Fonte: O Globo
O megaleilão de áreas de petróleo no pré-sal, realizado ontem no Rio, arrecadou R$ 70 bilhões, um recorde no país e o maior montante já arrecadado num certame do gênero no mundo. No entanto, o resultado ficou abaixo das expectativas de levantar R$ 106,5 bilhões em bônus fixos de assinatura com a venda dos quatro blocos ofertados. A Petrobras arrematou dois blocos, em lances sem disputa, de áreas que ela já tinha informado que exerceria o direito de preferência. Não houve interessados nos dois blocos restantes. Ainda assim, o governo comemorou o resultado, que vai ajudar a fechar as contas públicas este ano, mas já fala em levar adiante uma revisão da legislação atual do pré-sal, que pode levar à troca do regime de partilha pelo de concessão. Um projeto nessa sentido tramita no Senado.
A Petrobras ficou com o bloco de Itapu, pelo qual vai pagar R$ 1,7 bilhão, e liderou com fatia de 90% o consórcio que arrematou Búzios, o mais atraente, por R$ 68,2 bilhões. Ali, a estatal tem como sócias as estatais chinesas CNODC e CNOOC, mas cada uma ficou com apenas 5%.
Neste modelo de leilão, no regime de partilha, o valor do bô nu sé fixo. Ovenced oré quem compartilha coma União o percentual mais alto de seu lucro em petróleo. Sem competição, não houve ágio, ou seja, foi oferecido apenas o percentual mínimo.
INDENIZAÇÃO ASSUSTA
Como a arrecadação ficou abaixo das expectativas, será reduzido à metade o montante que a União dividirá com estados e municípios. Mesmo assim, do ponto de vista da arrecadação, o certame rendeu mais do que o somatório de todos os leilões de petróleo já realizados no país, de R$ 60,4 bilhões.
O fato de a Petrobras já atuar nas áreas leiloadas foi um dos fatores que afastaram as petroleiras estrangeiras. Isso porque o edital determinava que os vencedores dos blocos teriam que negociar coma estatal indenizações pelos investimentos já realizados, como a perfuração de poços. Segundo fontes a par de conversas entre empresas e a Petrobras, a estatal deu sinais de que exigiria compensações elevadas.
— Vinha todo mundo animado. Mas as discussões começaram a travar há uma semana e meia, devido a exigências de indenizações da Petrobras —disse um advogado que tem três grandes petroleiras estrangeiras entre os clientes.
Estudos de consultorias apontavam que a compensação poderia ultrapassar os US$ 20 bilhões.
Indagado sobre o assunto, o presidente da Petrobras, Roberto Castel lo Branco, ressaltou a importância da indenização e disseques e trata de um ressarcimento justo.
—Isso inibe as outras um grau de incerteza inevitável—afirmou Décio Oddone, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que também citou ofato de a Petrobras indicar previamente com quais áreas quer ficar, o chamado direito de preferência, como entrave.
Para Magda Chambriard, consultora da FGV Energia e ex-diretora da ANP, o modelo do leilão afugentou petroleiras ao deixar em aberto o valor da compensação à estatal. Ela destaca que, pelo edital, um impasse poderia ser decidido por arbitragem e até pela ANP, em última instância.
O valor dos bônus fixos também teria contribuído para a falta de disputa. Algumas petroleiras consideram as cifras altas demais.
— Tomamos a decisão de não participar. Foi uma decisão de negócios. Entendemos que estamos numa posição positiva com os blocos que temos (no Brasil). Temos uma postura focada em disciplina de investimento. Decidimos não participar —disse André Araujo, presidente da Shell no Brasil.
BOLSONARO COMEMORA
Integrantes do Tribunal de Contas da União (TCU), que participaram da avaliação do edital, disseram, reservadamente, que o órgão havia alertado o governo sobre o alto val ordos bônus eque are grade compensação à Petrobras poderia afastar participantes.
Apesar de protestos de representantes de petroleiros na frente do hotel da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, onde foi realizado o leilão, o certame transcorreu sem incidentes. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, cogitaram ir ao evento, mas desistiram na última hora. À noite, ao ingressar no Alvorada, em Brasília, Bolsonaro comemorou:
—Tinha quatro áreas, foram vendidas duas. Foi um sucesso. Zero( frustração ). O campo mais importante foi vendido. Dinheiro é bem-vindo.
No leilão, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que Sépia e Atapu poderão ira leilão novamente em 2020.
A ANP realiza hoje a 6ª Rodada do Pré-sal, que oferece cinco áreas com bônus de assinatura que somam R$ 7 bilhões no regime de partilha. O ministro disse que, dependendo do resultado, o governo pode rever o modelo dos leilões:
— (Hoje) será realizado novo leilão no pré-sal, no regime de partilha. Teremos que aguardar e, depois, podemos ter um cenário e rever a metodologia e parâmetros para o sucesso dos próximos leilões.
‘Não haverá um dólar a mais de dívida’, diz Castello Branco
Protagonista do leilão do excedente da cessão onerosa, a Petrobras vai ter que desembolsar até o fim do ano R$ 28,4 bilhões em recursos próprios pelas áreas de Búzios e Itapu, ambas no pré-sal da Bacia de Santos, que arrematou no megaleilão de ontem.
Ao todo, os gastos da estatal no leilão foram de R$ 63 bilhões, quase 90% da arrecadação total do certame. Nem todo esse valor sairá do caixa da estatal, pois ela tem R$ 34,6 bilhões a receber da União referentes ao acordo de revisão do contrato da cessão onerosa, que viabilizou o megaleilão.
Apesar de analistas mostrarem dúvidas sobre um possível aumento no nível de endividamento da estatal, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, disse que as duas áreas arrematadas não vão elevara dívida da companhia:
— Sem dúvida nenhuma, a aquisição do campo de Búzios requer um substancial volume de recursos, mas estamos preparados financeiramente para isso. Mesmo com este investimento, a Petrobras não acabará o ano com elevação de dívida, não haverá um dólar de aumento de dívida e continuaremos a executar nossa estratégia, que inclui a gestão ativa de portfólio, a disciplina na locação de capital.
Em comunicado, a estatal corroborou as declarações do executivo. O texto diz que “a necessidade adicional de recursos não altera o patamar da dívida da companhia, em 30 de setembro de 2019, e será suportada pela atual disponibilidade de caixa e pela geração de caixa no quarto trimestre”.
Castello Branco destacou que a estatal vai continuar coma venda de ativos. Ele disse também que a aquisição da área de Búzios vai garantir à Petrobras o seu futuro como petroleira de nível mundial:
— Depois de anos sem leilões de petróleo e do desmonte que sofreu no passado, a Petrobras foi obrigada a reduzir dramaticamente seus investimentos em exploração. E agora a aquisição do campo de Búzios proporciona o futuro para a Petrobras como companhia de petróleo.
VENDA DE ATIVOS ACELERA
Hoje, ocorre no Rio outro leilão, o da 6ª Rodada do Pré-sal, também pelo regime de partilha. Das cinco áreas ofertadas no pré-sal das bacias de Santos e Campos, a Petrobras manifestou interesse em três, que somam um bônus total de R$ 6,15 bilhões. Dependendo da formação dos consórcios, a estatal poderá ter um novo gasto bilionário.
Castello Branco, no entanto, diz que, mesmo com o leilão, a empresa vai manter sua meta de desalavancagem para 2020, que é de 2,5 vezes a relação entre a dívida líquida e ageração de caixa operacional( medida pelo Ebitda).
Para analistas, contudo, a companhia terá maior pressão em seu balanço evai ter de acelerara venda de ativos, como refinarias e subsidiárias, para gerar mais caixa.
— A conta que os analistas vão fazer é se ela vai precisar aumentara dívida ou não. As ações passaram a subir apos as declarações do presidente. O mercado está indo na dele, mas é uma conta que precisa ser feita — diz Raphael Figueredo, da Eleven Financial.
Marcelo de Assis, chefe de Upstream para América Latina da consultoria britânica Wood Mackenzie, avalia que, comores ulta dodo leilão, a Petrobras terá que pagarem torno de US $7 bilhões amais acurto prazo:
—A expectativa agora é que a Petrobras se concentre em eficiência operacional e no programa de desinvestimentos. Mas o lado positivo é que Búzios e Itapu são ativos bastante atrativo sede alta qualidade.Comisso, a estatal reforça a sua presença no pré-sal.
Para Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos, o pagamento do bônus de assinatura do megaleilão deve ser absorvido pelo caixa que a empresa fez com as vendas recentes. Ainda assim, espera um leve aumento na relação entre dívida líquida e geração de caixa no curto prazo. E para o médio elongo prazo, ele vê como maior risco a questão de preço do petróleo no mercado internacional.
—O foco na Petrobras passa a sera venda de ativos. O mercado vai se questionar se ela vai conseguir vender tudo. E ver como vai executar esse plano o mais rápido possível e conseguir interessados —diz Luis Sales, analista da Guide Investimentos.
“LIGEIRAMENTE NEGATIVO”
Em relatório, analistas da XP Investimentos afirmaram que o resultado é “ligeiramente negativo” para a Petrobras devido à pequena participação de outras empresas no consórcio vencedor de Búzios. “Apesar da qualidade dos ativos do leilão da cessão onerosa, a predominância da empresa nas ofertas sinalizou um desvio pontual na estratégia atual de redução do endividamento”, diz o texto. Para a XP, a dívida líquida pode ter aumento de 29%, dos atuais R$ 214,8 bilhões para R$ 243,8 bilhões.
— A Petrobras tem compromisso de execução, o que força o caixa e o plano de desinvestimento da companhia — opinou Marcos Ganut, diretor de Infraestrutura da Alvarez & Marsal.
Os diferentes pontos de vista fizeram das ações da Petrobras os papéis mais negociados na Bolsa ontem, com forte volatilidade. As ordinárias (ON, com direito a voto) fecharam em queda de 0,43% (R$32,41) e as preferencias encerraram e malta de 0,20%, a R $29,71. Castello Branco minimizou a reação da Bolsa, afirmando que as oscilações de curto prazo fazem parte do mercado:
—Não me cabe e é difícil explicar movimentos do mercado no curtíssimo prazo. As ações fazem tipicamente uma caminhada aleatória. Não sei por que uns quiseram especular. A ação abriu em alta, depois caiu. Vamos ver, poiso que importa é a tendência. Nós estamos trabalhando para agregar valor para nosso acionista.