Custo do gás natural na Bahia pode afastar usina de R$ 250 milhões

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18/08/2026
Reajuste da tarifa de gás natural
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BPMONEY

Projeto de 60 MW da Green Energy Ventures avalia o estado, mas o custo de distribuição do gás pesa na decisão sobre onde instalar a usina.

  • Uma usina termelétrica de 60 MW, com investimento de R$ 250 milhões, avalia a Bahia para instalação.
  • O custo de distribuição do gás natural é o principal ponto de atenção para a Green Energy Ventures.
  • A Bahia possui infraestrutura de gás e conexão elétrica, além de enquadramento na área da Sudene.
  • A Bahiagás aplicou reajuste de 5,73% nas tarifas em maio de 2026, mas acumula redução de 7,71% em 12 meses.
  • A ANP aprovou desconto de 15% na tarifa de transporte de gás para contratos longos, mas não afeta a distribuição estadual.
  • A Sudene oferece redução de 75% do IRPJ por dez anos para empreendimentos em sua área de atuação.
  • A decisão da Green Energy Ventures ainda está aberta, com interlocução sobre a tarifa de gás na Bahia.

Uma usina termelétrica de 60 megawatts (MW), com investimento estimado em R$ 250 milhões, colocou o gás natural na Bahia no centro de uma decisão que envolve custo, infraestrutura, emprego e arrecadação. A Green Energy Ventures avalia onde instalar o empreendimento contratado para entrar em operação em outubro de 2028, e a Bahia está entre as alternativas consideradas pela companhia.

O estado reúne pontos que pesam a favor da instalação, como acesso à rede de gás, conexão ao sistema elétrico e enquadramento integral na área de atuação da Sudene. Entretanto, segundo Luiz Felipe Herrmann, sócio da Green Energy Ventures, o custo de distribuição do gás pode mudar a conta.

O principal hoje, em termos de dinheiro e viabilidade do negócio, é o custo do gás”, afirmou o executivo durante entrevista ao BP Money. De acordo com ele, o projeto ainda não definiu onde ficará. “A gente está finalmente nessa definição. Não está definido ainda. A gente tem algumas opções”, disse.

A escolha importa porque o estado selecionado receberá a instalação da usina, parte dos gastos da construção, postos de trabalho, contratação de serviços e a atividade econômica ligada à operação do empreendimento durante o contrato.

Tarifa de gás na Bahia entra na conta do projeto

O custo do gás natural pago por uma termelétrica não se resume à molécula consumida. A conta inclui fornecimento, transporte e distribuição. Para uma usina contratada em um leilão de capacidade, uma parcela do custo existe mesmo nos períodos em que o equipamento não gera energia.

Isso ocorre porque a térmica precisa manter capacidade disponível para receber o gás quando for acionada.

No caso da Green Energy Ventures, Luiz Felipe afirma que a companhia precisa contratar capacidade para atender à usina, embora o uso efetivo fique perto de 10%.

“Como eu tenho que contratá-lo 100%, mas eu só uso ele próximo de 10%, eu pago muita coisa por usar pouca coisa”, afirmou. Na entrevista, ele comparou a situação a contratar um pacote de celular acima da utilização necessária.

Essa estrutura ganha peso porque o contrato da usina nova terá prazo de 15 anos. O edital do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência de 2026 prevê justamente contratos desse prazo para novos empreendimentos termelétricos com início de suprimento a partir de 2028.

Segundo Luiz Felipe, nas simulações realizadas pela empresa, o componente tarifário da Bahiagás considerado para o projeto estava em torno de três vezes o menor valor encontrado entre as alternativas analisadas na área da Sudene.

“No caso da tarifa deles, eles estavam três vezes mais caros, até mais, um pouco, do que o mais barato”, afirmou. Questionado se o item seria o principal impeditivo para a escolha da Bahia, ele ponderou: “Eu não diria que é o maior, mas é um, dois, com certeza”.

A entrevista não informa o volume diário de gás que seria contratado pela usina nem apresenta os valores unitários utilizados nas propostas comparadas. Portanto, não é possível calcular, com os dados disponíveis, quanto o diferencial tarifário representaria em reais por ano ou ao longo dos 15 anos de contrato.

Os R$ 250 milhões citados representam o investimento estimado no projeto, e não o custo adicional provocado pela tarifa baiana.

R$ 250 milhões entram na disputa entre estados

A usina da Green Energy Ventures terá 60 MW e deve demandar cerca de R$ 250 milhões em investimentos, segundo Luiz Felipe.

“Nossa usina tem 60 megawatts. A gente vai ter um investimento de mais ou menos R$ 250 milhões”, afirmou.

A empresa estima entre 30 e 50 trabalhadores no período de maior atividade da construção. Na fase operacional, a projeção é manter entre 30 e 40 profissionais, com funcionamento 24 horas por dia.

A dimensão do mercado é maior quando considerados os demais projetos contratados no País. A CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) informou que o 4º Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 terminou com 100 usinas vencedoras e 18.977 MW de potência contratada. Os investimentos declarados no certame somaram cerca de R$ 64,5 bilhões, enquanto a receita total dos contratos alcançou R$ 515,7 bilhões ao longo dos períodos de suprimento.

Na entrevista, Luiz Felipe estima que o conjunto de obras e estruturas necessárias ao redor dos projetos poderá movimentar bilhões no estado.

Bahia já concentra projetos de termelétricas

A discussão sobre o custo ocorre em um estado que já recebe investimentos relacionados ao gás.

A própria Bahiagás informou, em março de 2026, que dez termelétricas localizadas na Bahia saíram vencedoras do LRCAP 2026. Segundo a distribuidora, esses empreendimentos representam demanda potencial de aproximadamente 5,98 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Para atendê-los, a companhia estima cerca de R$ 64 milhões em gasodutos e expansão de aproximadamente 22,3 quilômetros da rede.

A infraestrutura existente também entra na conta. A Bahiagás encerrou 2025 com mais de 1.350 quilômetros de rede de gasodutos. Para 2026, a companhia prevê aproximadamente R$ 259,6 milhões em investimentos e a implantação de cerca de 101 quilômetros de dutos.

Essa estrutura é um dos motivos citados pelo sócio da Green Energy Ventures para manter a Bahia entre as opções.

De acordo com Luiz Felipe, a disponibilidade de gás e de pontos de conexão elétrica reduz etapas para um empreendimento que precisa começar a operar em 1º de outubro de 2028. “A Bahia tem a capacidade de ser muito boa em tudo”, afirmou ao explicar a combinação entre gás e conexão elétrica.

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O que a Bahiagás diz sobre o preço do gás

Os dados divulgados pela Bahiagás apresentam outro lado da discussão tarifária.

Em 1º de maio de 2026, a companhia aplicou reajuste médio de 5,73% nas tarifas de gás natural, conforme resolução da Agerba (Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia). Segundo a empresa, o movimento ocorreu pelo repasse do preço médio ponderado do gás comprado de seus fornecedores.

Apesar do reajuste naquele mês, a Bahiagás afirma que, considerando os 12 meses anteriores, sua tarifa média acumulava redução de 7,71%, equivalente a R$ 0,1895 por metro cúbico. A empresa também informou que passou a contar com 15 supridores a partir de abril de 2026.

Em manifestação publicada em 2024, a companhia também citou estudo da Firjan para afirmar que possuía a menor tarifa entre as distribuidoras analisadas para determinado perfil de consumo industrial. Na ocasião, a Bahiagás informou que 70,7% da tarifa média correspondia à compra do gás, 20,1% a encargos e impostos e 9,2% à margem de distribuição.

A comparação feita pela Green Energy Ventures, por sua vez, trata do custo avaliado para um projeto termelétrico específico, com contrato de capacidade e perfil de consumo diferente do industrial convencional.

Transporte de gás também entrou no radar da ANP

O custo fixo ligado aos gasodutos já provocou mudanças regulatórias no próprio LRCAP.

Em janeiro de 2026, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) aprovou desconto de 15% na tarifa de capacidade de saída para contratos firmes de transporte de gás com prazo igual ou superior a dez anos.

De acordo com a agência, a medida buscou reduzir o custo das térmicas e aumentar a competitividade dos projetos no leilão. A ANP avaliou que contratos longos aumentam a previsibilidade de receita do sistema de transporte.

O desconto, no entanto, incide sobre o transporte de gás natural, regulado pela ANP. Ele não substitui decisões sobre a tarifa estadual de distribuição, que envolve Bahiagás e Agerba.

Portanto, é justamente nessa parcela que Luiz Felipe defende uma discussão específica para clientes termelétricos.

Na avaliação do empresário, uma usina contratada por 15 anos adiciona receita à distribuidora enquanto mantém capacidade reservada mesmo quando não está consumindo gás. Por isso, ele argumenta que a estrutura tarifária poderia considerar esse perfil.

“Todo o ganho que ela terá com o nosso contrato, ela rateará entre todo mundo”, afirmou. De acordo com ele, uma eventual solução precisaria envolver a distribuidora e a regulação estadual, e não uma decisão isolada da Bahiagás.

Sudene também pesa na escolha da termelétrica

Outro fator limita o mapa de opções da Green Energy Ventures: a Sudene.

Luiz Felipe afirmou que permanecer dentro da área de atuação da superintendência é um dos critérios considerados pela empresa. Toda a Bahia integra a área da Sudene, enquanto apenas parcelas de Minas Gerais e do Espírito Santo estão incluídas.

O enquadramento pode ter efeito na conta de empresas elegíveis. O governo federal prevê redução de 75% do IRPJ (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica) por dez anos para empreendimentos que atendam aos requisitos do programa e estejam instalados na área de atuação da Sudene.

Portanto, isso coloca a Bahia em uma disputa que não envolve apenas o preço do gás. Conexão elétrica, infraestrutura, tributação, incentivos e prazo de implantação são avaliados em conjunto.

O que pode fazer o investimento ficar na Bahia?

A decisão da Green Energy Ventures ainda está aberta.

A empresa informou à Bahiagás sobre a diferença encontrada em suas comparações tarifárias. Segundo Luiz Felipe, há interlocução sobre o tema, mas não existe uma definição sobre eventual mudança na tarifa.

“A gente comunicou. E eles entendem isso perfeitamente. Eles estão trabalhando”, afirmou.

O caso mostra como diferenças de custo que parecem restritas a uma linha da planilha podem interferir na localização de um investimento com vida contratual de 15 anos.

Dessa forma, para a Bahia, a conta envolve mais do que os R$ 250 milhões previstos para uma única usina. O próprio resultado do LRCAP mostra uma fila de projetos que terão de decidir onde instalar equipamentos, contratar gás, conectar-se ao sistema elétrico e manter equipes durante anos.

Em suma, no caso da Green Energy Ventures, a Bahia ainda está na disputa. A definição sobre o gás natural na Bahia, porém, será uma das variáveis que decidirão em qual estado o investimento será transformado em obra, empregos e operação.

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