Nova Cana
A safra 2020/21 de etanol deve finalizar com produção de 33,5 bilhões de litros (31 bilhões de etanol de cana e 2,5 bilhões de etanol de milho), mas apontar uma tendência para 2021 é uma incógnita para os especialistas.
‘Há uma recuperação no consumo interno de etanol, mas também inúmeros fatores que vão influenciar a recuperação da demanda: vacina para o coronavírus, preço internacional do petróleo e vendas de automóveis novos’, resumiu o diretor da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio Rodrigues de Pádua. ‘A volta da mobilidade urbana depende de tudo isso’.
Para entender o que colocou o setor nesse círculo de incertezas, é preciso voltar ao início do ano, quando boas notícias pipocavam: em 2019, o etanol substituiu 48% da gasolina; e o RenovaBio prometia abrir o mercado para a comercialização de créditos de descarbonização (CBios).
‘O setor estava otimista e ampliando a oferta de produtos até que o cenário começou a mudar com a queda no preço do petróleo no mercado internacional’, destacou. Em fevereiro, o embate entre a Rússia e a Arábia Saudita fez com que os preços do petróleo se descolassem dos fundamentos de mercado, criando uma ‘tempestade’.
Pádua observa que houve um recuo de mais de 50% na cotação internacional do petróleo, redução no preço da gasolina e queda de 40% no preço do etanol, para patamares abaixo do custo de produção. Em função da pandemia, o setor iniciou a safra 2020/21 sem preço nem demanda.
‘A queda foi de 38% nas vendas de etanol hidratado e 19% nas vendas de anidro. As usinas migraram para a produção de açúcar, mas as destilarias, que são um terço das empresas do setor, não conseguiram reverter’, relembra.
Segundo Pádua, nos meses seguintes os efeitos negativos foram amenizados com a valorização do dólar frente ao real e repasses, pela Petrobras, das altas na cotação do petróleo no mercado internacional. Mas outro obstáculo, o isolamento social imposto pela pandemia, faria com que a demanda por etanol caísse. ‘Houve o aumento da demanda por álcool para outros fins e etanol hidratado para a produção de sanitizantes’, ponderou.
‘A expectativa é que os preços do etanol continuem subindo, apesar de a gasolina permanecer estável, com o petróleo andando de lado’, apontou o analista Fábio Meneghin, da Agroconsult.
Segundo ele, os motivos para o otimismo vêm da recuperação da demanda mês a mês e a aproximação do fim da safra. ‘A projeção é que o etanol perca um pouco de participação de mercado, embora continue competitivo em relação à gasolina, principalmente em Minas Gerais e São Paulo’, afirmou. ‘Daqui em diante, a entressafra tornará a oferta cada vez mais escassa e reduzirá a competitividade’.
Para a safra 2021/22, a expectativa é que o etanol volte a ganhar mais participação no mix de produção, graças ao aumento da demanda, apesar do açúcar indicar maior rentabilidade. ‘Projeta-se um aumento de 10% no consumo total de etanol’, afirma.
Ele ainda acredita que, com uma concentração de açúcar total recuperável (ATR) na cana um pouco abaixo em relação à atual safra, a oferta de etanol de cana deve crescer 2,6%, para 31 bilhões de litros, enquanto a produção de etanol de milho deve aumentar 23%. Ao todo, a produção estimada para o ano que vem é de 34,3 bilhões de litros e consumo de 34,8 bilhões de litros.
‘Os preços tendem a ser mais firmes em 2021’, apontou Meneghin, lembrando que, em 2021, o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) sobre o etanol hidratado em São Paulo subirá de 12% para 13,5%.