Impacto da guerra no Irã pode não se limitar ao aumento dos preços do petróleo e da inflação, e agências veem o maior choque de oferta da história; tudo depende da duração do bloqueio do estreito de Hormuz
Folha de S. Paulo | Editorial
Países e empresas procuram estimar o risco de escassez ampla de petróleo e derivados, que já é real em países mais pobres da Ásia e da África. Mais do que lidar com combustíveis caros devido à guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, contempla-se a possibilidade crescente de que faltem produtos.
O problema não pode ser administrado por meio de subsídios. Ao contrário, o controle de preços agravaria os danos causados pela restrição de oferta. O alerta vale também para o Brasil.
As cotações aumentaram já o bastante de modo a contratar altas de inflação, afetar taxas de juros e diminuir estimativas de crescimento para quase o mundo inteiro. A cotação do barril Brent no mercado futuro foi em média de cerca de US$ 67 em janeiro e de US$ 71 em fevereiro, antes do início da guerra no Oriente Médio; em abril, esteve em US$ 101.
Apesar das altas, o mercado não parece refletir o que instituições como a Agência Internacional de Energia e o Banco Mundial têm chamado de maior choque de oferta da história.
Em março de 2022, mês seguinte ao da invasão da Ucrânia pela Rússia, o preço médio do Brent foi a US$ 115; em junho, a US$ 120. Mas a perda estimada de abastecimento com a restrição a vendas russas equivalia a um sexto dos combustíveis que eram exportados regularmente pelo estreito de Hormuz, entre o Irã e Omã.
Segundo o “Perspectivas para o Mercado de Commodities” do Banco Mundial, de abril, a redução da oferta mundial de petróleo em março foi de 10 milhões de barris por dia (para um consumo estimado de pouco mais de 100 milhões diários).
É o saldo de perdas de exportação pelo Golfo e de compensações como petróleo escoado por oleodutos da região e pequenos aumentos de produção no restante do mundo. A situação somente não é pior por causa de alguma redução da demanda.
Estoques devem sustentar o consumo até meados do ano, diz o relatório do Banco Mundial. Mas outros analistas alertam para o risco de falta de certos produtos, como diesel, querosene para aviões e gás, que pode ocorrer em quatro a oito semanas, dado o fechamento de Hormuz.
Em seu cenário básico, o Banco Mundial prevê para este maio o “fim da fase mais aguda das perturbações”, com normalização a partir de outubro. Nesse caso, o custo médio de commodities de energia aumentaria em 24% em 2026. O preço do Brent ficaria em US$ 86 na média do ano (e também em dezembro), ante previsão de US$ 60 em janeiro.
Tudo ainda depende da duração do bloqueio de Hormuz e do tamanho dos danos às instalações produtivas da região.
O governo brasileiro previa subsídios por um trimestre. Bancar com receita de impostos ou perdas da Petrobras a alta do custo não dá conta do risco de escassez. Resta saber se Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato a reeleição difícil, chancelaria alta de preços às vésperas da votação.
Governo brasileiro previa um trimestre de subsídios, que seriam nocivos em caso de falta de produtos. Resta saber se Lula chancelaria alta de preços às vésperas da eleição