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Valor Econômico
Por Nizan Guanaes

O sucesso pode ser maravilhoso e terrível. Você compete duramente com os seus concorrentes e, o que é pior, compete com você mesmo. A cada ano, ou trimestre, tem que se superar

Ser executivo-chefe (CEO) ou estar no C level é uma pressão que não é mole não. Resultados a cada trimestre submetidos à Faria Lima, juros altos, um país cheio de leis e impostos confusos, com problemas históricos de insegurança jurídica. Não é para fracos.
No século 20, levava um século para as coisas acontecerem. Hoje não tem mais século, tem ciclo. No ano passado só se falava em metaverso em Davos, agora é a inteligência artificial.
Neste ano, quando fiz o meu check-up com a Dra Ludhmila Hajjar, perguntei a ela por que, além do corpo, não se fazia check-up da mente: O senhor agora vai responder às perguntas desta máquina para entendermos a sua saúde mental. O senhor dorme? Quantas horas de sono? Que remédios para dormir você toma? Tem depressão? Irritação? Ansiedade? Como está seu humor? Pratica esporte?
Constantemente, vemos pessoas bonitas, saudáveis e bem-sucedidas em sua vida profissional pularem da janela. A professora Carla Di Pierro usa o treinamento de força mental para atletas em CEOs, com grande sucesso. O psiquiatra Arthur Guerra é médico de muitos CEOs, a quem ajuda a aguentar a pressão da Bolsa, dos acionistas, da matriz, da concorrência e da imprensa.
Você, que está lendo este jornal, é CEO, é acionista, é executivo de sucesso. E o sucesso pode ser maravilhoso e terrível. Você compete duramente com os seus concorrentes e, o que é pior, compete com você mesmo. A cada ano, ou trimestre, tem que se superar.
Certa vez fui falar num evento mundial da Microsoft em Seattle. Lá estavam Bill Gates, Warren Buffet, Jeff Bezos, Reed Hastings (Netflix), o PIB mundial. Quando fui às 5 da manhã à academia do hotel, o PIB mundial estava treinando. E, no almoço, o PIB mundial estava cuidando de comer de maneira saudável. Porque saúde mental não é só não ter doença. É ter saúde. É viver o hoje, ter foco, controle da ansiedade e do stress.
O sucesso quase acabou comigo. Eu sempre cito Marcelo Serpa, meu maior concorrente, que tinha uma vantagem competitiva sobre mim: ele surfava, fazia análise, cuidava da cabeça. Eu trabalhava sábado, domingo, fim de semana, não tinha um hobby. Meu hobby era o trabalho. Eu sou do tempo em que era o máximo dizer “trabalho 14 horas por dia, não tiro férias”.
Só que isso era possível, se é que era possível, num mundo estático, no qual tudo era binário. Nada acontecia ou acontecia devagar.
Mas num mundo “Vuca” – sigla em inglês para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade – às vezes, uma semana é um século. Não há cabeça que aguente ser cobrado a cada trimestre. É por isso que, no auge do sucesso, o sujeito larga tudo. Ou se larga no peso, no cigarro, na bebida, no Stilnox.
Como já enfrentei desafios de saúde mental, eu sei ler gente pelo olho, pelas unhas, pela pele, pelos dentes, pelo comportamento. É quase um currículo corporal. Teve uma época na minha vida em que eu tomava tanto remédio para dormir que certa vez eu liguei para um famoso colunista e perguntei: “Quem contou essa informação sobre mim para você?” E ele respondeu: “Você.” E a informação não era boa!
Clayton Christensen, um dos maiores professores de administração de Harvard, escreveu um livro fundamental sobre a gestão de si mesmo – “Como Avaliar Sua Vida? Em Busca do Sucesso Pessoal e Profissional”. Ele teve a ideia do livro porque, a cada reunião da turma, via como ex-colegas poderosos eram infelizes, com vidas desestruturadas. Porque eles eram craques em gerir empresas, mas não a vida.
Não dá para chamar a McKinsey para mudar os processos de sua vida. Melhor chamar Arthur Guerra, Carla Di Pierro ou Eduardo Rocha, o treinador que criou a clínica Movimente, onde ele cuida do corpo e da mente usando corrida, natação e até o xadrez.
Setembro Amarelo é o mês da campanha de prevenção ao suicídio, esse tema tabu na nossa sociedade. Suicídio não é só se jogar da janela. É se matar de trabalhar, de comer, de beber, de estresse, de remédio para dormir.
Ser um grande CEO é um “mind game”. Você tem uma mente privilegiada. Cuide dela para que ela continue dando foco, discernimento e bons conselhos.
E fica a pergunta: Você aguenta ser CEO?

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