Globo Rural
A Copersucar assinou ontem (22) com a comercializadora Bunker One e a armadora francesa CMA CGM o primeiro contrato comercial do mundo de fornecimento de etanol para navios. O acordo envolve sete abastecimentos até o fim do ano, o que deve movimentar cerca de 10 milhões de litros de etanol anidro.
O número de abastecimentos pode mudar conforme disponibilidade dos navios e rotas. Os abastecimentos correspondem ao suprimento de parte dos tanques de cada embarcação, e não dos navios como um todo.
As companhias não informaram o valor envolvido no contrato, mas Tomás Manzano, CEO da Copersucar, disse que o etanol chega nos navios a um custo competitivo em relação ao combustível fóssil, ou bunker, se considerado o custo que um armador teria que pagar para compensar suas emissões em créditos de carbono — ou os créditos de carbono que ele pode vender ao reduzir suas emissões.
O uso do etanol em navios começou a despertar um interesse crescente do setor naval no último ano diante das pressões regulatórias para a redução das emissões de gases-estufa no transporte marítimo, que responde por cerca de 2% a 3% das emissões globais.
Embora já existam várias alternativas de combustível, Manzano defende que o etanol é a opção que melhor atende simultaneamente a necessidade de disponibilidade imediata e baixa intensidade de carbono. Segundo o executivo, o etanol fornecido pela Copersucar tem uma pegada de carbono 75% menor que o VLSFO, o bunker de origem fóssil.
Aos preços atuais, o etanol anidro posto no navio no Porto de Santos está entre US$ 300 a US$ 400 a tonelada mais caro que o VLSFO, considerando a mesma base energética. Porém, como o combustível fóssil envolve mais emissões, o “custo de abatimento” (gasto com crédito de carbono para compensar as emissões) fica entre US$ 100 e US$ 130 a tonelada de carbono. “Com esse custo de abatimento, o etanol fica equivalente ao combustível fóssil”, disse. A conta considera que, ao substituir o consumo de uma tonelada de bunker, o etanol diminui as emissões de três toneladas de carbono.
O acordo com a Bunker One e a CMA CGM foi acertado três meses após uma primeira operação de teste no Porto de Santos, quando as três empresas realizaram um carregamento de um navio com etanol para avaliar a segurança da operação. Segundo Giovani Grassi, CEO da CMA CGM do Brasil, o teste mostrou que “o etanol pode ser incorporado às operações marítimas de forma segura, confiável e em escala comercial”.
Dos sete abastecimentos previstos no contrato, o primeiro foi executado na última segunda-feira (19), em um navio porta-contêineres de 13 mil TEU.
Os abastecimentos ocorrerão em navios “tri-fuel”, que podem ser abastecidos com VLSFO, metanol e etanol. Atualmente, estima-se que existam nos oceanos entre 70 e 100 navios do tipo, além de 300 encomendados para serem entregues até 2030.
Além dos novos navios, começa a crescer a viabilidade de retrofits em navios “dual-fuel”, voltados para o metanol, e até nos convencionais. No primeiro caso, os ajustes são mais simples, apenas no software e nos bicos injetores. Mas também é possível fazer adaptações em navios movidos a bunker.
“Os navios têm uma vida útil muito longa. Se o armador tem a possibilidade fazer o retrofit em um navio tradicional quando for fazer a docagem [manutenção], que ele tem que fazer a cada cinco anos, ele consegue até esticar a vida útil da embarcação sem ter a necessidade de construir um novo navio. Com um custo muito menor, ele se adequa a uma solução que está disponível”, disse Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One LatAm.
“O navio é um ativo de capital intensivo e de longa vida útil. Para um operador, é chave ter flexibilidade para utilizar o combustível que for, nesta equação econômica e de intensidade de carbono, o mais competitivo do momento”, acrescentou Manzano.
Todos os abastecimentos previstos no contrato serão realizados no Porto de Santos, em uma operação coordenada com a Santos Brasil, que opera o Tecon Santos, e a AGEO Terminais, que opera os tanques de armazenagem de etanol. Para levar o etanol aos navios, a BunkerOne adaptou uma barcaça antes usada para transportar bunker para operar agora com etanol.
Segundo Manzano, a Copersucar espera que, a partir deste contrato, a companhia estabeleça um fluxo constante de fornecimento de etanol para o transporte marítimo, e espera alcançar um volume de 200 milhões de litros para este fim já em 2027. Para atender a esta perspectiva, a BunkerOne está adaptando uma nova barcaça para movimentar volumes maiores de etanol entre o Tecon e os navios.
Um dos objetivos da Copersucar já para 2027 é fornecer etanol para navios em outros países, como em Cingapura. “O porto de Cingapura movimenta, por mês, mais do que o Brasil em um ano”, observou Ribeiro. Outra meta é fornecer etanol para navios nos Estados Unidos, onde a Copersucar comercializa o etanol do país e tem 12 terminais conectados a portos.