Crime organizado vende combustível para lavar dinheiro no Brasil 

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Bloomberg

Parecia apenas mais um posto de gasolina como milhares espalhados pelo Brasil. Mas este posto da marca Shell, nos arredores de São Paulo, vendia gasolina R$ 0,10 mais barata por litro do que os concorrentes da mesma rua. Enquanto dirigia para o trabalho, uma advogada chamada Julia não pensou duas vezes antes de abastecer seu Ford Bronco vermelho. E, então, ela rapidamente se tornou uma cliente regular.

“Nunca entendi como eles conseguiam vender o mesmo produto por um preço tão menor, mas meu carro não apresentou problemas”, disse Julia. “Faz uma diferença enorme.”

Postos como este estão agora sob o holofote depois que a Polícia Federal e o Ministério Público lançaram uma operação policial em 8 estados em 28 de agosto, na tentativa de desmantelar esquemas sofisticados de crime organizado que usavam a distribuição de combustível em conjunto com gestoras de recursos e plataformas de fintech para lavar pelo menos R$ 52 bilhões de reais em lucros ilícitos. A principal investigação, chamada de Carbono Oculto, abrange desde postos de gasolina comuns a refinarias complexas, chegando às torres de vidro da Faria Lima. Um dos supostos líderes do esquema está foragido, avaliam as autoridades.

Os promotores afirmam que os criminosos têm ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que se infiltrou em redes de distribuição de combustível onde motoristas desavisados abastecem os seus veículos a preços reduzidos por meio de sonegação fiscal.

Em um padrão suspeito que especialistas do setor descrevem como típico do modus operandi criminoso, a varejista de combustíveis baratos em São Paulo, que operava independentemente da Shell mas tinha licença para usar a marca, trocou recentemente o icônico logotipo em formato de concha da petrolífera por uma marca obscura, na qual Julia não confiava.

“Agora vou a outro postoShell, mesmo pagando mais”, disse Julia, que pediu para não revelar seu sobrenome por medo de represálias das quadrilhas que podem estar abastecendo o posto. Um promotor envolvido no caso não pôde confirmar se o posto está envolvido.

Um número de telefone do posto listado online não estava funcionando quando a Bloomberg tentou ligar na segunda-feira. A Shell, uma das maiores produtoras de petróleo do Brasil, e sua parceira local Raízen não quiseram comentar.

A indústria de combustíveis brasileira pressiona o governo há anos para que medidas sejam tomadas sobre o assunto. O crime organizado se tornou um “empreendedor”, disse Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), um grupo do setor dedicado à defesa da distribuição legal de combustíveis, em uma entrevista. “O instituto fecha duas portas para a ilegalidade e eles conseguem abrir três. O crime tem distribuidoras, transportadoras, fintechs e agrega valor a cada um dos elos.”

As quadrilhas frequentemente têm como alvo postos em dificuldade, onde os legítimos proprietários são forçados a sair sem indenização e, às vezes, submetidos a ameaças de morte. Os criminosos “geralmente adquirem postos de gasolina de pequenas redes que estão enfrentando alguns problemas financeiros e, do nada, reduzem os preços”, disse James Thorp Neto, presidente da associação dos revendedores de combustíveis, em uma entrevista. O grupo estima que 11% dos 45.000 postos do Brasil estejam comprometidos pelo crime.

Grandes marcas também foram afetadas, mesmo que apenas nominalmente. “Estamos trabalhando com essas empresas para remover esses postos de gasolina da lista, mas é difícil identificá-los”, disse Thorp. “Eles geralmente operam com margem zero por um tempo para forçar outros postos a fechar ou vender suas operações.” Quando petrolíferas estabelecidas suspeitam dessa infiltração, elas revogam suas licenças.

combustível às vezes é adulterado para inflar os lucros. O crime se estende à indústria de biocombustíveis do Brasil, de acordo com a investigação, que constatou que proprietários de usinas de açúcar e álcool e agricultores foram obrigados a vender suas propriedades para o PCC.

O fenômeno vem pressionando distribuidoras legítimas de combustíveis em um setor conhecido por margens de lucro extremamente baixas. Portanto, não foi surpresa que as ações dos principais nomes desse mercado, como a Ipiranga, uma unidade da Ultrapar, a Vibra Energia e a Raízen, tenham se recuperado após a operação policial.

“Ninguém consegue competir quando um concorrente tem uma margem 10 vezes maior que a sua. Às vezes, a vantagem chega a R$ 0,60 centavos por litro”, disse o vice-presidente da Ipiranga, Guido Rogério Macedo Silveira Filho, em recente conferência do setor sobre a desafios das distribuidoras de combustíveis no Brasil.

Longe dos tanques de combustível, o dinheiro dos criminosos é canalizado para gestoras de ativos e algumas das mais de 1.500 fintechs brasileiras, cujo crescimento nos últimos anos ultrapassou a capacidade do governo de regulá-las.

“Lembraremos que os traficantes costumavam enterrar dinheiro, e esse dinheiro perderia seu valor”, disse Márcia Meng, funcionária da Receita Federal, a repórteres após a operação de 28 de agosto. “Hoje, o dinheiro do crime organizado é depositado em bancos e colocado no mercado de capitais para gerar retorno.”

No principal esquema de lavagem de dinheiro revelado pelos promotores na semana passada, uma rede de fraudadores supostamente liderada por Mohamad Hussein Mourad, CEO da empresa de transportes G8LOG em São Paulo, construiu um labirinto financeiro para ocultar um empreendimento ilegal de combustível e lavar o dinheiro do PCC, de acordo com documentos judiciais analisados pela Bloomberg.

O esquema envolvia toda a cadeia de combustíveis, desde a importação de diesel e usinas de açúcar para etanol até o transporte e distribuição de produtos adulterados em cerca de 1.200 postos de gasolina em todo o Brasil, segundo os documentos.

Não foi possível contatar Mourad para um comentário na segunda-feira. A polícia executou mandados de busca em seu escritório em São Paulo e em outros endereços como parte de uma operação policial mais ampla. A secretaria de Justiça de São Paulo se recusou a comentar o paradeiro de Mourad.

Em julho de 2024, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) revogou as licenças de duas empresas de combustíveis associadas a Mourad, que supostamente tinham ligações com lavagem de dinheiro e sonegação de impostos administradas pelo PCC: a formuladora de combustíveis Copape e a distribuidora Aster Petróleo.

Em uma publicação em sua página do LinkedIn na época, Mourad descreveu o cancelamento das licenças como “nada mais do que uma guerra entre concorrentes”.

Mourad e sua rede de dezenas de associados, testas de ferro e cúmplices supostamente ocultaram suas operações usando empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs, explorando a falta de fiscalização. Esse “ecossistema de lavagem de dinheiro” beneficiou o PCC, afirmam os documentos judiciais.

Os promotores disseram na semana passada que a Rodopetro, unidade de distribuição da refinaria brasileira Refit, havia assumido o lugar da Copape e da Aster para sustentar a atividade de lavagem de dinheiro. A Rodopetro é a maior distribuidora atacadista de gasolina no estado do Rio de Janeiro, epicentro da indústria petrolífera brasileira. A Refit negou qualquer envolvimento em um comunicado.

As transações financeiras ilícitas apresentadas pelos promotores no caso Carbono Oculto foram roteadas por meio de “sistemas contábeis paralelos” administrados por fintechs criminalmente comprometidas, cuja base de clientes era composta principalmente por empresas do setor de combustíveis. Os lucros foram ocultados em fundos de investimento como a Reag Investimentos e a Cia. Brasileira de Serviços Financeiros, que confirmaram em um documento regulatório que mandados de busca foram cumpridos em seus escritórios na semana passada como parte das investigações. As empresas disseram que estão cooperando com a investigação.

Fundos administrados pelo Banco Genial e pela Trustee Distribuidora estão entre os outros alvos, de acordo com documentos obtidos pela Bloomberg. O Banco Genial negou qualquer envolvimento. A Trustee afirmou que já havia retirado os fundos implicados na investigação por questões de conformidade e negou qualquer relação com as pessoas envolvidas.

PCC ‘decifra o código’

Os elaborados esquemas de combustível e financiamento destacam a evolução do PCC, de suas origens como uma quadrilha de criminosos e bandidos de São Paulo para um sindicato internacional do crime com cerca de 40.000 membros “batizados”. Com centenas de milhões de dólares arrecadados com o tráfico de drogas, principalmente para a Europa, a organização está rapidamente se diversificando para negócios legítimos a fim de mascarar suas atividades ilícitas.

A polícia brasileira flagrou a organização canalizando dinheiro para imóveis de luxo, linhas de ônibus urbanos, apostas esportivas online e corretoras de criptomoedas. Cartéis de drogas em toda a região frequentemente recorrem a empresas de fachada para limpar seu dinheiro, mas o PCC tem uma verdadeira vocação para os negócios, disse Will Freeman, membro da América Latina do Conselho de Relações Exteriores.

“O PCC decifrou um código sobre como não apenas lavar dinheiro, mas como usar o dinheiro do crime para construir negócios de sucesso”, disse ele.

A organização foi formada após o massacre do Carandiru em 1992, que deixou cerca de 111 detentos mortos. Presos em São Paulo, o estado mais populoso e rico do Brasil, se uniram para se proteger dos abusos das autoridades e instaurar a ordem atrás das grades.

Eles estabeleceram um código de gangues e empregaram métodos macabros, incluindo tortura e decapitações, para eliminar rivais. Em três décadas, o PCC se espalhou para muito além do sistema prisional brasileiro, construindo uma rede internacional de narcóticos que liga produtores sul-americanos a máfias europeias, como a italiana ‘Ndrangheta. O Departamento do Tesouro dos EUA afirma que a organização criminosa está agora entre as “mais poderosas do mundo”.

Como era de se esperar, os políticos brasileiros correram para comemorar a operação. Em uma publicação no X na quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu a operação como a “maior resposta do governo brasileiro ao crime organizado em nossa história até hoje”. Seu potencial rival nas eleições presidenciais do próximo ano, o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, disse em um vídeo publicado no X que “Grupos criminosos estão sendo combatidos como nunca antes, e a mensagem é clara: o crime organizado não terá lugar em São Paulo!”

O Senado Federal programou a votação para esta semana de um projeto de lei que endurece as regras contra sonegadores contumazes, uma medida defendida há muito tempo pelo setor de combustíveis. Se aprovada, a proposta ainda precisará passar pela Câmara dos Deputados.

A Operação Carbono Oculto pode ser a investigação criminal de maior alcance no Brasil desde o escândalo de corrupção da Lava Jato, que envolveu o próprio Lula até sua condenação ser anulada em 2021.

“O Brasil está enfrentando um dos esquemas de infiltração criminosa mais audaciosos da história”, disse Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, um think tank no Rio de Janeiro. “A integração do crime organizado em setores econômicos críticos, como energia e finanças, representa uma perigosa escalada de risco para o Brasil. Ao capturar ativos estratégicos e explorar pontos cegos regulatórios, o PCC e seus aliados não estão apenas drenando receitas públicas, como também minando a confiança no sistema financeiro e na governança.”

As investigações trazem lições para toda a América Latina, acrescentou Muggah. “Estamos vendo grupos do crime organizado se diversificando em mercados legais, explorando a corrupção, instituições frágeis e a opacidade financeira para construir influência econômica e política.”

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