Valor Econômico
A venda da fatia remanescente da Petrobras na BR Distribuidora, por R$ 11,358 bilhões (US$ 2,3 bilhões), deve ajudar a petroleira a antecipar, de 2022 para 2021, o atingimento da meta de redução da dívida bruta para US$ 60 bilhões – o que, na prática, deve se refletir em mais dividendos para os investidores. Já para a BR, a saída definitiva da antiga controladora do capital da companhia deve impulsionar uma valorização das ações da distribuidora, que perde seu acionista mais relevante e deve sair, ao fim da operação, com um capital mais pulverizado.
A cerimônia da oferta subsequente (“follow on”) das ações da Petrobras na BR ocorre na manhã de hoje. Ao todo, serão negociadas cerca de 436 milhões, equivalentes a 37,5% do capital da distribuidora. O papel foi precificado na quarta-feira a R$ 26, um desconto de apenas 2,5% sobre o preço de fechamento do dia, no valor de R$ 26,68. Conforme antecipado pelo Pipeline, site de negócios do Valor, os coordenadores conseguiram puxar o preço da oferta para cima durante a quarta-feira, dada a demanda pelo ativo, de duas vezes o book – em torno de R$ 23 bilhões em reservas de pouco mais de 100 investidores institucionais. A liquidação da operação está prevista para 5 de julho.
O UBS vê potencial para valorização dos papéis da BR, em meio à saída definitiva da Petrobras do capital da empresa, e elevou o preço-alvo dos papéis da distribuidora de R$ 30 para R$ 35. “Vemos espaço para a valorização do preço das ações, com a possibilidade de alta de até 37% de acordo com o nosso preço-alvo, além do alto rendimento de dividendos”, faz coro o Goldman Sachs, em relatório sobre a operação. O banco trabalha com preço-alvo de R$ 36,60 para as ações da BR, que fecharam ontem com alta de 7,2%, a R$ 28,60.
O negócio garante à petroleira a entrada de um importante dinheiro em caixa, num momento em que ela acelera a redução de seu endividamento e promete aumentar o pagamento de dividendos. A política de remuneração de acionistas da empresa estabelece que, a partir do momento em que a dívida bruta da companhia cair para menos de US$ 60 bilhões, uma nova sistemática de pagamentos aos investidores será acionada. A fórmula prevê a distribuição de 60% da diferença entre o fluxo de caixa operacional e investimentos.
O UBS estima que essa fórmula pode destravar pagamentos de dividendos de US$ 9 bilhões ao ano. O banco, no entanto, acredita que, num primeiro momento, a estatal deve priorizar a sustentabilidade financeira e limitar a distribuição de dividendos a algo entre US$ 3 bilhões e U$ 5 bilhões em 2021. Para efeitos de comparação, os resultados de 2020 renderam um pagamento de US$ 1,977 bilhão.
Embalada por uma forte geração de caixa, a Petrobras vem reduzindo sistematicamente o endividamento. Mesmo durante o choque de preços do petróleo em 2020, a estatal conseguiu cortar em 20,5% a dívida bruta entre março do ano passado e igual mês de 2021, para US$ 70,9 bilhões. E essa trajetória de desalavancagem se mantém. Em abril, a petroleira pagou mais US$ 3,2 bilhões e, em junho, anunciou a conclusão de uma oferta de recompra de títulos globais que permitirá uma redução adicional de US$ 680 milhões.
Com os US$ 2,3 bilhões arrecadados com a venda da BR e os US$ 2,94 bilhões que a estatal terá direito a receber à vista das chinesas CNOOC e CNODC, nos próximos meses, pelos investimentos já realizados no projeto de Búzios, no pré-sal, dentro do acordo de coparticipação assinado entre as partes, a Petrobras se aproxima ainda mais do patamar de dívida de US$ 60 bilhões.
O UBS calcula que, na oferta da BR, o múltiplo EV/Ebitda – relação entre o valor da empresa (EV) e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) previstos para 2021 – foi de 8,1 vezes. Segundo o banco, o valor é “consideravelmente mais barato” que o histórico de 9,5 vezes”.
Em relatório, o analista Luiz Carvalho disse acreditar que, após a oferta das ações da Petrobras, o mercado irá precificar rapidamente as melhorias operacionais da BR. Ele cita os ganhos na margem Ebitda, que aumentaram de R$ 71 por metro cúbico (m3) vendido em 2017 para R$ 110/m3 no primeiro trimestre de 2021, com perspectivas de atingir R$ 120/m3 em 2022.
A mudança na base de acionistas da BR, com a saída da Petrobras do capital da companhia, ocorre num momento em que a distribuidora se debruça sobre um novo reposicionamento para o longo prazo, de olho em oportunidades de negócios geradas pela transição energética para uma economia de baixo carbono. A BR é, hoje, uma empresa ainda muito dependente do tradicional segmento de rede de postos e quer aumentar a presença em outras áreas, como a comercialização de energia elétrica, gás natural e etanol.
O UBS enxerga que a distribuidora tem, como potenciais caminhos de expansão, as áreas de comercialização de energia; gás natural; além de parcerias nas refinarias que serão privatizadas – para operar ativos logísticos, por exemplo. “A BR já é o maior fornecedor de combustíveis líquidos para clientes B2B [corporativos] e pode alavancar isso em uma transição energética”, escreveu Carvalho.
O UBS também vê oportunidades para a BR no atual cenário de crise hídrica, já que a empresa é uma grande fornecedora de combustíveis para térmicas. “É cedo para dizer, mas se a situação hidrológica não melhorar e a dependência de termelétricas permanecer em 2022, estimamos um aumento potencial adicional de cerca de R$ 80 milhões por trimestre no Ebitda”, cita o relatório do UBS.