Por que as gigantes do petróleo Shell, BP, Chevron, Exxon ou Total nunca investiram em refino no Brasil?

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Fonte: epbr

Por Marcelo Gauto

Por que as gigantes do petróleo, Shell, BP, Chevron, Exxon ou Total nunca investiram em refino no Brasil? Porque não podiam ou porque não valia a pena. Tentarei explicar em mais detalhes este assunto, já que muita gente questiona-se a respeito disso. As gigantes multinacionais do petróleo possuem refinarias por diversas partes do mundo, exceto no Brasil.

Uma série de fatores, historicamente, tornou nosso mercado de refino pouco atrativo: a presença de uma gigante estatal, a interferência do governo no preço dos combustíveis e a menor rentabilidade do refino em relação ao E&P são os principais motivadores para o escasso investimento privado na cadeia de refino brasileira.

Com o passar dos anos, a Petrobras ficou com a responsabilidade de construir novas refinarias no país, conforme o consumo por combustíveis aumentasse. E assim o fez. A estatal montou um complexo esquema logístico país afora para atender a demanda em um país continental. Quando o monopólio legal foi quebrado em 1997, 44 anos depois de ser instituído, o resultado era o seguinte: a empresa detinha 11 refinarias (98% da capacidade instalada de refino), dezenas de navios, terminais marítimos e terrestres, milhares de quilômetros de dutos, entre outros ativos logísticos.

A Petrobras tornou-se uma gigante da área de óleo e gás, que cresceu apoiada nas atividades de refino e distribuição. Como ingressar hoje no refino de petróleo, se a estatal é proprietária de praticamente toda a infraestrutura envolvida nas atividades? Como concorrer com uma gigante, que possui mercado cativo há décadas? Ainda que por lei não haja mais tal impedimento, é muito difícil entrar em um mercado dominado por um quase-monopólio.

A interferência do governo nos preços dos combustíveis
Vimos que de 1954 a 1997, somente a Petrobras podia construir refinarias no país. Com a reabertura do mercado de petróleo no Brasil em 1997, porém, esperava-se que novos investimentos privados fossem feitos no setor e, de fato, em pouco tempo, ocorreram alguns movimentos de mercado que reforçavam as expectativas inicialmente imaginadas.
O grupo Repsol YPF, por exemplo, adquiriu parte do controle da refinaria de Manguinhos. Mais tarde, adquiriu 30% de uma das refinarias da Petrobras, no Rio Grande do Sul. Além disso, as refinarias de Manguinhos e Ipiranga propuseram à ANP planos de ampliação das suas unidades. Duas novas refinarias privadas surgiram, a Univen (SP) e a Dax Oil (BA).
A reestruturação do setor e a livre concorrência pareciam estar de fato surtindo o efeito planejado com o fim do monopólio e seria uma questão de tempo para atrair as gigantes multinacionais para o setor. Porém, os anos seguintes mostraram que as dificuldades para as refinarias privadas no país seguiram imensas, sendo a interferência do governo nos preços dos combustíveis um dos principais motivos de tais dificuldades. Para mais detalhes, sugiro que você leia o texto Os desafios do refino privado de petróleo no Brasil.
O controle de preços é um subterfúgio muito comum em épocas de crises econômicas e o Brasil já experimentou isso muitas vezes ao longo da sua história. Os preços dos combustíveis foram tabelados e perduraram durante o monopólio da Petrobras à frente do refino.
Quando o mercado brasileiro de óleo e gás foi reaberto às práticas de livre concorrência e de flutuação de preços, o barril de petróleo custava próximo de 20 dólares. Com o óleo relativamente barato, a política de preços livres funcionou bem e assim permaneceu até meados de 2003. Uma impressionante escalada nos preços internacionais da commodity (Figura 1) nos anos seguintes pressionaram a economia brasileira, de tal forma que em 2008 a cotação do barril de petróleo alcançava inimagináveis 100 dólares. Um prato cheio para o governo interferir no setor. As Figuras 2 e 3 demonstram as cotações do GLP e da gasolina, respectivamente, para ilustrar a defasagem de preços registrados a partir do final de 2003.

Os preços dos derivados artificialmente mantidos abaixo das cotações de referência ocorreram por interferência do governo federal na Petrobras. Como sócio majoritário da empresa, o governo não autorizava os reajustes de preços. Diferentemente do passado, não houve tabelamento de preços, a estatal é que fora usada para manter os preços estáveis, com enorme prejuízo ao caixa da companhia. Com a Petrobras subsidiando preços, nenhum grande refinador privado entraria no mercado para perder dinheiro. Além disso, os poucos refinadores privados existentes foram a bancarrota.
Rentabilidade do refino versus E&P
Quando uma empresa de petróleo vai fazer investimentos, o dinheiro pode ser alocado em diferentes projetos com rentabilidades muito distintas. Atividades de maior risco costumam oferecer maior lucro. É exatamente por envolver maior risco e custo, que a atividade de exploração e produção de petróleo (E&P) oferece o maior retorno, quando comparado ao refino.
No segmento de E&P você muitas vezes perfura um poço, que custa milhões de dólares e ele se mostra seco ou subcomercial, mas ali adiante pode haver uma reserva que renderá centenas de milhões de dólares. No refino, uma vez que se conheça a demanda por derivados, o risco é baixo, bem como o lucro. A produção de petróleo costuma ter margens de dezenas de dólares por barril produzido, enquanto no refino o lucro médio costuma ser de algumas dólares, quando não é negativo. Uma análise sobre o balanço da Petrobrás de 2007 a 2017 demonstra bem isso (Figura 4).

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