EIXOS
Programa de governo de Lula para um novo mandato prevê expansão de renováveis, biocombustíveis, hidrogênio e armazenamento, mas mantém petróleo e gás no centro da estratégia
O programa de governo apresentado pelo presidente Lula (PT) para um novo mandato aposta na transição energética como uma oportunidade de neoindustrialização, mas evita uma ruptura com petróleo e gás.
A diretriz é combinar segurança energética, redução de emissões e industrialização, com expansão das fontes renováveis e dos combustíveis de baixo carbono ao mesmo tempo em que a Petrobras mantém investimentos em exploração, refino e produção de óleo e gás.
No final de 2025, logo após o Brasil sediar a COP30, Lula encomendou a um grupo de ministérios a entrega de “diretrizes para elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no país”.
O prazo venceu em fevereiro e o assunto foi arrefecendo nos meses seguintes. No documento (.pdf) divulgado na sexta (7/8), o compromisso é de contribuir com o roteiro internacional “preservando soberania e segurança energéticas”.
O plano estabelece como prioridade para o próximo mandato aumentar a participação de fontes renováveis, ampliar investimentos em armazenamento e flexibilidade do sistema elétrico e acelerar a substituição progressiva de combustíveis fósseis por biocombustíveis e combustíveis de baixa intensidade de carbono, incluindo derivados de hidrogênio.
De olho no powersoring para atrair investimentos industriais, a proposta cita o desenvolvimento de cadeias de baterias, hidrogênio de baixa emissão, petroquímica verde, bioprodutos, fertilizantes e reatores nucleares modulares.
Os biocombustíveis aparecem como uma das principais apostas para a descarbonização dos transportes.
O programa promete ampliar a produção de etanol de milho e cana, biodiesel e combustível sustentável de aviação (SAF), além de estimular o aproveitamento de subprodutos da agroindústria para produzir bioenergia e biogás.
Para o RenovaBio, o plano é “continuar aprimorando” e incluir diretrizes para incorporar rotas de segunda e terceira geração, isto é, a partir de resíduos.
Já a atuação em SAF, biometano e combustíveis marítimos segue como frente de desenvolvimento tecnológico.
Embora cite marcos legais como as leis do Combustível do Futuro e do hidrogênio de baixo carbono, o documento não explora uma questão crucial que tem deixado a indústria ansiosa: a regulamentação.
A publicação dos decretos do SAF, captura de carbono (CCUS) e hidrogênio é aguardada desde 2024.
São temas que também interessam a Petrobras. No plano, a promessa é fortalecer a participação da estatal no segmento de biocombustíveis, por meio da PBio, e avançar no desenvolvimento de SAF, biometano e combustíveis marítimos.
O programa destaca como resultados do atual mandato a ampliação da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 27% para 32% e de biodiesel no diesel de 10% para 15%.
E cita oito plantas de etanol de segunda geração e duas biorrefinarias para SAF incluídas na carteira do Novo PAC.diálogos da transiçãoCom mapa do caminho no limbo, governo abre consulta sobre plano de transição
Ao mesmo tempo, o petróleo continua tendo papel relevante na estratégia.
O programa defende a continuidade da expansão da exploração onshore e offshore pela Petrobras, a revitalização de campos maduros e a exploração de novas reservas com “cuidados socioambientais” e visão estratégica.
A estatal também deverá ampliar a capacidade de refino, voltar ao segmento de distribuição de combustíveis e expandir a atuação da Transpetro na logística de GNL.
A compatibilização entre produção fóssil e transição aparece explicitamente na proposta para a Petrobras. A estatal deverá investir também em fontes de baixo carbono e reduzir suas emissões operacionais, em linha com a meta climática do Brasil (NDC, em inglês) no Acordo de Paris.
Um dos poucos compromissos de revisão de marcos legais que o programa de governo de Lula e Alckmin assume nominalmente na área de energia é modificar o Repetro: “Vamos readequar o marco legal do Repetro às necessidades de descarbonização”.
Mas não há iniciativa oficial, como prazo, instrumento, ou indicação de qual dimensão do regime aduaneiro seria alterada.
Para os críticos, Repetro é carro-chefe dos subsídios dados aos combustíveis fósseis. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) calcula que, anualmente, o benefício custe cerca de US$ 1,65 bilhão.
Sem uma saída rápida dos combustíveis fósseis, o desenho apresentado é de uma transição gradual, na qual petróleo e gás permanecem como instrumentos de segurança energética e desenvolvimento industrial, enquanto renováveis, biocombustíveis, hidrogênio e tecnologias de armazenamento ganham espaço como novas fronteiras de investimento e descarbonização.diálogos da transiçãoMapa do caminho: Conselhão recomenda fim dos subsídios fósseis
Na geração elétrica, apesar da ausência de menções explícitas aos cortes de geração (curtailment) que têm assombrado o setor, o plano reconhece o problema de restrições operativas e propõe medidas que podem contribuir para reduzi-lo, mas não apresenta metas, números ou uma estratégia específica.
O que há é a promessa de continuidade da expansão das renováveis e da infraestrutura de transmissão, além de uma nova fronteira de investimentos em baterias e aumento da demanda industrial.
“Será fundamental expandir de forma coordenada e integrada a transmissão, a geração e o desenvolvimento regional, incentivando o aumento da demanda industrial em outras regiões de modo a reduzir restrições operativas e aumentar o aproveitamento dos recursos renováveis”.
O plano também prevê incorporar os riscos climáticos ao planejamento energético e ampliar a resiliência do sistema. A geração hidrelétrica poderá continuar crescendo, condicionada a critérios socioambientais, de segurança energética e de flexibilidade para integrar fontes renováveis.
Enquanto a produção de carvão deverá ser reduzida, mas também sem metas específicas.