VALOR ECONÔMICO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse na segunda-feira (2) que o governo federal tem o compromisso de combater o crime organizado e enfatizou ações que, segundo ele, atingem os “magnatas do crime”. A declaração foi feita no Supremo Tribunal Federal (STF), durante a cerimônia de abertura dos trabalhos da Corte em 2026.
Lula citou em sua fala a Operação Carbono Oculto, deflagrada no ano passado para investigar o envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) em um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Segundo o presidente, todos os responsáveis serão punidos, “não importa o tamanho das contas bancárias”.
“Com a Operação Carbono Oculto, o Poder Judiciário, a Polícia Federal e a Receita Federal chegaram aos mandantes do crime organizado: magnatas do crime, que vivem no andar de cima, que não estão nas comunidades, e sim em alguns dos endereços mais nobres no Brasil e no exterior. Não importa onde os criminosos estejam. Não importa o tamanho de suas contas bancárias”, afirmou Lula.
O presidente optou por discursar para marcar posição em ano eleitoral sobre alguns temas. Segundo fontes, a decisão de falar na cerimônia do Judiciário partiu do próprio chefe do Executivo. A iniciativa contrasta com a postura adotada em 2025. Na ocasião, Lula também participou da abertura dos trabalhos do STF, mas não discursou. Em 2023 e 2024, ele fez pronunciamentos.
Apesar de ter deixado de falar apenas no ano passado, o discurso feito na segunda-feira ganha peso em razão do atual contexto político. De acordo com interlocutores do Palácio do Planalto, o presidente avaliou haver necessidade de transmitir recados considerados centrais neste momento. O principal deles diz respeito aos ataques aos Poderes.
Trata-se da primeira abertura do ano no Judiciário após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete aliados que eram integrantes do chamado “núcleo crucial” da organização criminosa que tentou impedir a posse de Lula em 2023. Nesse cenário, o presidente buscou sinalizar uma posição clara de repúdio a qualquer atentado ao sistema democrático. Em janeiro, ele já havia vetado o projeto de lei (PL) da dosimetria, que diminuiria o tempo de prisão de condenados por trama golpista.
O tema do combate ao crime também foi tratado por Lula na mensagem que enviou ao Congresso. No texto, lido pelo deputado Carlos Veras (PT-PE), Lula defendeu que “bandidos” pagarão por seus crimes e que a Carbono Oculto entrou “para a história” como a “maior ofensiva contra o crime organizado”. “[A operação] desmantelou um esquema bilionário que utilizava distribuidoras, refinarias, postos de gasolina e fintechs para lavagem de dinheiro do crime. Pela primeira vez o combate às facções criminosas chegou ao andar de cima”, disse.
Não importa o tamanho das contas bancárias dos criminosos”
— Presidente Lula
As declarações são semelhantes a uma feita por Lula em 15 de janeiro. Na ocasião, ele citou as investigações sobre o suposto esquema de fraude no Banco Master e disse que o país nunca teve “tantas chances” de atingir o “andar de cima” da corrupção.
Lula encontrou-se com Daniel Vorcaro, dono do Master, em dezembro de 2024. Pessoas próximas ao presidente, no entanto, minimizam o encontro. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse na segunda-feira que, se um chefe do Executivo quer governar de forma “democrática”, deve estar aberto a receber representantes de diversos segmentos”.
“Um presidente da República recebe institucionalmente todos os atores econômicos. O presidente recebeu vários presidentes de bancos, como empresários da agricultura, representantes da população de entidades, como do MST e outros”, afirmou a jornalistas após participar da solenidade no Congresso.
Na declaração, o ministro evitou opinar sobre as ações tomadas pelo Banco Central (BC) envolvendo o caso, especialmente sobre uma eventual demora da autoridade monetária em tomar decisões. “Ali tem gente concursada, muito experiente, que avalia cotidianamente a situação financeira de todas as instituições financeiras. Eu não tenho elementos para julgar os detalhes”, afirmou.
De acordo com Rui Costa, não há uma orientação do governo contra a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso Master. “Do mesmo jeito que não cabe um deputado ficar orientando como a Polícia Federal deve agir para investigar um crime, não cabe ao Executivo ficar opinando como um parlamentar deve agir dentro do Congresso”, disse.