Valor Econômico
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quarta-feira (19) o mapa do caminho (roadmap) para o fim da dependência dos combustíveis fósseis e disse acreditar que os negociadores brasileiros chegarão a um bom-termo sobre a questão, respeitando a soberania de cada país. Esse vem sendo um dos principais temas negociados na agenda paralela da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), em Belém.
“É por isso que nós colocamos a questão do mapa do caminho [para o fim dos combustíveis fósseis]. É preciso que a gente diminua a emissão de gás de efeito estufa. E se o combustível fóssil é uma coisa que emite muitos gases, nós precisamos começar a pensar como viver sem combustível fóssil”, defendeu o presidente em declaração à imprensa, após cumprir agenda na COP durante esta quarta.
Lula lembrou que o Brasil produz e consome muito petróleo, mas ainda assim se sente à vontade para propor essa medida. “Eu falo isso com muita à vontade, porque sou de um país que tem petróleo, que extrai 5 milhões de barris de petróleo por dia. Mas também sou de um país que mais utiliza etanol misturado na gasolina. Sou de um país que produz muito biodiesel. E o nosso biodiesel já contém 15% de biodiesel misturado. Sou de um país que tem 87% da sua energia elétrica limpa”, argumentou.
Ele falou que quer que todos os países tenham uma energia mais limpa. Para isso, cobrou a ajuda dos países mais desenvolvidos. “Os países pobres têm que ser ajudados pelos países ricos. Os países ricos podem ajudar a transição energética africana, a produção de biocombustível, a produção de energia eólica, solar, tudo está aí.”
Lula lembrou que não basta dinheiro, mas também é necessário que haja transferência de tecnologia e de conhecimento para os países em desenvolvimento.
Ele cobrou que as empresas petroleiras e as mineradoras deem sua contribuição para ajudar no financiamento da transição energética. “As empresas petroleiras têm que pagar uma parte disso. As mineradoras têm que pagar uma parte disso. As pessoas que ganham muito dinheiro têm que pagar uma parte disso, porque senão quem vai sofrer é a parte mais pobre do planeta Terra”, frisou.
Defendeu que os bancos multilaterais, que cobram, segundo Lula, “uma exorbitância de juros dos países africanos e dos países pobres da América Latina”, transformem parte dessa dívida em investimento para que os países pobres possam fazer a transição energética.
Ele cobrou, também, que os países riscos coloquem dinheiro para manter as florestas em pé, numa referência ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), que tem esse objetivo de remunerar os países que possuem florestas tropicais.
Mesmo em meio às cobranças, o chefe do Executivo disse acreditar que os negociadores brasileiros conseguirão construir “o melhor” resultado até o fim desta COP, que acaba oficialmente na sexta-feira, se as negociações não forem estendidas para o fim de semana.
“Os meus negociadores irão fazer o melhor resultado que uma COP já pôde oferecer ao planeta Terra”, destacou Lula.
Lula lembrou que é preciso que os líderes mundiais compreendam a importância da questão climática para manutenção da vida na Terra. “A questão do clima não é mais apenas uma visão acadêmica, de meia dúvida de intelectuais, de meia dúvida de ambientalistas. A questão climática é coisa hoje muito séria que coloca em risco a humanidade. E é por isso que nós tratamos isso com muita seriedade.”
Ele terminou sua fala dizendo que está “tão feliz” e que “um dia” haverá de convencer o presidente dos EUA, Donald Trump, que a “questão climática é séria”. O presidente disse que foi muito importante colocar a Amazônia do jeito que ela é para o mundo inteiro. Ele também destacou que essa foi a COP com a maior participação de pessoas de diversas etnias e gênero.
O presidente também destacou a participação de 3,5 mil indígenas durante a COP, a Marcha dos Povos e a presença das mulheres. “Todo mundo tem um papel na sociedade e essa COP foi um pouco isso.”
O ministro alemão do Meio Ambiente, Carsten Schneider, que também participou de reunião com Lula, disse que a Alemanha apoia a ideia de um roadmap para afastar o mundo da dependência dos combustíveis fósseis. Essa declaração está sendo negociada na agenda paralela à formal da COP.
“Nós apoiamos muito a sugestão do presidente Lula do roadmap para essa zona livre de combustíveis fósseis. Nós apoiamos também muito as ideias dos países menores em relação ao clima. E nós também buscamos muito essa meta de redução, ou seja, o que foi acordado no Acordo de Paris de 1,5°C como parte de um pacote completo”, afirmou.
“Há um consenso bastante alargado para a diminuição dos combustíveis fósseis até 2030. Eu espero que a presidência brasileira e toda a equipe introduza esse tema nas negociações formais para podermos apoiar”, afirmou a ministra do Meio Ambiente e Energia de Portugal, Maria da Graça Carvalho.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, anunciou um aporte de € 1 bilhão da Alemanha ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). O anúncio foi feito durante entrevista coletiva realizada em Belém, em meio à COP30, onde Marina também afirmou que o mapa do caminho – roadmap – para eliminação dos combustíveis fósseis tem recebido “boa resposta” nas negociações.
“Tivemos a alegria de que a Alemanha fez o anúncio do seu aporte – o presidente ainda está instando o concurso entre Alemanha e Noruega -, mas na ordem de € 1 bilhão”, disse, ao lado do presidente Lula e do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30. “Isso demonstra que esse instrumento global de financiamento foi muito bem desenhado e começa a dar respostas.” (Colaborou Luiza Palermo)