EIXOS
Levantamento com 37 participantes aponta preferência por gás firme e por contratos mais flexíveis, e trata o capacity release e o customer release como medidas complementares
A maioria dos agentes do mercado de gás natural considera o programa de gas release fundamental para ampliar a concorrência no setor, segundo questionário divulgado nesta semana pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Dos 37 participantes, 81% classificaram o programa como fundamental.
O levantamento foi conduzido pela Superintendência de Defesa da Concorrência (SDC) da agência, com respostas coletadas entre 23 de março e 16 de abril. Participaram comercializadores, distribuidoras, produtores, consumidores livres, associações de classe e consultorias.
Somados os 81% que veem o programa como fundamental e os 14% que o consideram importante, o apoio à medida alcança 95% da amostra.
O gás firme foi o produto mais priorizado no desenho do programa, citado por 97% dos respondentes. Gás interruptível e gás diário para balanceamento aparecem em seguida, com 38% cada.
No horizonte contratual, 70% dos participantes preferem contratos de um ano e 54%, de dois anos. A pesquisa aponta a rigidez dos contratos atuais como barreira: 86% defendem a redução do nível de take-or-pay (retirada mínima obrigatória) e 76% pedem flexibilidade mensal.
Os agentes também indicam que o gas release não deve operar isoladamente. O capacity release, cessão compulsória de capacidade de transporte e processamento, foi apontado como mecanismo complementar por 78% dos respondentes, seguido pelo market maker (59%) e pelo customer/contract release (57%), que permite a consumidores livres e distribuidoras se desvincularem parcialmente dos contratos vigentes.
Como principal barreira à entrada de concorrentes, 70% dos respondentes citaram o acesso às instalações essenciais.
A leitura, porém, não foi unânime, e o contraponto se concentrou em dois perfis: produtores e consultorias. Na pergunta direta sobre a relevância do programa, a rejeição foi pequena — apenas 2 dos 37 respondentes (5%) deixaram de classificá-lo como fundamental ou importante.
O relatório do questionário não identifica quem responde em cada perfil e, no caso das consultorias, também não é possível saber quem pagou para elas participarem do levantamento.
Um agente marcou ceticismo quanto à eficácia da medida; o outro afirmou não ver necessidade do programa.
A crítica mais substantiva, no entanto, aparece nas respostas abertas (texto livre), sobretudo entre produtores. Esses respondentes sustentaram que a venda compulsória de gás não cria oferta física e que o desenho contraria os incentivos a investimento, em linha com a posição do agente dominante.
Argumentaram ainda que o programa atacaria o sintoma — a concentração — e não a causa, identificada na insuficiência da malha de transporte, sem a qual qualquer percentual liberado seria “meramente simbólico”.
Outra linha de objeção condicionou o gas release à conclusão da regulamentação do novo marco legal do gás, incluída a constituição do Mercado Organizado de Gás, sem a qual o programa seria “desnecessário, desproporcional e potencialmente contraproducente”.
Um dos respondentes descreveu o debate como uma tentativa de excluir a Petrobras e transferir os volumes da companhia e da União a intermediários que lucrariam com o ágio.
A Petrobras faz oposição ao gas release e à regulação do acesso às infraestruturas essenciais.
A agência planeja submeter a minuta a consulta pública entre outubro e novembro, realizar audiência pública em novembro e levar o tema à deliberação da diretoria colegiada em dezembro, com implementação prevista para 2027.
A ampla maioria: o gás firme foi o produto mais priorizado, citado por 97% dos respondentes. A divulgação de indicadores de preço apareceu como o mecanismo de transparência mais demandado, com 84%.
O que dividiu: na metodologia de precificação, nenhuma alternativa formou maioria, e o maior bloco de respostas — 38% — ficou em “outras respostas”, sinal da dispersão sobre o tema. Entre as opções nominadas, a mais votada foi o custo do gás acrescido de fee, com 27%.
O questionário foi conduzido pela Superintendência de Defesa da Concorrência (SDC) da ANP e reuniu 37 respostas válidas, coletadas entre 23 de março e 16 de abril.
O gas release está previsto no artigo 33 da lei nº 14.134/2021 (Lei do Gás) como instrumento para reduzir a concentração da oferta. No diagnóstico da ANP, o Índice Herfindahl-Hirschman (HHI) do mercado está em torno de 6.000 pontos, patamar de mercado altamente concentrado, com a Petrobras detendo cerca de 65% da comercialização.
A agência registra ainda que a abertura do mercado no Nordeste resultou em queda de 48% no preço médio do gás no atacado entre 2019 e 2024.
Em evento na FGV, no Rio, nesta segunda (22/6), o diretor da ANP Pietro Mendes afirmou que o programa tem natureza estrutural e não pune a Petrobras.
“Gas release não é uma medida punitiva. Não está aqui se julgando se o agente dominante tem uma determinada conduta. É uma medida de estrutura de mercado que é importante que seja tomada dentro do âmbito do órgão regulador. Até para que a gente tenha uma estabilidade dessas regras”, disse.
Para Mendes, o resultado do questionário mostra que a demanda pelo programa parte da própria indústria. “A amostra então reflete o consenso de que o gas release não é uma imposição do regulador ou só uma imposição legal. É uma exigência estrutural da própria indústria para abrir o mercado”, afirmou.
O diretor ressaltou ainda que o programa depende da liberação simultânea de capacidade física, sob risco de falhar: “O gas release tem risco elevado de falhar se não for perfeitamente sincronizado com a liberação de capacidade física, tanto de transporte quanto de escoamento quanto processamento”.