Avanço das renováveis reduz o poder político das grandes petroleiras

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O aperto de mãos entre o premiê britânico Tony Blair e Muammar Khadafi no deserto em 2007 não foi apenas o momento em que o líder líbio consolidou laços com um velho inimigo. Foi também um símbolo cabal do papel que as grandes companhias de petróleo ocupavam na política externa.

Durante a visita de Blair a Líbia, a BP firmou um acordo de exploração significativo que coroou seus esforços para convencer o governo britânico a restabelecer os laços com o finado ditador norte-africano, que lhe abriu acesso aos imensos recursos petrolíferos às portas da Europa.

A disputa por combustíveis fósseis influenciou a geopolítica por várias décadas, gerando conflitos e moldando as relações entre o Ocidente e o Oriente Médio até a polêmica atual em torno do oleoduto Nordstream 2, que se estende da Rússia até a Europa ocidental.

Mas agora as relações entre as empresas petrolíferas ocidentais e seus governos passam por uma mudança drástica, na medida em que os governos se comprometem a priorizar fontes verdes e os combustíveis fósseis caem em desgraça – um movimento que ganhou destaque em abril, quando o presidente dos EUA, Joe Biden, promoveu uma cúpula internacional sobre o clima para pressionar os países a reduzir as emissões.

“Sempre houve a percepção de que o poder geopolítico em maior escala estava vinculado ao acesso ao petróleo”, disse Greg Priddy, ex-prestador de serviços de análise em energia para o governo americano. “Mesmo no governo Obama, nos EUA, havia a noção de que as grandes produtoras no exterior eram estrategicamente importantes. Mas tudo isso está mudando.”

A mudança acabou por ser entendida, a custo, no mês passado, quando a Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou relatório em que argumentava que, se o mundo tem de cortar as emissões de gases-estufa para zero até 2050 – um prérequisito para alcançar a meta definida pelo acordo de Paris do clima, de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais – a exploração em busca de novos campos de petróleo precisa parar imediatamente.

Mesmo antes do relatório, as empresas tinham reduzido os investimentos em prospecção em regiões de risco, temendo que o consumo de petróleo possa alcançar seu pico na próxima década.

Nos países em que os executivos do setor petrolífero chegaram a assumir um papel quase tão destacado quanto os de embaixadores na gestão de relações com líderes estrangeiros, sua influência está diminuindo. Os críticos reclamaram certa vez de uma “porta giratória” entre governos e grupos petrolíferos, com autoridades assumindo cargos no setor após deixar a atividade pública. Mas os governos não querem mais ser vistos como apoiadores de empresas de combustíveis fósseis numa época em que promovem o avanço de uma agenda interna com base em fontes renováveis, dizem analistas.

Nos EUA – o maior produtor e consumidor de petróleo do mundo -, o governo Biden reconduziu de volta ao Acordo de Paris, abandonou o oleoduto Keystone XL e propôs investimentos sem precedentes em energia limpa. No âmbito internacional, a Casa Branca pressionou outros países a deixar de financiar projetos de carvão no exterior – no mês passado países do G-7 prometeram fazer isso até o fim deste ano – bem como a encabeçar a cúpula do clima.

Com a mudança de governo em Washington, creio que talvez tenhamos visto o fim do caso de amor dos EUA com as petrolíferas”, disse Helima Croft, ex-analista da CIA e hoje na área de commodities da RBC Capital Markets. “Proteger o acesso a recursos naturais era visto como uma questão importante em Washington, mas perdeu parte da importância agora, com o foco na transição energética e na mudança climática.”

Mas uma transição mundial para fontes renováveis é um cálculo complexo, alertam observadores.

As grandes petrolíferas dizem que, apesar de usufruir de apoio, nunca dependeram de seus governos para ajudá-las a garantir acesso a recursos naturais e que ainda são bem-vindas em muitos países.

Personalidades do setor argumentam que os políticos podem perder influência global ao enfraquecer seus laços com suas empresas de petróleo e gás e ao promover o afastamento dos países em desenvolvimento dos combustíveis fósseis. Os EUA, por exemplo, deveriam usar seus amplos recursos em hidrocarbonetos para apoiar aliados potenciais que, de outra forma, dependeriam de suprimentos provenientes de países como a Rússia, dizem eles.

“Existe uma disputa geopolítica com a China neste momento por influência econômica sobre muitas partes do mundo”, disse um ex-assessor de segurança nacional dos EUA que hoje trabalha numa grande petrolífera americana e pediu para não ter seu nome divulgado. “Os EUA têm vantagens com sua disponibilidade de GNL [gás natural liquefeito], mas parecem menos interessados em usá-las.”

Jason Bordoff, ex-assessor de Barack Obama e diretor do Centro de Política Energética Mundial da Universidade Columbia, observou que houve pouca redução na demanda mundial por petróleo.

“O plano estratégico da AIE foi bastante impressionante ao destacar o que precisa mudar, mas também foi impressionante ao dizer que nada mudou até agora – a demanda por petróleo ainda está aumentando”, disse Bordoff.

O papel dos recursos naturais na política externa mudará com a transição energética, disse ele. Minerais decisivos para baterias ou acesso a combustíveis alternativos, como hidrogênio, permitem concluir que as relações entre grandes produtores de matérias-primas mudarão, em vez de desaparecer.

“Mesmo que os problemas da geopolítica energética sejam resolvidos por meio da descarbonização, a transição energética, sem dúvida, criará novos”, disse ele.

Mas mesmo o apoio político não consegue proteger as petrolíferas dos acontecimentos. Blair pode ter aberto o caminho para a BP, mas o investimento na Líbia foi frustrado pela guerra civil de 2011. “Sempre houve relações interessantes entre os governos e as grandes petrolíferas, mas nunca tinha muita certeza sobre o caminho que essa influência tomava”, diz Paul Stevens, do centro de análise e pesquisa em assuntos internacionais Chatham House.

“Mas, com o petróleo saindo de cena… as companhias tentam reagir, mas não há muito o que o governo possa fazer por elas.”

Fonte: Financial Times via Valor Econômico

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