Castello Branco deixa Petrobras mais enxuta

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01/03/2021
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Valor Econômico

De saída da Petrobras, Roberto Castello Branco deixa como legado uma companhia menos endividada e mais enxuta. A gestão do executivo foi marcada por cortes de custos, venda de ativos, foco no pré-sal e pelo aumento do pagamento de dividendos aos acionistas. A reta final da administração do economista, porém, é marcada por uma crise de desconfiança de investidores, diante da decisão da empresa de segurar reajustes em 2021, ante a pressão de Jair Bolsonaro contra os preços da estatal.
Ao assumir a companhia logo após o fim do subsídio nos preços do diesel, implementado por Michel Temer, em resposta à greve dos caminhoneiros, Castello Branco prometeu manter os preços alinhados ao mercado internacional. E assim o fez durante a maior parte do tempo. Desde a virada do ano, contudo, cresceram os questionamentos, no mercado, sobre a decisão de manter os preços abaixo da paridade de importação. Ao anunciar, no dia 18, aumento de 15% no diesel, o maior de sua gestão, na tentativa de voltar a se alinhar aos preços internacionais, o executivo pavimentou caminho para sua destituição.
Com recurso do PDV, presidente intensificou o corte de pessoal na estatal, que fechou 2020 com 49 mil empregados
O presidente da República interferiu diretamente na troca de comando na empresa e indicou o general da reserva Joaquim Silva e Luna, diretor-geral de Itaipu Binacional, para o lugar de Castello Branco – que ficará no cargo até 20 deste mês, quando termina seu mandato. O prazo, porém, pode ser prorrogado até que Silva e Luna seja oficializado como presidente da estatal, depois que for eleito conselheiro, em assembleia geral de acionistas, e passar pelo crivo do conselho de administração.
Há dois anos e dois meses à frente da empresa, Castello Branco foi o mais longevo presidente da Petrobras desde Graça Foster, nome de confiança da ex-presidente Dilma Rousseff e que chefiou a empresa de 2012 a 2015, até renunciar em meio à crise de credibilidade envolvendo a estatal após a Lava-Jato. Desde então, a petroleira já foi comandada por outros quatro executivos: Aldemir Bendine (2015-2016), Pedro Parente (2016-2018), Ivan Monteiro (2018) e Castello Branco (2019-2021).
O atual presidente assumiu a empresa respaldado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. A missão do executivo, na Petrobras, era acelerar a execução do plano estratégico de seus antecessores, focado na redução dos custos e dívida. Castello Branco intensificou o plano de desinvestimentos de Parente e Monteiro: aumentou o número de refinarias à venda e colocou todos os campos terrestres e em águas rasas no mercado.
Foi também na gestão do economista que, na contramão de grandes petroleiras, a empresa se afastou das renováveis. Em meio à transição energética, o foco da empresa, neste momento, é concentrar na descarbonização dentro das suas próprias atividades petrolíferas e investir cada vez mais no pré-sal – que se mostrou competitivo num cenário de preços baixos.
Em meio ao choque do petróleo, em 2020, a Petrobras paralisou 62 plataformas que produziam em águas rasas e que possuíam custos de operação mais elevados. Com a medida, associada a cortes de despesas, a empresa conseguiu reduzir os custos de extração de uma média de US$ 10,9 o barril em 2018 para US$ 6,8, em 2020.
O pré-sal, que era responsável por metade da produção em 2018, passou a representar 68% dos volumes da companhia em 2020. Mesmo num ano de forte retração do consumo global, a estatal bateu recorde de produção em 2020, de 2,84 milhões de barris diários de óleo equivalente (BOE/dia).
William Nozaki, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégico de Petróleo (Ineep), vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), cita, porém, a queda do volume de reservas da petroleira, que atingiu em 2020 o menor patamar em duas décadas, de 9,42 bilhões de barris de óleo equivalentes. “Os pontos positivos da gestão Castello Branco estão concentrados na dimensão financeira da empresa, mas, do ponto de vista da dimensão produtiva, há lacunas e tensões”, afirma.
Foi com a venda de ativos e com a forte geração de caixa do pré-sal que a empresa conseguiu cortar 10,5% a dívida bruta entre 2018 e 2020, de US$ 84,4 bilhões para US$ 75,5 bilhões. A meta da empresa é reduzir esse patamar para US$ 60 bilhões em 2022 e, assim, aumentar a remuneração aos acionistas, com base numa nova fórmula. No mandato de Castello Branco, a empresa teve lucro em 2019 e 2020 e anunciou dividendos de US$ 4,7 bilhões, relativos a esses dois exercícios fiscais.
Para efeitos de comparação, desde 2016, nas gestões de Bendine, Parente e Monteiro, período marcado pelos primeiros passos de reestruturação da empresa após a Lava-Jato e a crise do petróleo de 2015, a estatal só lucrou em 2018 – o que garantiu US$ 1,9 bilhão em dividendos.
Para reduzir custos, Castello Branco criou uma diretoria voltada a acelerar a transformação digital. E reduziu o número prédios administrativos ocupados, de 23 para 14.
Baseado em programas de desligamento voluntário, Castello Branco também intensificou o corte de pessoal na Petrobras, que encerrou 2020 com 49 mil empregados – 22,6% a menos que o herdado da gestão Monteiro. A previsão é que mais 5 mil sairão em 2021. Em dois anos, Castello Branco conviveu com duas greves de petroleiros contrários aos desinvestimentos e redução do pessoal.
“A companhia tinha legados deixados por Parente e Monteiro, foi com eles que começou o esforço de tornar a Petrobras mais resiliente com vendas de ativos e redução da dívida, mas Castello Branco intensificou isso. Ele administrou a Petrobras como uma empresa privada, o que deixou um legado grande aos acionistas. O foco na geração de caixa e o desejo de maior retorno aos acionistas, entre eles a União, é um grande legado e beneficia inclusive o Estado”, diz o analista da XP, Gabriel Francisco.
Castello Branco sai da Petrobras em meio a insatisfações de Bolsonaro sobre preços dos combustíveis – assunto que também derrubou Parente, em 2018. Os episódios recentes não foram os únicos a levantar dúvidas sobre interferências de Bolsonaro na petroleira. Logo ao assumir o cargo, Castello Branco indicou para a gerência-executiva de inteligência e segurança corporativa Carlos Nagem, funcionário da estatal e amigo do presidente da República. Após a repercussão negativa do caso, Castello Branco recuou, mas em seguida deu ao indicado uma das cadeiras na assessoria da presidência.
Nas redes sociais, Bolsonaro, em algumas ocasiões, afirmou ter mandado a Petrobras rever patrocínios culturais. E, em abril de 2019, ligou diretamente para Castello Branco quando a estatal decidiu aumentar o diesel. Após a ligação, a empresa suspendeu o reajuste, estressando o mercado.

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