Depois do diesel, a gasolina? Mercado desconfia de Bolsonaro clonando Dilma e prejudicando o etanol

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22/02/2021
Gasolina tem preço médio de R$ 5,03; etanol compensa mais em algumas regiões
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UDOP

O que pode estar por vir de interferência do presidente Jair Bolsonaro na política de preços da Petrobras (PETR3; PETR4) sobre o diesel, deixa também alguns agentes do mercado apreensivos em relação à gasolina. Por tabela, o setor de etanol já observa atento, olhando no retrovisor os prejuízos causados durante a repressão dos preços no governo Dilma Rousseff.

Bolsonaro zerou os impostos federais por dois meses sobre o combustível dos utilitários, mandou para o Congresso Projeto de Lei Complementar que unifica a cobrança do ICMS em todo o País (para todos os produtos energéticos), mas a indicação do general Joaquim Silva e Luna para o lugar de Roberto Castello Branco na estatal gera mais incertezas.

Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), lembra que os dois fundamentos de formação de preços dos combustíveis vão seguir pressionando independentemente da vontade do governo.

O petróleo está com viés de alta, com os produtores ainda segurando mais bombeamento, e com expectativas de aumento da imunização nos países centrais reforçando as economias. E o dólar deve seguir a trajetória de oscilar em alta, “diante da taxa de juros (Selic) a 2% e sem as reformas esperadas”.

“Então, é bem possível, sim, que tanto quanto forçar a Petrobras a segurar os preços do diesel, não repassando totalmente os custos das importações, a gasolina vai acabar também a sofrer interferência”, diz.

E já há defasagem na gasolina, acredita ele, portanto a interferência já estaria existindo mesmo com o governo e Castello Branco dizendo que a política de repasse de custos esteja funcionando.

Pelos cálculos da entidade, precisaria haver um aumento de R$ 0,08 a R$ 0,12 no combustível, mesmo considerando o reajuste de 10% na refinaria na sexta. No diesel, a média é de R$ 0,13. Nos dois casos, as variações dependem dos portos de internação.

Valor da gasolina engessado é sinônimo de perda de competitividade do etanol hidratado e remete à gestão da petroleira sob o governo Dilma. De 2011 a até praticamente deixar a presidência, isso custou R$ 40 bilhões de prejuízos ao setor sucroenergético, levando-se em conta, também, as dezenas de unidades produtoras que entraram em falência ou em recuperação judicial.

Produtores

Para os produtores de cana independentes, o custo foi mais alto, porque representou um preço deprimido pago pela matéria-prima, num período que dominava o ATR (total açúcar recuperável) como tabela única de cotação, no qual o valor de mercado do mix tem muita relevância. Muitos saíram da produção, sem capacidade de investir em melhorias, e o setor industrial passou a dominar os canaviais brasileiros.

Isso deixa em alerta a Feplana, a entidade nacional dos plantadores. Para o presidente Alexandre Lima, “pelo jeito, sim, poderá acabar sobrando para a gasolina também”. Igualmente gestor da cooperativa Coaf em Pernambuco, que agrega campo e a usina Cruangi, qualquer represamento da gasolina implicará em maior gravidade.

“E ainda não temos a definição por parte do governo sobre a venda direta de etanol das usinas aos postos, que já foi aprovada mas necessita de adequação tributária, o que ajudaria dar mais competitividade com os preços mais baixos sem o distribuidor no meio do caminho”, complementa.

A discussão sobre a política que a Petrobras deverá adotar, de agora em diante, não foge à percepção há muito arraigada no mercado. “Os governos nunca deixam que a Petrobras cumpra sua política de precificação”, avalia Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar PE e da Novabio.

Como as demais fontes ouvidas por Money Times, o executivo adverte que “a política de preços deve retratar uma estratégia de equilíbrio, que seja possível de ser executada em um determinado tempo com transparência e a máxima eficiência possível”.

Noves fora o pragmatismo dos conceitos administrativos e econômicos que o mercado quer ver na estatal — que mal saiu dos prejuízos causados depois também pela Operação Lava Jato e já tem os papéis novamente depreciados em bolsas -, há o pragmatismo político-eleitoral que deverá pressionar a gasolina e o etanol.

Segurando o diesel, como o governo vai justificar para a sociedade que a gasolina continuará sendo reajustada?

Mesmo que Sérgio Araújo, da Abicom, entenda que o combustível leve não tenha a mobilização dos caminhoneiros pressionando, nem só de diesel vive a economia e nem todos os eleitores. “Tem impacto na inflação e vai para as manchetes”, conclui, mesmo frisando que a gasolina já esteja sem paridade de preço com o petróleo.

Fonte: Money Times

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