Valor Econômico
A economia americana será um dos principais pontos a ser monitorado por especialistas em petróleo no segundo semestre de 2023. Após os primeiros seis meses trazerem pouca volatilidade nos preços da commodity, a possibilidade de alta dos juros nos Estados Unidos e a fraqueza da recuperação econômica chinesa não apontam para uma demanda mais forte na segunda metade do ano, dizem especialistas ouvidos pelo Valor, apesar da alta vista em junho.
O petróleo tipo Brent acumulou queda de 12% no ano até 30 de junho, fechando a US$ 70,78 o barril, enquanto o WTI recuou 11,96%, aos US$ 75,41. No mês de junho, o Brent subiu 3,72%, enquanto o WTI avançou 3,87%.
Analistas têm monitorado o cenário dos Estados Unidos de perto por conta dos riscos de que a economia do país desacelere, o que afetaria a demanda pela commodity. O crescimento econômico global mais lento e as preocupações por demanda levaram o UBS a reduzir a estimativa para os preços do Brent para 2023 e 2024. A estimativa para o preço do barril no terceiro trimestre foi de US$ 90 para US$ 80 e de US$ 90 para US$ 85 no fim do ano. Para o BTG Pactual, “o consumo ainda resiliente, especialmente nos Estados Unidos, juntamente com uma oferta apertada, pode contribuir para preços mais elevados no futuro.”
Os especialistas alertam para o baixo efeito sobre os preços dos cortes de produção promovidos pela Organização dos Países Produtores de Petróleo e seus Aliados (Opep+) nos últimos meses. Segundo Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco, a percepção é mais positiva por todos os membros do cartel respeitarem os limites de produção.
Passabom destaca como principais pontos a se monitorar no segundo semestre a temporada de viagens de carro nos Estados Unidos, que promove um aumento sazonal na demanda por combustíveis em julho; os movimentos do Banco Central americano, que pode elevar as taxas de juros; e os dados de produção e exportação da Rússia, que estão dentro do esperado por enquanto, segundo ela.
Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pedro Rodrigues, o crescimento da China abaixo do esperado e as questões macroeconômicas dos EUA são duas das forças que impedem um efeito maior dos esforços da Opep+. Além disso, o fato de a Rússia ter contornado as sanções, e continuar exportando volumes próximos ao que era vendido antes da guerra na Ucrânia, também mantém os preços estáveis.
“EUA e China vão ser importantes para sabermos para onde vai o petróleo nos próximos meses” — Ilan Arbetman
Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, concorda que os principais riscos para a demanda por petróleo estão nas políticas de “contenção de crescimento” por parte das autoridades do Ocidente, notadamente os Estados Unidos. E também chama a atenção para o desempenho abaixo do esperado da economia chinesa, que tem contribuído para manter fraca a demanda por óleo em 2023.
“Esses dois países, Estados Unidos e China, no que tange à demanda, vão ser importantes para sabermos para onde vai o petróleo nos próximos meses”, afirma Arbetman.
Do lado da oferta, o analista destaca que em menos de um ano a Opep+ tirou do mercado cerca de 3,5 milhões de barris, cerca de 3% da oferta mundial. Mesmo assim, não foi suficiente para uma alta consistente de preços. “Mas me parece que é muito claro que os países ali [na Opep+] vão fazer de tudo para que se mantenha o preço do Brent minimamente atrativo para as suas economias”, diz Arbetman, que acredita em uma tendência de oscilação do barril entre US$ 70 e US$ 80 até o fim do ano. “Não consigo ver um desarranjo tão grande de oferta e demanda no curto prazo”, acrescenta.
Com a expectativa de relativa calmaria nos preços do petróleo, especialistas esperam que os reflexos no Brasil tenham pouco impacto. No entanto, os próprios eventos locais podem trazer mudanças no cenário doméstico.
Marcelo de Assis, diretor de pesquisa em exploração e produção da Wood Mackenzie, diz que ainda não é possível prever os passos da Petrobras pela falta de transparência da nova política de preços.
Na sexta-feira, a Petrobras anunciou redução dos preços da gasolina A para as distribuidoras de R$ 0,14 por litro, cerca de 5,3%. A queda da gasolina aumenta a defasagem em relação ao exterior para cerca de R$ 0,50 por litro, segundo Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores dos Combustíveis (Abicom).