Alvos da PF sabiam antes de fiscalizações em postos

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Em conversas reveladas pelo ‘Fantástico; quadrilha investigada por lavar dinheiro para o PCC antecipava ações contra adulteração de combustível: “Pistola na cintura e diesel, pai!’ diz um dos suspeitos em diálogo interceptado

 Jornal O Globo 

Mensagens de texto interceptadas pela Polícia Federal (PF) mostram que integrantes do grupo criminoso desarticulado na operação Tank, deflagrada na última quinta-feira para asfixiar uma das maiores estruturas de lavagem de dinheiro com fraudes em combustíveis já identificadas no Paraná, sabiam com antecedência ações de fiscalização em postos. Nas conversas divulgadas ontem pelo “Fantástico”, da TV Globo, a quadrilha ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) reclama das movimentações dos agentes e fala até no uso de armas de fogo caso houvesse problemas. Ao todo, seis pessoas foram presas na ação, entre eles o empresários Rafael Renard Gineste, encontrado pelos policiais escondido em uma lancha de luxo ancorada em Bombinhas (SC).

“A gente pensou que ia ser uma equipe só, mas acho que vão ser duas, porque tinha oito caras. Já tudo parado, né? Que a gente sabia que ia começar”, diz a mensagem de um dos comparsas para Thiago Augusto de Carvalho Ramos, também preso na quinta-feira, que responde: “Pistola na cintura e diesel, pai! A imagem do posteiro é essa aí, ó”.

O esquema começava no Porto de Paranaguá, usado para importar clandestinamente produtos químicos como metanol e nafta, que deveriam abastecer indústrias químicas mas acabavam desviados para adulterar gasolina. O grupo é suspeito de comprar pelo menos cinco usinas de etanol no interior de São Paulo, que, além produzir combustível, serviam para lavar dinheiro, pagando até 43% acima da média pela cana-de-açúcar. Eles contavam ainda com distribuidoras próprias, como a Duvale, em Jardinópolis (SP).

A empresa G8Log, ligada a Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, usava caminhões para levar combustível adulterado até os postos. Mourad foi descrito como o “epicentro das operações”. As investigações apontam que ele utilizava empresas do setor para fraudes fiscais, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. Ainda como mostrou o “Fantástico”, Primo teria formado uma rede criminosa com parentes, sócios e profissionais cooptados. Em postagem nas redes sociais, ele disse acreditar ‘na potência do trabalho, da disciplina e do comprometimento” para atingir “resultados sólidos”.

MISTURAS ILEGAIS

A rede criminosa expandiu-se para cerca de 1,2 mil postos de combustíveis em várias cidades brasileiras. Neles, fiscais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) identificaram misturas ilegais de metanol na gasolina, chegando a quase 50% em alguns casos, e até 90% no etanol, como mostrou o programa jornalístico dominical.

Fintechs eram usadas para dificultar o rastreamento da origem e do destino do dinheiro. A principal delas, a BK Instituição de Pagamento, com sede em Barueri (SP), movimentou R$ 46 bilhões em cinco anos por meio de contas chamadas “bolsão”. As fintechs, então, transferiam os recursos a fundos de investimento que compravam fazendas, participações em empresas e bens de luxo que, na prática, pertenciam aos chefes do PCC.

Segundo a Receita Federal, pelo menos 40 fundos de investimentos, com patrimônio de R$ 30 bilhões, eram controlados pela organização criminosa. O dinheiro dos postos chegava à Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo. Os investigadores cumpriram mandados de busca e apreensão em cinco prédios da avenida.

MEGA OPERAÇÃO

A ação da última quinta-feira mobilizou mais de 1.400 agentes em oito estados, mirou 350 alvos de busca e apreensão e prendeu seis investigados. Os números representam a soma de três operações disparadas simultaneamente: a Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Receita Estadual; e a Quasar e a Tank, realizadas por uma força-tarefa da PF com a Receita Federal.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, classificou a megaoperação como “uma das maiores da história contra o crime organizado”.

– Há muito tempo temos acompanhado um fenômeno que é a migração do crime organizado da ilegalidade para a legalidade. Não é só um fenômeno brasileiro, mas mundial, e tem se intensificado – disse o ministro.

Em entrevista no Ministério da Justiça, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que não considera “normal” o elevado número de fugitivos. A “hipótese” de vazamento será investigada pela PF.

– De fato merece atenção que há 14 mandados de prisão, e só seis foram encontrados. Não é uma estatística normal das operações da PF, portanto, com o retorno das equipes que vão às residências, e precisam relatar o que foi encontrado, vamos ter mais elementos para inferir que possa ter havido vazamento. Nessa hipótese, nós vamos fazer investigação para apurar se houve (vazamento) – disse Rodrigues.

Alto padrão. Rafael Renard Gineste foi preso pela PF escondido numa lancha de luxo em Bombinhas, no litoral catarinense

Correção

> O GLOBO errou ao publicar ontem que Dario Tanure, sócio da Reag Investimentos, investigada por suposta ligação com o PCC, é filho do empresário Nelson Tanure. Não há qualquer grau de parentesco entre os dois.

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