vendida a R$ 3,28 o litro na refinaria.
A Ativa Investimentos estima que a gasolina da petroleira é vendida 14,9% abaixo dos preços praticados no Golfo do México, região que concentra um dos principais polos de refino dos Estados Unidos. Agentes da indústria de petróleo não acreditam que a Petrobras vá aumentar agora os preços dos derivados faltando seis dias para a eleição. Pesquisa de preços da Agência Nacional do Petróleo (ANP), realizada entre 16 e 22 deste mês, mostra que o preço médio de revenda do óleo diesel nos postos, no país, situou-se em R$ 6,59 por litro, enquanto a gasolina comum ficou em R$ 4,88 por litro.
Nos cálculos da consultoria StoneX, havia ontem espaço para reajuste de 7,3% no diesel, o que correspondia a aumento de R$ 0,358 por litro, em média. Para a gasolina, o cálculo era de defasagem de 5,3%, com necessidade de aumento de R$ 0,1755, em média. O consultor em gerenciamento de risco da StoneX, Pedro Shinzato, reconheceu que há grande volatilidade no mercado. Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, disse que os dados de defasagem refletem os movimentos diários, mas que a Petrobras considera prazo maior para definir os preços: “Para efeito de precificacão, a Petrobras leva em consideração a média dos últimos doze meses”, informa.
O Valor apurou que o conselho de administração da Petrobras vem se concentrando na discussão da pauta ordinária, como a aprovação de relatórios. É como se, de alguma maneira, a companhia estivesse em compasso de espera pelo resultado das eleições. A exceção é a preparação do novo plano de negócios para o período 2023-2027, que será divulgado pela empresa no fim de novembro. O plano, independentemente de quem ganhar as eleições, passará por mudanças de acordo com a realidade política do país a partir de 30 de outubro.
Se o presidente Jair Bolsonaro for reeleito, existe a visão, entre fontes próximas da empresa, de que haverá chances de a privatização da Petrobras ir em frente. Eventual venda do controle acionário da estatal foi aventada em governos anteriores desde a redemocratização, mas a operação nunca encontrou condições reais para ser implementada. Se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vencer as eleições, será preciso esperar para ver “qual Lula virá”.
O ex-presidente tem falado em mudar a política de preços da estatal e resgatar a construção naval e offshore, o que, eventualmente, exigirá mexer na política de conteúdo local de bens e serviços. Mas será preciso esperar para conhecer os detalhes. A avaliação, entre fontes do mercado, é que hoje a Petrobras tem um conselho de administração e uma diretoria formados, majoritariamente, por pessoas favoráveis à reeleição de Bolsonaro. O atual presidente fez da Petrobras uma das principais bandeiras na campanha pela reeleição. A companhia tornou-se alvo de críticas permanentes de Bolsonaro, teve quatro presidentes desde 2019, e funcionou como alavanca de recursos para a União por meio do pagamento de dividendos. O entendimento é que, neste momento, é preciso aguardar passar a eleição para ter um cenário mais claro sobre o futuro da Petrobras.