Distribuição representa cerca de 5% do preço final e também sofre impactos da crise global
Folha de S. Paulo
Num cenário de instabilidade global provocado pelos conflitos no Oriente Médio, o mercado de combustíveis enfrenta um momento crítico.
A crise em uma região estratégica para o setor aumenta a volatilidade do preço do petróleo e afeta uma engrenagem complexa da economia global, impactando os valores cobrados desde o barril na origem até a bomba nos postos de gasolina.
No Brasil, os efeitos dessa instabilidade são ampliados pela dimensão continental do país, o que aumenta o desafio das distribuidoras para manter os estoques abastecidos.
Mesmo sendo produtor, o país sente os impactos da crise global principalmente porque o petróleo é uma commodity negociada em preços internacionais e porque cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado.
A Petrobras responde por aproximadamente 70% da demanda interna por combustíveis, enquanto os outros 30% ficam a cargo das distribuidoras.<br /><br />Na composição do preço pago pelo consumidor nos postos entram diversos custos pressionados pela variação do barril de petróleo e pelos entraves logísticos no transporte da mercadoria.<br /><br />O petróleo – incluindo produção, refino e importação – responde por cerca de 55% do preço final.<br /><br />Os impostos federais e estaduais, como PIS/Cofins e ICMS, representam aproximadamente 17%.<br /><br />A mistura obrigatória de biocombustíveis ao diesel fóssil é responsável por cerca de 13% do valor cobrado.<br /><br />A distribuição representa cerca de 5% desse total. Já a revenda gira em torno de 10% do custo final.<br /><br />Os postos de combustíveis têm liberdade para definir os preços cobrados na bomba de acordo com seus custos operacionais, margem de lucro e concorrência local. As distribuidoras, por lei, são proibidas de determinar esse valor.<br /><br />O governo pretende reduzir os impostos federais incidentes sobre gasolina, etanol, diesel e biodiesel para tentar aliviar o preço final ao consumidor, mas os valores devem continuar elevados.<br /><br />’O Brasil importa petróleo, gasolina e diesel, que são negociados em dólar no mercado internacional. Mesmo com a queda recente do dólar, isso ainda não foi suficiente para compensar a alta do petróleo em relação aos preços anteriores à guerra’, afirma Mauro Rochlin, professor de MBAs da FGV.<br /><br />Logística mais complexa<br /><br />O conflito no Oriente Médio levou à interrupção do fluxo normal de navios pelo Estreito de Hormuz, passagem marítima no sul do Irã que conecta os golfos Pérsico e de Omã e representa a segunda maior rota global de petróleo em volume transportado.<br /><br />Pela região passam cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a 20% do petróleo bruto global. Desse total, aproximadamente 84% seguem para o mercado asiático, especialmente China, Índia e Coreia do Sul.<br /><br />Os últimos embarques relevantes realizados na região ocorreram no fim de fevereiro, e toda a logística de transporte do petróleo se tornou mais complexa e onerosa.<br /><br />Como o tempo médio de trânsito até os destinos finais é de aproximadamente 45 dias, os maiores impactos da guerra começam a ser sentidos agora pelos mercados.<br /><br />Com menos petróleo circulando na cadeia logística, o preço do barril e de seus derivados vem seguindo trajetória de alta nos últimos meses.<br /><br />’O preço do petróleo é definido no mercado internacional. A Bolsa de Chicago é um dos principais centros globais de negociação de commodities, e os valores dependem da relação entre oferta e demanda. Com o fechamento do Estreito de Hormuz, a oferta caiu significativamente’, explica Rochlin.<br /><br />O professor ressalta ainda que, sem perspectiva sobre a duração da tensão na região, as petroleiras podem ser obrigadas a buscar novas rotas para escoar a produção, o que encarece toda a cadeia e pressiona ainda mais os preços.<br /><br />No Brasil, as distribuidoras são responsáveis por fazer o combustível chegar das refinarias a cerca de 45 mil postos espalhados por mais de 5.500 cidades.<br /><br />Por essas rotas são movimentados, todos os anos, cerca de 137 bilhões de litros de diesel, gasolina e etanol em território nacional.<br /><br />Em meio à crise, as distribuidoras também assumem o risco de comprar combustíveis importados por preços mais altos para evitar desabastecimento nos postos.<br /><br />Além disso, precisam lidar com atrasos logísticos provocados pelos efeitos do conflito no Oriente Médio, custos de proteção financeira e elevada carga tributária.<br /><br />As empresas convivem ainda com a oscilação constante e imprevisível dos preços do petróleo e do dólar.<br /><br />A incerteza no transporte também pesa: um navio pode levar cerca de 40 dias para chegar ao destino final.<br /><br />Para proteger os investimentos contra oscilações bruscas do mercado que possam comprometer a operação durante o trajeto, muitas distribuidoras recorrem ao hedge.<br /><br />O hedge funciona como uma espécie de seguro financeiro contratado junto a bancos para proteger ativos contra grandes variações do mercado – operação que envolve custos elevados.<br /><br />No caso do petróleo, são contratos bilionários destinados a garantir a viabilidade das operações mesmo diante de fortes oscilações do dólar em períodos de instabilidade global.<br /><br />Sem perspectiva clara para o fim do conflito no Oriente Médio, toda a cadeia de produção e distribuição de petróleo e combustíveis deve continuar sujeita a instabilidades e oscilações.<br /><br />E o reflexo disso tende a ser sentido diretamente pelo consumidor, com preços mais altos nos postos de combustíveis.<br /><br />*conteúdo patrocinado produzido pelo Estúdio Folha