Petróleo fica no limite entre interesse dos EUA e pressão da Opep

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Fonte: Valor Online

Após passar a maior parte de 2018 em níveis bons para a maior parte do setor, o petróleo encerra o ano sob pressão. As cotações das duas principais referências do mercado – Brent e WTI – estão perto do limite de custos para a extração do petróleo de xisto, principal promessa para a indústria americana, estimado em torno de US$ 50 o barril. Um nada discreto cabo de guerra no setor coloca de um lado a velha conhecida Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) com ainda muito poder sobre a precificação da commodity, e na outra ponta a novata e crescente produção de xisto dos Estados Unidos que ganha força como formadora de preço.

O barril chegou a atingir a máxima em quatro anos no início de outubro, em meio a reações de Arábia Saudita e Rússia sobre a manutenção da oferta e pressão do governo Trump sobre as exportações do Irã. A escalada, no entanto, durou pouco, e desde então a desvalorização chega aos 33%.

“A exigência dos EUA por um embargo ao Irã e o receio de redução da oferta forçaram os preços do petróleo a ultrapassar os US$ 80 por barril. Mas o rali foi de curta duração. A desaceleração dos mercados emergentes e um abrandamento inesperado da posição dos EUA contra o Irã provocaram uma rápida reversão do humor do mercado de alta para baixa, empurrando os preços abaixo de US$ 60 por barril em semanas", explica o banco Julius Baer em relatório.

Desde então, a cotação do petróleo vem caindo. Chegou a atingir, na véspera do Natal, o menor patamar desde setembro de 2017. Em Londres, o contrato do Brent para março caiu 6,16% no dia 24, cotado a US$ 50,77. O WTI para fevereiro fechou a segunda-feira, em Nova York, a US$ 42,53, com perda de 6,71%. As cotações oscilaram nos últimos dois dias. Com o barril do Brent fechado ontem a US$ 52,73, a referência mundial acumula queda de 20,64% no ano. O WTI terminou cotado a US$ 44,90 ontem, perda de 25,71% no ano.

Para as casas de análise, o preço em que o barril de petróleo fecha o ano está bem mais próximo do patamar real do que os níveis atingidos há três meses. As projeções, no entanto, oscilam bastante. Renata Lofti, diretora da S&P Global, avalia que o barril do Brent deva ficar entre US$ 55 e US$ 65 no ano que vem. "Sempre projetamos preço na casa de US$ 65 a US$ 60 o barril. O movimento de queda teve peso de demanda na China e o cumprimento das cotas por Opep e Rússia e esse é um fator de oferta chave para o preço do petróleo."

A analista da agência de classificação de risco diz que o barril de petróleo tem um patamar mínimo que está atrelado à produção americana. O ponto de equilíbrio - preço mínimo para compensar os custos - do petróleo de xisto americano é de US$ 55 o barril. Abaixo disso, a produção é menos viável. "Vemos o 'shale' [petróleo de xisto] como o próximo produtor marginal de petróleo. Atualmente, o maior crescimento de oferta vem dos Estados Unidos e a maior de demanda vem da China e Índia. Na outra ponta, o mecanismo de cotas da Opep deve se manter", acrescenta, projetando que o cartel não deve alterar os níveis de produção para o próximo ano.

Para Walter de Vitto, analista da Tendências Consultoria, os preços não chegam ao patamar de outubro, mas devem subir. "Estamos em um momento de muita incerteza no mercado de petróleo, ainda trabalhamos com expectativa de que fiquem em patamar um pouco mais alto do que vemos hoje, entre US$ 70 a US$ 75 o barril ao longo do próximo ano", projeta.

Preços acima do ponto de equilíbrio de US$ 35 do pré-sal mantêm a atratividade nos próximos leilões da ANP

A leitura do analista da Tendências é de que a queda recente dos preços foi motivada mais pelo aumento da aversão ao risco internacional do que por motivos referentes ao setor de petróleo em si. "Não enxergamos cenário de ruptura da economia, existem questões que podem levar a preços menores, mas não de forma extrema. Opep e Rússia continuarão reduzindo produção, há problemas geopolíticos na Venezuela, Irã e Líbia que também ajudam a confirmar cenário de alta de preços."

A agência Moody's também projeta o barril num patamar mais baixo no ano que vem, entre US$ 55 e US$ 60. "Os preços se estabilizarão entre US$ 50 e US$ 70 até 2020, com volatilidade", aponta relatório da instituição.

O Julius Baer projeta o Brent entre US$ 60 e US$ 65 e não vê impacto da política nos preços no médio prazo. "Embora esse ruído domine as manchetes, a política do petróleo é menos relevante para o preço do petróleo no longo prazo. Os últimos meses mostraram a faixa de preços do petróleo fundamentalmente justificada", aponta o relatório.

Para o mercado brasileiro, uma maior estabilidade dos preços do petróleo é atraente também para as intenções do próximo governo, e para os interessados em competir com a Petrobras tanto na exploração quanto no refino.

"Ninguém sabe qual será a política do governo Bolsonaro para o setor de óleo e gás, tivemos uma perspectiva com a indicação do presidente da Petrobras [Roberto Castello Branco] que é bem alinhado com a política atual. Não esperamos que mude muito daquele conceito de paridade com a importação", diz Vitto, da Tendências.

Para a exploração, preços mais estáveis, e acima do ponto de equilíbrio de US$ 35 do pré-sal, devem manter a atratividade nos próximos leilões de blocos de exploração. Além disso, a produtividade desses campos se mostrou maior que o esperado, melhorando ainda mais o componente de custo.

A intenção de abrir a competição no segmento de refino, indicada pelo governo Bolsonaro, também fica mais atrativa nesse cenário, mas permanece ainda dependente da manutenção da política de preços de combustíveis. "O alinhamento com o mercado internacional é importante para a companhia e os sinais do novo governo são de manutenção", afirma Renata, da S&P Global.

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